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| Ainda o problema: Deus e o tsunami |
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| Sáb, 27 de Dezembro de 2008 13:04 |
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Cônego Henrique Soares da Costa
Estamos tristes e magoados pela terrível tragédia provocada pelo maremoto asiático. Tudo parece tão absurdo, tão sem sentido... Alguns insensatos apressam-se em colocar em xeque Deus e a religião. Houve quem declarasse: "Ou Deus não existe, ou, se existe, não é bom... Ou é necessário arranjar outro significado para a palavra bondade..." Tales Alvarenga, colunista da anti-católica revista Veja, achando-se mais esperto e perspicaz que os demais mortais, afirmou que, se Deus existe, não age no mundo, não se ocupa dele... Ora, é necessário recordar duas coisas. Primeiro: o problema do mal sempre angustiou a humanidade e questionou as pessoas de fé. Se Deus existe, se é bom, se seu coração é misericordioso, então por que o mal, sobretudo aquele que provoca a dor e o sofrimento dos inocentes e dos fracos? Na própria Sagrada Escritura, aparece de modo dramático essa dor incurável diante do mal. Basta ler o Livro de Jó e o Salmo 72/73. Os crentes nem são bobos nem insensíveis! Segundo: os que não acreditam em Deus sempre usaram o mal para afirmar o seu ateísmo. Um filósofo do século XX afirmava, cheio de rancor: "Se Deus existe, o mundo é o seu campo de caça!" Frase duríssima, terrível! Um outro, dizia: "Diante do mal no mundo, a única desculpa para Deus é que ele não existe". O próprio Salmista, já sentia a crise da fé diante da realidade do mal: "O meu pranto é o meu alimento de dia e de noite, enquanto insistentes repetem: 'Onde está o teu Deus?'" (Sl 41/42,4) O problema do mal é sério e real e, desde sempre, crentes e não-crentes debatem-se com ele. O que não é admissível é a leviandade de quem julga a questão simples e fácil, afirmando, simplesmente, que Deus não existe ou é indiferente ao mundo e ao seu destino. Não menos reprovável e vergonhosa é a afirmação de alguns pastores pentecostais, segundo quem a tragédia asiática foi um castigo pelo politeísmo dos países atingidos. Tal afirmação é pior que a dos ateus! Do deus vingativo e neurótico desses pastores, eu sou ateu e ateu quero permanecer! Esse deus é pagão; não tem nada a ver com o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. Mas, feitas estas considerações, resta o problema, tão gigante quanto os tsunamis assassinos: Por que o mal no mundo? Por que a dor do inocente? Gostaria somente de aprofundar pistas que poderão ajudar a refletir de modo cristão sobre o problema. (1) A Escritura afirma que Deus é bondade, amor e vida. O Pai tudo criou através de seu Filho e para o seu Filho, eternamente. Então, tudo é essencialmente bom e manifesta a bondade de Deus. (2) Mas, as Escrituras Sagradas não desconhecem também a existência misteriosa do mal. Elas não explicam sua origem; afirmam somente que o mal está misteriosamente ligado à liberdade da criatura e se manifesta, sobretudo, no próprio homem que, desde o início de sua história, teima em fazer as coisas do seu modo, fechando-se para o Criador. Mais que isso não sabemos. (3) No entanto, perguntamos: Deus não age no mundo? Não poderia evitar o mal? Sim, Deus age no mundo - a Escritura repete isso numerosas vezes. Mas, quem pode compreender a sua ação? Ele não é um ser entre os outros seres; não pode ser apreendido, sua ação não pode ser capturada pela nossa inteligência ou por métodos científicos... Ele está no mais íntimo e no mais além de tudo; ele está na flor que se abre, na vida que teima em voltar, na humilde gota de orvalho, na força do tsunami... Sem ser nada disso, ultrapassa tudo isso, em tudo isso está presente. Não podemos compreendê-lo, penetrar o seu modo de orientar sua criação. A Escritura afirma isso, dizendo que Deus é Santo, isto é, Separado, Diferente de tudo quanto possamos imaginar. Diferente é Deus, Diferente e Incompreensível é sua ação! Por isso os judeus não pronunciam o Nome de Deus: Ele não pode ser enquadrado, dissecado, compreendido pela nossa lógica! (4) Para os cristãos, o mal não pode ser compreendido a partir da filosofia. Seria muito simples se pudéssemos enquadrar a questão nas nossas categorias: Deus é bom com quem é reto e castiga quem é perverso. Mas, não é assim! Os pensamentos e critérios de Deus não são os nossos. O cristianismo só vê um modo de abordar de modo real e fecundo o problema do mal: olhar a atitude de Deus, que se manifestou em Jesus Cristo. No seu Filho, Deus envolveu-se com o mal, tomou-o sobre si, suportou-o! Ele, o Inocente, foi atingido em cheio pelo mal físico e moral... E o Pai calou-se, permitiu que seu Filho amado padecesse até a morte e morte de cruz! E, no entanto, o Pai se compadeceu do Filho, sofreu com ele, e o ressuscitou, fazendo-o Senhor e Cristo! Para nós, cristãos, Deus se compadece do mundo, padece com o mundo! Na vida e na cruz do Senhor, nós compreendemos que Deus não está longe de nós nas nossas pequenas ou grandes tragédias: silenciosamente, ele toma sobre si nossas dores e lágrimas... Como o Filho amado, que, diante da paixão e da cruz, não descreu no Pai, não voltou atrás na sua confiança inabalável, também os cristãos são chamados à atitude do Mestre. Somente unindo a dor do mundo à dor do Cristo é que podemos encontrar um sentido para o sofrimento nosso e do mundo... (5) Não sabemos o porquê de uma miséria trágica como a da Ásia... Aqueles povos não eram mais culpados que nós! No entanto, o próprio Jesus nos preveniu no Evangelho que esses acontecimentos dolorosos devem chamar-nos à conversão, pois nos recordam que a vida é fugaz, que o homem é pequeno, que não somos os donos da bola! Não podemos garantir a existência: somos como a erva que murcha, como a sombra que passa. Somente em Deus nossa vida permanece. E ele é confiável: o seu nome é Eternidade, o seu nome é Amor. E nós creremos nisso, aconteça o que acontecer, porque vimos e tocamos no amor e na fidelidade, manifestada no mais trágico dos acontecimentos: a cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ali, Deus mostrou para sempre que nos ama, não nos deixa e, mesmo em silêncio, não é indiferente à nossa dor. Bendito seja ele para sempre, na nossa vida e na nossa morte! Artigos Relacionados: |
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