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| O filósofo está nu |
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| Sáb, 27 de Dezembro de 2008 12:27 |
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Côn. Henrique Soares da Costa
Qualquer leitor inteligente sabe que a Revista VEJA não gosta dos que crêem e, de modo especial, dos católicos. Em quase todos os seus números aparecem alfinetadas contra a religião e, particularmente, contra a Igreja católica. Na edição de 25 de maio, número 21 de 2005, a entrevista das “páginas amarelas”, com o título “Deus está nu”, trouxe um “filósofo” francês de 46 anos, Michel Onfray, ateu militante, ateu daqueles que fazem propaganda do ateísmo e combatem Deus e a religião. Ele é um sacerdote do Nada e da Razão atéia! Sua entrevista revela um emaranhado de mal-entendidos, ingenuidades, má-fé, ignorância e mediocridade intelectual... Não, meus caros leitores! Não estou exagerando meu juízo ou querendo denegrir nosso “filósofo”. Deixem-me citar-lhes exemplos. De mal-entendidos e ingenuidades, há um balaio. Primeiro mal-entendido é a percepção que Deus elimina o homem: “Só o homem ateu pode ser livre, porque Deus é incompatível com a liberdade humana. Deus pressupõe a existência de uma providência divina, o que nega a possibilidade de escolher o próprio destino e inventar a própria história”. Esse é o perigo de meter-se a avaliar ou criticar o que não se conhece! Se ele fizesse um cursinho de teologia veria que o cristianismo não afirma isso! Já no século II, Santo Irineu de Lião, muito mais inteligente que nosso deslumbrado amigo, dizia: “A glória de Deus é o homem vivo e a vida do homem é a visão de Deus”. Em outras palavras: quanto mais o homem for aberto para Deus, mais será homem, mais será ele mesmo! Deus se manifesta exatamente na grandeza do homem e o homem será tanto maior quanto mais for aberto para o Transcendente. Uma razão “autônoma” não é livre nem é tão racional quanto o nosso autor pretende! Este é de uma ingenuidade tremenda. Recordemos que em nome de uma razão pura já se cometeu crimes horrendos – e se cometem ainda. Basta que se pense no aborto e nas guerras dos últimos séculos. O marxismo real engendrou morte e tirania em nome da razão atéia, materialista e dialética – e ainda tem um monte de fiéis seguidores na nossas universidades, todos fiéis de fitinha e carteirinha, mais fiéis que o nosso pessoal do Apostolado da Oração! Aliás, esse argumento nada original foi muito mais bem elaborado por filósofos como Sartre e Merleau-Ponty, apesar de também construírem sobre pressupostos equivocados... É ainda um triste equívoco pensar que crer é coisa para estúpidos, iludidos, infantis e medrosos. Basta citar homens como Noberto Bobbio e Albert Einstein que, sem professarem uma religião determinada, acreditavam em Deus, como Realidade última e transcendente, que dá sentido e sustento a toda realidade. O que falta no nosso jovem e afoito intelectual é respiro e penetração especulativa. Aliás, eu não sabia se ria ou tinha pena, quando li estas palavras tontas: “Deus e a religião são invenções puramente humanas, assim como a filosofia, a arte ou a metafísica. Essas criações, é bem verdade, respondem a necessidades, como a de esconjurar a angústia da morte, mas podemos reagir de outra forma: por exemplo, com a filosofia”. Primeiro, notem como ele reconhece que a morte nos angustia a todos! Ela é a grande questão, porque coloca em questão o sentido da vida! E essa questão não se resolve sem um apelo ou uma referência ao Transcendente ou, em bom português, a Deus! Em segundo lugar, vale observar que um dos maiores gurus da filosofia atual – muitos nas universidades do Brasil constroem altares com vela e tudo para ele -, Jürgen Habermas, admite tranquilamente que a linguagem científica e a linguagem filosófica não servem para aliviar a angústia do homem diante da morte! Somente a linguagem religiosa, somente a esperança em Deus acalma o coração humano. Viva Santo Agostinho, que no século V já exclamava: “Tu nos fizeste para ti, e o nosso coração estará inquieto enquanto não descansar em ti!” Há outras ingenuidades, como aquela de pensar que a filosofia pode ser a nova religião da humanidade. Esse francês aqui parece ser uma mistura monstruosa de Platão, Robespierre e Augusto Comte. Que alma iludida! Infelizmente, há também má-fé nas afirmações do entrevistado da Veja. Ele mente, pura e simplesmente, quando diz que as religiões escolhem apenas textos sedutores e escondem os textos que são insustentáveis nos seus livros sagrados. Que nosso iluminado seja ateu, é direito dele, mas duvidar da honestidade dos teólogos e outros crente, é pura safadeza intelectual! Ele não tem esse direito! Agora um exemplo de ignorância. A exegese que apresenta dos evangelhos: Jesus prega a paz e diz que veio trazer a espada. Fiquei surpreso com a inconsistência do argumento e a impropriedade do exemplo! Não! Decididamente o moço que faz sucesso na França não é um intelectual sério pois fala do que não sabe e do que não entende! Também é ignorância das mais levianas afirmar que o desejo de Deus e o instinto religioso do homem são cultivados culturalmente. Ele próprio se desmente quando admite que a morte é causa de angústia... Seria também cultural essa angústia? Mas, o mais triste mesmo – a aqui a mediocridade do nosso autor aparece resplandecente como o sol meridiano – é a afirmação de que ”por trás do discurso pacifista e amoroso, o cristianismo, o islamismo e o judaísmo pregam na verdade a destruição de tudo o que represente liberdade e prazer”. Eis as palavras do nosso guru sem Deus: “Odeiam o corpo, os desejos, a sexualidade, as mulheres, a inteligência e todos os livros...” Seu pensamento é que “essas religiões exaltam a submissão, a castidade, a fé cega e conformista em nome de um paraíso fictício depois da morte”. Se o cristianismo fosse essa coisa horrorosa eu não seria cristão! Decididamente, nosso caro Michel fala do que não entende nem conhece! Há ainda outras coisinhas absurdas. Seria longo comentá-las aqui: dizer, por exemplo, que a Igreja usou de modo espetaculoso a morte do Papa, expondo o seu cadáver. Ele nem percebeu que isso faz parte do rito de exéquias do Papa, em vigor antes da televisão e do nascimento dos avós dele... Ao fim, constato, com tristeza, quão grande é o poço intelectual no qual a França se meteu... porque, se idéias assim fazem sucesso, que saudades da França de Descartes, Voltaire, Rousseau, Comte, Sartre, etc. Pobre França, pobre mundo, pobres nós! Artigos Relacionados: |
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