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Sáb, 27 de Dezembro de 2008 13:03

Cônego Henrique Soares da Costa

O Governo Federal vai começar, mais uma vez, sua campanha de prevenção da aids. E, mais uma vez, a ênfase é equivocada: ao invés de conceber a prevenção como dimensão de um programa mais amplo de educação sexual, abordando o sexo como coisa séria para a dignidade e a realização humanas, incluindo o valor da castidade e da decência, a relação entre sexo e amor, sexo e família, sexo e responsabilidade, vai-se, simplesmente, divulgar a camisinha. Eis aí tudo quanto o nosso glorioso Governo tem a dizer sobre o assunto! "Vista-se! Use camisinha!" É este o eloqüente lema da campanha governamental... Bem diferente da proposta que a Escritura apresenta aos cristãos: "Revesti-vos do Cristo Jesus e não satisfareis os desejos da carne!" Como podemos ver, não pode haver acordo entre a mentalidade mundana do Governo e a mentalidade cristã: as perspectivas são diferentes, os caminhos são antagônicos!

Eis aqui, portanto, um pequeno exemplo de dois modos de pensar e viver totalmente diferentes: o modo segundo o cristianismo e o modo segundo o mundo, o modo do Evangelho e o modo da sociedade atual. O primeiro modo fundamenta-se em Jesus, no seu jeito de viver, no seu amor que se nos deu todo e nos pede o risco de lhe dar tudo. Esse modo de viver somente é possível, somente é compreensível para quem encontrou Jesus, quem o experimentou na estrada da existência como sua vida e seu encanto. Quem não se apaixonou por Jesus e não vive segundo o seu Espírito, jamais compreenderá as exigências e propostas do Evangelho... O segundo modo de viver, o do mundo atual, fundamenta-se no próprio homem, sempre sedento, sempre buscando, mas, coitado, tão quebrado interiormente, entregue a sonhos tão belos e ilusões tão loucas, dilacerado por tantos desejos e paixões... A medida do primeiro modo de viver é o Cristo, o Homem Novo, o Homem como Deus sonhou desde o princípio, o modelo de todo ser humano autenticamente realizado, modelo tão luminoso que nos cega! A medida do modo de pensar do mundo atual é o velho Adão, o homem quebradiço, sempre tentado a ser Deus, senhor do bem e do mal! Tentado a ser Deus, mas que não passa de pó que ao pó vai tornando...

Mas, voltemos ao preservativo do Lula, e à questão da sexualidade, de modo geral. Neste tema específico, como já afirmei, os caminhos do cristianismo e do mundo atual, pós-cristão e neo-pagão, são totalmente diferentes. Eis: para o cristianismo, a sexualidade não se reduz à genitalidade nem muito menos ao prazer erótico. Envolve, sim, o homem todo e, por isso, deve também ser colocada no âmbito da fé, sob o senhorio de Cristo. No plano de Deus manifestado em Jesus Cristo, o sexo e o ato sexual devem ser sinal de verdadeiro amor, celebração deste, como abertura generosa e madura para o outro e para a vida, como dom e oblação responsável e comprometida, que fazem a vida feliz. Sexo, portanto, é algo profundamente humano, empenhativo, comprometedor, envolvente; é algo a ser vivido com seriedade. A sexualidade é uma realidade profundamente positiva, mas quebrada e ambígua, como tudo que é humano. O homem é um ser ferido, desfigurado pelo pecado e somente em Cristo pode ser transfigurado à imagem do Homem Novo, verdadeiro Adão. Ora, quanto mais uma realidade é profunda, quanto mais finca suas raízes no fundo da existência humana, tanto mais tal realidade é marcada pela quebradura e ambigüidade humanas: tanto nos pode construir e fazer felizes, quanto nos pode alienar de nós mesmos e daquela imagem que Deus, desde o início, imprimiu em nós. Precisamente por ser tão profunda na vida humana, a sexualidade é tão quebradiça e ambígua! Entregue a si mesma, à sua força cega, tiraniza e escraviza, gerando solidão desagregadora; mas, iluminada por Cristo, torna-se expressão e sinal de amor, de comunhão e de entrega que faz feliz! Portanto, na visão cristã, a sexualidade é para o homem e deve ser integrada por ele no conjunto da sua vida, deve ser caminho e instrumento do seu percurso para Deus e para os outros. Daí, para os cristãos, a castidade (= reto uso da sexualidade, de acordo com o Evangelho) e a continência (= a livre renúncia à relação sexual temporária ou permanentemente) são valores, pois ajudam a humanizar a sexualidade, colocando-a a serviço da nossa relação com Deus, conosco e com os outros, fazendo-nos senhores de nós e, portanto, mais maduros.

Eis o motivo do “não” da Igreja à permissividade, às relações fora do casamento, ao uso indiscriminado de anticoncepcionais, à aberrante "educação" sexual que se limita à propaganda de preservativos, incentivando subliminarmente as relações sexuais irresponsáveis e prematuras.

Enganam-se ou usam de má fé os que afirmam que a Igreja tem uma visão negativa ou castradora da sexualidade. O que ela tem, inspirada pelo Evangelho, é uma visão do ser humano que não pode aceitar que seja desfigurada aquela imagem que Deus imprimiu em nós desde o princípio, quando, através de Cristo e para Cristo, nos criou, para que tragamos em nós a reflexo do Homem Novo, vencedor do pecado e da morte.

Não espero que o mundo compreenda essas coisas, mas que os cristãos e as pessoas de boa vontade – crentes ou não – compreendam os motivos da Igreja. Pode-se não concordar com ela, mas não se pode simplesmente banalizar e desprezar com honestidade os seus motivos. Uma coisa é certa: o critério dos cristãos não é o pensamento único globalizado, burguês-capitalista, dominante no mundo atual, mas o sempre novo, sempre incômodo e sempre fascinante Jesus de Nazaré, o Cristo, nosso Deus.

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