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| Sáb, 27 de Dezembro de 2008 12:20 |
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Côn. Henrique Soares da Costa
Estamos em tempos de CPIs: dos correios, dos bingos, do mensalão. É um show! Certamente tal abundância de Comissões Parlamentares de Inquéritos faz o nosso já desmoralizado Parlamento parecer uma delegacia de polícia. Não deveria ser assim: o Congresso é a Instituição encarregada de cuidar primordialmente de legislar... Isso demonstra o nível de desmoralização, suspeição e corrupção a que chegaram nossas instituições, de modo geral, e o Governo federal, no qual o povo brasileiro colocou tantas esperanças. Se a esperança vencera o medo, agora a decepção vence, com folga, a esperança... Mas, não é para fazer análises políticas que escrevo este texto. Considerando o que tenho assistido nas CPIs e comissões, gostaria de colher algumas observações sobre a vida concreta, sobre aquilo que o coração humano esconde, em Brasília, em Maceió ou na minha casa. Vendo os atores da crise – parlamentares governistas e oposicionistas, acusados e testemunhas que depõem em Brasília, jornalistas, com seus comentários e reportagens – eu vejo o que é a humanidade; eu me vejo a mim mesmo... Que o leitor esteja atento ao show e julgue se minha avaliação é pertinente ou não. Observem primeiramente a hipocrisia de tantos que se arvoram em paladinos da moralidade e da retidão, passando-se por homens honestos e probos. No entanto, não são poucos dentre aqueles juízes os que trazem nas costas tantas injustiças, maracutaias e esquemas escusos. É assim: somos todos quebrados, somos todos marcados por incoerências e contradições; nenhum de nós, totalmente justo, nenhum de nós, totalmente reto: nem o investigado, nem o investigador, nem o repórter que, feito vampiro, procura o sangue dos culpados. A impressão que fica, ao acompanharmos o show de Brasília, é que, acusando os outros, eu como que me desculpo, apontando a miséria dos outros, eu me sinto justificado de meus erros e deslizes... É também impressionante como a palavra serve para distorcer a verdade, truncar os fatos e mascarar a realidade. O Partido dos Trabalhadores, antes tão sedento de CPIs, de repente tenta abafar tudo com verdadeiras acrobacias verbais e uma medida provisória indecente. Os partidos da Oposição, antes tão desconfiados em relação às CPIs, agora aparecem entusiasmadíssimos em investigar tudo... Como é difícil ao ser humano o compromisso com a verdade... O que vemos nos ambientes do Congresso é o compromisso com o poder e tudo quanto sustenta o poder, a qualquer preço! Que pena: em política não existe a verdade, mas somente a verdade conveniente. É tão triste! É que ninguém se compromete realmente com a verdade se não se olhar com freqüência à luz da sua consciência – e de preferência uma consciência iluminada pelo Evangelho. Deixa-me perplexo também a virulência, a prepotência com que os senadores e deputados inquiridores fazem perguntas aos que estão ali, réus ou testemunhas. Virulência de quem se considera puro, de quem pode atirar pedras, de quem se pensa superior... Ali não há compaixão, não há respeito pelo outro, simplesmente porque é outro, humano, gente. Acompanhem as inquirições das CPIs e comissões e os leitores verão como as pessoas são tratadas simplesmente como objeto, como degrau para exibição política... Mas que pena! Porque, quando a gente maneja a ironia, quando a gente pergunta sem querer de verdade a resposta, mesmo que nos desagrade, é sinal de que somos superficiais na relação com os outros... O outro, mesmo quando está errado, mesmo quando caiu feio, mesmo quando é apanhado em crime, é sempre gente, é pessoa e merece respeito... Respeita o outro quem descobriu no fundo do seu próprio coração e de sua consciência a dignidade de ser gente, de ser humano... Vê-se também, nos nossos atores, a ânsia de aparecer, de mostrar trabalho, mesmo que às custas de ser duro, injusto e desrespeitoso com os demais... Não importa se a vida das pessoas ficará marcada, não importa o que seus familiares sofram, não importa nada, a não ser que os atores brilhem, que os holofotes não se apaguem... Não sei como terminarão todas essas CPIs e comissões de investigação. Só sei que ali o único inocente é o Cristo que aparece palidamente nos crucifixos do Congresso e está presente fortemente nos desiludidos, pisados e roubados de todas as épocas e por todos os governos, de direita ou de esquerda. Também eu, que escrevo, não me julgo nem um pouquinho melhor que eles. Não sou melhor que os hipócritas que interrogam, cheios de vão orgulho e presunção; não sou melhor que os jornalistas que buscam a notícia quente às custas da honra e da dignidade dos outros; não sou melhor que os acusados, inocentes ou culpados, que são apresentados à execração pública. Quando os vejo, baixo a cabeça; confesso que, às vezes, meus olhos marejam... porque eles são da minha carne, vieram da fábrica da qual eu vim, são pobres filhos de Eva, como eu... que não sou o modelo do bem nem o exemplo da verdade... No fundo no fundo, eles são a expressão de tudo quanto eu mesmo posso ser... Eles são eu! Então, eu penso no Inocente, naquele único que não tinha pecado, que foi verdadeiro, que nunca buscou nada para si; Aquele que é o Homem perfeito, absolutamente livre porque totalmente comprometido somente com o Pai do céu e com os irmãos... penso nele crucificado, estraçalhado, penso nele vencedor da morte, e peço que ele tenha piedade de nós: dos inquiridores, dos inquiridos, dos que noticiam com sede de novidade, dos que assistem e pré-julgam, piedade de mim, pecador. Certamente, as investigações devem ser feitas, os culpados deverão ser punidos... Até o próximo escândalo, quando o Governo for Oposição e quiser investigar, a Oposição for Governo e quiser mascarar, os inquiridores forem réus, apanhados com a mão na massa e eu, que agora me julgo reto (como o fariseu que se vangloriava diante do publicano), estiver novamente, cometendo meus egoísmos e pecados de cada dia... É isso que somos, é essa a nossa história e, por isso, era necessário que o Cristo, o Homem perfeito, viesse e tomasse as nossas dores e fosse ferido com as nossas feridas, para nos libertar de nós próprios, mostrando-nos o caminho da vida, que só se abre pela cruz e ressurreição. Artigos Relacionados: |
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