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A esposa e os filhos de Jesus PDF Imprimir E-mail
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Sáb, 27 de Dezembro de 2008 11:55

Côn. Henrique Soares da Costa

Maria Madalena agora está com toda bola. Dizem que foi esposa ou amante de Jesus. Certamente, tais afirmações não têm nenhum núcleo de verdade e nenhuma fundamentação histórica ou bíblica. É pura especulação sensacionalista, pseudo-cietífica, com fins lucrativos.

Mas, toda essa informação inútil e vulgar serve, ao menos, para colocar uma curiosa questão: Jesus poderia ter casado? Poderia ter tido uma amante? Poderia ter tido um lar, com esposa e filhos? A resposta, simples, direta, certeira e peremptória é: Não! Por quê? Eis:

Jesus veio a este mundo para inaugurar o Reino de Deus, o Reino do Pai. O que é este Reino tão falado nos evangelho? É Deus mesmo que, no seu Filho amado, está se revelando a Israel e à humanidade como o Pai, o eterno Pai do Filho eterno. Através de Jesus, o Filho feito homem, o Pai está dizendo à humanidade: “Eu vos amo, eu venho até vós! Convertei-vos e abri-vos ao meu amor, manifestado no meu Filho Jesus!” Pronto! Abrindo-se a Jesus, nele crendo e por ele vivendo, deixando-se guiar pelo seu Espírito, o homem é capaz de estabelecer novas relações com Deus e com os outros. Por isso o Reino que Jesus anuncia é Reino de piedade, de verdade, de vida, de justiça e de paz...

Ora, para trazer esse Reino Jesus dedicou toda a sua vida. É ele próprio, em pessoa, a pregação, o anúncio e a inauguração do Reino: ele é o Reino, pois nele o Pai reina totalmente. Toda a sua existência humana é comprometida com o seu querido Papai e é toda para o Pai. No coração de Cristo não havia nem poderia haver espaço para mais ninguém nem mais nada: para nenhuma atividade, para nenhuma palavra, para nenhum amor, nenhuma posse, que não fossem os interesses do seu Pai: Jesus vive total e perfeitamente para o Pai.

Recordemos um pouco, nos evangelhos, como o coração de Jesus teve como referencial absoluto somente o Pai e como foi absolutamente indiviso em relação ao seu Pai: suas obras, ele as aprendeu do Pai: “O Filho, por si mesmo, nada pode fazer, mas só aquilo que vê o Pai fazer; tudo o que este faz o Filho o faz igualmente” (Jo 5,19); “...as obras que o Pai me encarregou de consumar... tais obras eu as faço” (Jo 5,36). Também sua vontade é a vontade do Pai: “Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e consumar sua obra” (Jo 4,34); “Por mim mesmo, nada posso fazer: eu julgo segundo o que ouço do Pai: e meu julgamento é justo, porque não procuro a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” (Jo 5,30); “Desci do céu não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” (Jo 6,38). Ele é o Filho querido, que vive totalmente pelo Pai numa misteriosa e infinita reciprocidade: “O Pai que me enviou vive, e eu vivo pelo Pai!” (Jo 6,57). Por tudo isso, Jesus não tem nem poderia ter nada de próprio, nada fora dessa relação absoluta e exclusiva com seu Pai. Sua doutrina, por exemplo, ele a aprendeu do Pai: “Minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou. Se alguém quer cumprir sua vontade, reconhecerá se minha doutrina é de Deus ou se falo por mim mesmo” (Jo 7,16-17); “Nada faço por mim mesmo, mas falo como me ensinou o Pai” (Jo 8,28); “Não falei por mim mesmo, mas o Pai, que me enviou, me prescreveu o que dizer e o que falar e sei que seu mandamento é vida eterna. O que falo, portanto, eu o falo como o Pai me disse” (Jo 12,49s). Daí, dessa misteriosa e indizível comunhão recíproca, vem sua certeza de estar com o Pai e o Pai com ele: “Eu não estou só: o Pai está comigo!” (Jo 8,16); “Quem me enviou está comigo. Não me deixou sozinho, porque faço sempre o que lhe agrada” (Jo 8,29). Por isso ele conhece o Pai e a ele está unido: “Quem me glorifica é meu Pai, de quem dizeis: 'É o nosso Deus', e vós não o conheceis, mas Eu o conheço e guardo sua palavra!” (Jo 8,55); “Meu Pai, que me deu tudo, é maior que todos e ninguém pode arrebatar da mão do Pai. Eu e o Pai somos um! O Pai está em mim e eu no Pai” (Jo 10,29-30.38).

Jesus nunca se pensou a si mesmo em relação a outra pessoa ou a outra realidade que não fosse o Pai. Ele se via, fundamentalmente como o Enviado: toda sua missão, ele a recebeu do Pai. Eis suas próprias palavras: “Saí de Deus e dele venho; não venho por mim mesmo, mas foi ele quem me enviou” (Jo 8,42); “Deus amou tanto o mundo, que entregou o seu Filho único, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Pois Deus não enviou o seu Filho ao mundo para julgar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele” (Jo 3,16s); “Também o Pai que me enviou dá testemunho de mim. Jamais ouvistes a sua voz, nem contemplastes a sua face, e sua palavra não permanece em vós, porque não credes naquele que ele enviou” (Jo 5,37s); “Sei de onde venho e para onde vou... o Pai, que me enviou, dá testemunho de mim” (Jo 8,14.18).

Tal dependência, tal receptividade total encontra sua expressão maior na palavra Abbá, com a qual Jesus se dirige ao seu Deus. Essa expressão causou tal impacto nos discípulos e nos primeiros cristãos que, às vezes não é traduzida (cf. Mc 14,35s; Rm 8,15; Gl 4,6). Portanto, Jesus viveu sua relação com o Pai até o abandono total, a entrega confiante e incondicional: “E, indo um pouco adiante, caiu por terra, e orava para que, se possível, passasse dele a hora. E dizia: ‘Abbá! Ó Pai! Tudo é possível a ti: afasta de mim este cálice! Porém, não o que eu quero, mas o que tu queres’” (Mc 14,35s); “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito!” (Lc 24,46).

Ora, com um pouquinho de conhecimento dos evangelhos e outro tantinho de bom senso, fica claro que, em Jesus, sua pessoa e sua missão são totalmente comprometidas com o Pai. Ele e sua missão se confundem, de modo que todo o seu modo de existir, absolutamente pobre e disponível está em função do Pai. Por isso, Jesus foi celibatário por opção, como expressão da vinda do Reino e da urgência de abrir-se à sua vinda. É precisamente aqui que se radica também a exigência de celibato, que a Igreja latina faz de seus padres e bispos: ser sinal e prolongamento dessa total dedicação de Jesus ao Pai e ao seu Reino em favor dos irmãos, com um coração indiviso.

Certamente, o mundo jamais compreenderá essas realidades “porque não conhece a mim nem ao Pai” (Jo 16,3). Tanto mais o mundo for se tornando pagão, mais será insensível para as coisas relacionadas a Deus e ao seu Cristo. Quanto a nós, com alegria e gratidão, cheios de admiração, contemplamos e mistério...

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