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O mistério da Encarnação PDF Imprimir E-mail
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Sáb, 27 de Dezembro de 2008 13:06

Côn. Henrique Soares da Costa

“E o Verbo se fez carne a habitou entre nós e nós vimos a sua glória” (Jo 1,14). Estas palavras, tiradas do Prólogo de São João, resumem de modo estupendo aquilo que chamamos de Encarnação: o fato de o Filho eterno do Pai, Deus vindo de Deus, Luz vinda da Luz, ter-se feito homem e vivido nossa vida humana. Trata-se do mistério celebrado pela Igreja de modo especial no Santo Natal.

Nós cremos que o Filho eterno é Deus com o Pai e como o Pai. Ele existe eternamente (cf. Jo 1,1s; 17,5), eternamente pleno, infinito, feliz. E, por nosso amor, para nos elevar à comunhão com o Pai no Espírito Santo, gratuitamente assumiu a nossa condição humana! Como homem, ele deveria assumir tudo que é nosso e, até a morte de cruz, encher de perdão e de vida divina a nossa vida e o nosso mundo, dando-nos a paz com Deus, conosco mesmos, com os outros e com toda a criação; paz que o pecado nos tirara. Com palavras comoventes, São Pedro Crisólogo, Bispo de Ravena no século IV, ensinava: “Talvez dirás: ‘Que necessidade para um Deus, de nascer? Sua potência criadora não lhe basta?’ Que necessidade? Eis: nascendo, Deus devia refazer de novo aquela natureza que ele tinha modelado por sua ação criadora. De fato, aquela natureza que tinha sido criada para gerar para a vida, gerava para a morte. O pecado do primeiro homem, tendo mortalmente ferido a natureza, esta, em vez de ser princípio de vida tornou-se origem de morte. Foi então o grande motivo do nascimento que levou o Cristo a nascer, a fim de que o nascimento do Criador procurasse a cura da natureza e aquela cura desse a vida aos filhos de Adão”.

Mas, concretamente, que podemos dizer de Jesus de Nazaré, o Filho eterno, feito realmente homem no seio de Maria Virgem? Eis o que diz a verdadeira fé: Jesus é a segunda Pessoa da Trindade Santa. Ele não é simplesmente um mensageiro de Deus, como os profetas antigos! Ele não é um sábio ou um iluminado. Ele é o próprio Deus; ele é uma Pessoa realmente divina, igual ao Pai e ao Espírito Santo. Sendo uma Pessoa divina, tem uma natureza (isto é, um modo de ação, um modo de ser e de se exprimir) realmente divina. No entanto, sem deixar sua natureza divina, assumiu a nossa natureza humana, limitada, sujeita ao crescimento, ao envelhecimento, à morte... Assim, em Jesus há uma pessoa, um “eu” divino, mas agindo em duas naturezas: uma divina e outra humana. No entanto, sua natureza divina aparece eclipsada, escondida nos evangelhos, pois Nosso Senhor, tendo a forma de Deus, assumiu a forma de Servo” (Fl 2,5s), fazendo-se realmente homem. Que significa dizer que Jesus é homem de verdade? Significa que ele tinha realmente corpo e alma humanos: precisou alimentar-se, descansar, crescer, aprender, perguntar... Ele teve uma psicologia humana igualzinha à nossa: não sabia tudo, sentiu medo, entristeceu-se, teve que aprender humanamente a buscar realizar a vontade do Pai. É um mistério profundo e belo: o Filho eterno do Pai viveu em tudo a nossa condição humana, menos o pecado! Na sua natureza divina, jamais deixou o Pai; na sua natureza humana, viveu em tudo nossa condição; na sua natureza divina é infinito, na sua natureza humana foi reclinado na manjedoura e no sepulcro. A antiga liturgia das Gálias dizia assim: “Aquele que deu forma a todas as coisas recebe a forma de escravo; Aquele que era Deus é gerado na carne; eis que ele é envolvido em panos, Aquele que era adorado no firmamento; e eis que repousa numa manjedoura Aquele que reinava no céu”. E uma outra oração litúrgica da Igreja antiga exclamava: “Ele estava deitado, envolvido em panos e brilhava entre as estrelas; em sua carne, ele estava envolvido em panos, em sua divindade ele era servido pelos Anjos; ele repousavam numa manjedoura, mas seu poder agia nos céus”. E a própria liturgia nossa, latina, canta, no dia do Natal: “O Criador do mundo um corpo vil tomou; a carne salva a carne: não perca os que criou! Presépio não despreza – que palhas tão suaves! De leite quis nutrir-se o que alimenta as aves!”

Pensemos bem: naquele Jesus dos evangelhos Deus viveu a nossa vida humana: ele realmente humanizou-se! O ex-frade franciscano, Leonardo Boff, num texto de rara beleza, observa: “Ele quis realmente ser como um de nós, como eu e como tu, menos no pecado: um homem limitado que cresce, que aprende e que pergunta; um homem que sabe ouvir e pode responder. Deus não assumiu uma humanidade abstrata, animal racional. Ele assumiu, desde o seu primeiro momento de concepção, um ser histórico, Jesus de Nazaré, um judeu de raça e religião, que se formou na estreiteza do seio materno, que cresceu na estreiteza de uma pátria insignificante, que amadureceu na estreiteza de um povinho de vila interiorana, que trabalhou num meio limitado e pouco inteligente... que sentiu a opressão das forças de ocupação de seu país, que conheceu a fome, a sede, a saudade, as lágrimas pela morte do amigo, a alegria da amizade, a tristeza, o temor, as tentações e o pavor da morte e que passou pela noite escura do abandono de Deus. Tudo isso Deus assumiu em Jesus Cristo. A nada foi poupado!” Isso quer dizer que nenhum de nós caminha sozinho, já que tudo quanto é realmente humano foi assumido por Jesus, foi tocado pelo filho de Deus feito homem! Que mistério tão profundo! O tempo foi tocado pela eternidade, a história foi visitada pela glória, o homem foi assumido por Deus!

Se tudo isso é verdade – e é uma deliciosa e incrível realidade! – então, a vida humana, mesmo ferida, mesmo sofrida, vale a pena de ser vivida! Nos passos, no semblante, nos gestos e nas opções de Jesus de Nazaré, nós podemos descobrir o que Deus quer de nós, podemos aprender o que Deus sonhou para a humanidade, podemos contemplar o que é ser realmente humano segundo o coração de Deus! Jesus é o que todos os seres humanos devem ser: totalmente abertos para o Pai, totalmente em paz consigo mesmos, com os outros, com a criação toda... totalmente livres, a ponto de dar a vida por amor! Isso mesmo: o Filho fez-se homem para que pudéssemos aprender o que significa realmente ser humano! Somos humanos de verdade na medida em que nos parecemos com Jesus de Nazaré!

Tudo isso são aspectos do mistério da Encarnação; tudo isso é graça do santo Natal. Em Jesus – são palavras do Leonardo Boff – “está presente o verdadeiro Deus, matando a nossa saudade infinita, assumindo nossa fragilidade, enriquecendo nossa pobreza abissal, enxugando nossas lágrimas, enchendo-nos de alegria indizível, divinizando nossa pequenez e imortalizando nossa vida morta... Tudo isso se esconde naquele Pequenino que se move cheio de vida na manjedoura”...

Que mais dizer? Deus se fez presente, amigo, companheiro de caminho! Feliz Natal, caro(a) Irmão(ã)!

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