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Reflexões sobre o crer - II PDF Imprimir E-mail
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Sáb, 27 de Dezembro de 2008 12:24

Cônego Henrique soares da Costa

O leitor há de recordar meu outro escrito sobre este mesmo tema. Afirmava eu que vivemos de crer uns nos outros e, portanto, crer, é indispensável para a vivência e a convivência. Afirmei também que o crer em Deus é um crer de outra ordem: neste caso, ninguém pode dizer que viu, que tocou... Ante Deus, somos todos crentes. Disse ainda que o ateísmo “científico” é contraditório, pois, se só se pode saber que Deus existe pela fé, também somente por uma fé atéia se pode garantir que ele não existe, já que a ciência não pode afirmar nada com certeza sobre um Ser que ultrapassa a nossa percepção. Finalmente, perguntei se a melhor atitude nossa para a questão de Deus não seria a do agnosticismo: não sei se ele existe ou se não existe; humildemente, não afirmo nem nego...

Quanto à minha afirmação que a ciência não tem nada a dizer sobre Deus, explico-a agora. Albert Einstein respondeu a um jornalista que lhe perguntou se acreditava em Deus: “Primeiro explique o que você entende pela palavra ‘Deus’, e direi se creio nele”. Eis! Que queremos dizer quando dizemos “Deus”? Para as três grandes religiões monoteístas, Deus é o Ser que ultrapassa, penetra, envolve e sustenta todos os seres. Mais amplo que o universo, mais íntimo que o íntimo da nossa consciência, a tudo presente, infinitamente onipotente e, no entanto, tão para além de tudo, e de tudo tão amorosamente respeitoso, que não podemos percebê-lo. Rigorosamente falando, Deus não existe (ou seja, não tem início, progresso, fim): Deus, simplesmente, É! Deus é! Ele não é um ser; ele é o Ser, o Ser por excelência, do qual todos os seres provêm, como de uma eterna fonte de amor. São João da Cruz afirmava, no século XVI: “Deus, para nós, nesta vida, é nem mais nem menos que noite escura!” Ora, a ciência não tem nada a dizer sobre uma Realidade assim. Compete-lhe descrever, analisar, compreender os fenômenos deste mundo, fenômenos que se apresentam à nossa experiência e aos nossos sentidos, fenômenos identificáveis, finitos ou, em linguagem filosófica, categoriais. Um Deus como esse, afirmado pelas religiões monoteístas, simplesmente jamais poderá ser negado ou afirmado por nossos sentidos, por nossa percepção! Se conseguíssemos provar que ele existe ou não existe, estaríamos provando algo a respeito de um outro ser, não Deus, que ultrapassa tudo! Um cientista positivista como o bioquímico François Jacob, ateu, afirmava sinceramente: “Há homens de ciência absolutamente respeitáveis, excelentes cientistas, que crêem na existência de Deus. Porém, esse fato nada tem a ver com a ciência, uma vez que pertence a outro campo”. Também Claude Lévi-Strauss, respeitadíssimo antropólogo e etnólogo, admitia com franqueza: “Um ateísmo que se justifique sobre bases científicas é insustentável, porque implicaria a capacidade da ciência de responder a todas as questões. Evidentemente, ela não tem essa capacidade e não terá jamais”. Em outras palavras: os limites da existência são bem mais amplos que os limites da ciência! Assim, quem garante que Deus não existe, está fazendo profissão de fé, não ciência; fé atéia, fé no Nada; mas sempre fé!

Então, a melhor posição ante a questão de Deus seria mesmo o agnosticismo? Não seria ele mais realístico, leal, piedoso, pois que reconheceria onde termina nossa pretensão de saber e conservaria um respeitoso silêncio ante o Mistério? Não seriam os ateus e os crentes um bando de conversadores sobre o que não podem provar nem explicar? O problema do agnosticismo é que a sede de Infinito, sede de Plenitude e Vida – leia-se “sede de Deus” - pertence à natureza humana; não é uma simples realidade cultural, tanto que, quando o homem nega Deus tudo quanto consegue é construir ídolos. Sem Absoluto ninguém vive: o homem é essencialmente aberto, sedento de uma sede de comunhão e uma plenitude que realmente nenhuma criatura finita pode saciar. Podemos dizer sem medo que o limite do homem é somente o Ilimitado. Assim sendo, será que o homem pode mesmo deixar impessoalmente de lado a pergunta sobre Deus, a questão da nossa Origem, do nosso Destino e da medida do nosso ser? Será que poderíamos mesmo viver de modo unicamente hipotético, como se Deus não existisse, mesmo que talvez, exista? Esta, no fundo, é a proposta do agnosticismo: viver como se Deus não existisse, não ocupar-se dele... Após a morte, se vê se ele existe ou não! Será isso possível realmente? Tudo que se conseguiria seria ou crer e viver como crente ou não crer e viver como um ateu prático... A verdade é que o agnosticismo não existe na prática: ou se vive crendo em Deus e, portanto, aberto para ele ou, ao invés, se vive por conta própria, como ateu! O agnosticismo somente poderia existir teoricamente, e é contraditório, é a fuga de pensar se, na prática, é-se crente ou ateu! Insisto: o problema de Deus não é teórico, mas empenha a vida; é uma questão prática! Se na teoria eu sou agnóstico, dev,o na prática escolher: ou vivo como se Deus existisse ou como se ele existisse. Se vivo como ateu, coloquei a base da minha vida numa hipótese (Deus não existe) que pode ser falsa, se escolho crer, aposto numa fé subjetiva, talvez inventada por mim e, portanto, inócua! Mais uma vez: posição praticamente impossível! E, se não apostássemos? E se deixássemos a questão de Deus para lá? Já Blaise Pascal havia se ocupado dessa possibilidade: “Ou Deus existe ou Deus não existe. Em qual dessas duas hipóteses quereis apostar? Em nenhuma das duas. A resposta correta é exatamente não apostar! Estais enganados! Apostar é necessário; não é facultativo. Também vós estais comprometidos!” Como se pode ver, meu caro leitor, a questão é bem complexa! Para alguém que seja responsável e tenha um pouquinho de profundidade no pensar e compromisso com o sentido da própria existência, a questão de Deus é urgente!

Resumindo o que tentei apresentar até agora: (1) crer faz parte da dinâmica humana; (2) a fé em Deus é um crer diferente, pois se refere a Alguém que não pode ser capturado nem apreendido pelos nossos sentidos; (3) cientificamente, não se pode afirmar que Deus existe nem que não existe; (4) o ateísmo científico não tem nada de científico: é somente uma fé mascarada e contraditória; (5) o agnosticismo é uma posição praticamente impossível. (6) É preciso apostar: ou Deus existe ou não existe! Mas, como apostar às escuras? Seria, então, a fé uma atitude cega e irracional. Isso é assunto para um próximo texto... se ainda tiverem paciência de ler-me...

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