Informações
| Reflexões sobre o crer - I |
|
|
|
| Artigos |
| Sáb, 27 de Dezembro de 2008 12:25 |
|
Cônego Henrique soares da Costa
Num outro artigo, fiz dura crítica a um filósofo francês, Michel Onfray, apóstolo do anti-teísmo; ele não somente afirma que Deus não existiria e esculhamba com o cristianismo, o judaísmo e o islamismo, como também faz campanha para destruir a fé dos outros. Critiquei-o, e mais duras críticas teria a fazê-lo se oportunidade e espaço houvesse. Contudo, para não me ocupar muito de quem minha ocupação não merece, gostaria – isto sim – de fazer algumas análises sobre essa maravilhosa aventura humana que é crer. Certamente as reflexões que apresentarei neste e nos artigos seguintes não são somente minhas, mas fruto de meditações de outros, presentes nas minhas leituras e filtradas pela minha sensibilidade pessoal. Não vou indicar fontes, porque o que apresentarei não é uma monografia científica, mas um discorrer informal para instigar sua imaginação e sua razão, meu caro leitor – e creia-me: “caro” leitor sim, quer concorde quer discorde de mim! Começaria com uma pergunta provocativa: crer será mesmo uma atitude digna do homem atual, homem da ciência e da tecnologia? Tem lá jeito eu crer e defender a fé enquanto digito no meu computador, fruto da ciência e da tecnologia? Se pensarmos bem, crer aparece como algo transitório, que deveríamos sempre procurar superar. Refiro-me ao “crer” em geral: melhor que crer é saber. Por exemplo: creio na palavra do mecânico porque não compreendo o funcionamento do motor do meu automóvel. Mas, seria melhor que eu aprendesse e soubesse tudo sobre a máquina; assim, não precisaria crer no tal mecânico, que poderia até mesmo enganar-me. No entanto, não poderemos jamais superar essa necessidade de crer, pois a maior parte do que sabemos é pura confiança na ciência, certamente fundada na confirmação da experiência diária: se ligo o interruptor e a lâmpada acende, se aperto o botão do controle remoto e a TV funciona, então ponto para a ciência. Posso, então, afirmar que queiramos ou não, vivemos de fé, de confiança. É isto que alicerça e cimenta a cultura em que vivemos, a tradição que alimenta nosso modo de pensar, amar, viver e agir. A vida humana seria simplesmente insuportável e impossível sem a atitude de confiar no saber e na experiência e testemunho dos outros. A atitude fundamental nossa não é a da descrença, mas a da confiança ou, se preferirmos, da fé: creio que o padeiro que fez o pão sabia fazê-lo e o fez com higiene; creio que o médico que me consultou é competente e disse-me a verdade, etc. Sem essa comunidade de confiança, seríamos totalmente isolados, solitários, incapazes de construir juntos a vida. Seríamos paranóicos. A incredulidade, portanto, é essencialmente contrária à natureza humana. Se é verdade que a fé (neste sentido geral de confiar) é inferior ao saber, nem por isso deixa de ser absolutamente necessária à nossa existência. Poderíamos, penso eu, estabelecer as seguintes conclusões: 1) a fé fundamenta-se sempre em alguém que sabe e em quem eu confio, 2) a fé cria uma confiança no grupo, isto é, na sociedade na qual eu vivo: creio no meu médico, no meu advogado, no meu encanador, no jornal que leio, etc e 3) a fé tem verificação na experiência diária: cri no médico, tomei o remédio e melhorei; confiei nos cálculos do meu engenheiro, dormi na casa que ele construiu e ela não caiu sobre minha cabeça... Tudo isso confirma que minha fé não foi vã... Passemos, agora, dessa fé comum, mundana, para a fé religiosa. É um grande salto, porque supera-se o saber de cada dia, que cada um pode adquirir estudando e aprendendo de modo a ter a capacidade de verificar pessoalmente. Enquanto a fé mundana refere-se a alguém deste mundo, que viu, estudou, sabe e, por isso eu confio - saber que também eu posso adquirir -, a fé em Deus diz respeito a uma Realidade que não pertence a este mundo. Não há ninguém em quem se possa confiar: ninguém viu a Deus, ninguém tocou nele. Ninguém pode dizer-me: estude e você tocará também! Um químico não precisa crer nos átomos: ele os “toca”, os estuda; um biólogo não precisa crer nos micróbios: ele os percebe com seus potentes microscópios... Mas, e Deus? O padre não o viu, o Bispo não o viu, o Papa não tocou nele, o jovem que jura que ele existe não fitou os seus olhos! Todos, absolutamente, devem crer; a fé é para todos, desde o Papa ao último batizado! Eis-nos, portanto, diante de um belo problema, do drama mesmo da fé! Sendo assim, para a questão da existência de Deus, seria, à primeira vista, mais recomendável a atitude do agnóstico: não afirmo nem nego que Deus existe. Não tenho como saber! Fico em cima do muro. Observe-se que esta posição é tentadora: parece ser uma atitude honesta e humilde, madura, sem a presunção de afirmar peremptoriamente aquilo que não se conhece de modo experimental, provado pelos sentidos e pelos instrumentos tecnológicos. É importante observar que o ateísmo é uma atitude contraditória, pois pretende saber demais. Com que direito aquele filósofo francês superficial afirma que Deus não existe? Ele pode provar isso? Não é ele que só crê na razão e na ciência? Como ele pode ter certeza da não existência de um Ser que, se existir, ultrapassa nossa razão? Compreende-me, caro leitor? Pretendendo saber demais, o ateísmo é tão dogmático quanto a fé dos crentes. Só que os crentes são honestos: dizem que acreditam e que sua fé é fé. Os ateus são vítimas de uma ilusão lógica: afirmam que Deus não existe, que provam isso e que isso é ciência. E não é. Qualquer cientista inteligente – nem todos o são – dirá que não se pode provar que Deus existe nem que ele não existe! Afirmar com certeza que ele não existe é fé; fé atéia, mas fé! E entre uma fé atéia - fé no Nada e fé em Deus, é melhor ficar com a fé em Deus! É verdade que se pode trabalhar com a hipótese que Deus não existe e, a partir dela, tentar explicar a realidade, os fenômenos do universo. A ciência faz isso: ela não coloca (nem deve colocar) Deus nas suas explicações, pois se preocupa apenas com o que aparece, o que pode ser tocado, visto, medido... Em outras palavras: a ciência ocupa-se dos fenômenos e das suas leis. No entanto, uma explicação científica do universo, que não leve Deus em consideração, não leva de modo algum a uma certeza científica que Deus não existe. Li, recentemente uma entrevista com um inteligente astrofísico da NASA, que afirmava exatamente isso: não temos como provar que Deus existe ou não. Explicamos cada vez melhor os fenômenos do universo, mas não podemos saber cientificamente se há ou não Alguém por trás deles... E por quê? Por que a ciência não tem quase nada a dizer sobre Deus – se existe ou não? Por que o cientista – astrofísico da NASA ou médico de Maceió – quando se mete a fazer afirmações sobre a existência de Deus não fala mais como cientista, mas como pessoa de fé – fé crente ou fé atéia, mas sempre fé? Isso veremos num outro artigo... E veremos também se vale a pena ser agnóstico. Artigos Relacionados: |
Fornecido por Joomla!. Designed by: Joomla 1.5 Template, database terminology. Valid XHTML and CSS.


