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| A Trindade Santa - VI |
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| Qua, 06 de Maio de 2009 10:50 |
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Pe. Henrique Soares da Costa O cristão vive da Vida da TrindadeNestes últimos tópicos sobre a Santa Trindade temos refletido o quanto a fé trinitária deve ecoar em toda a existência cristã. Foi assim que vimos que a Igreja é enraizada na Trindade e vive constantemente na Trindade. Ora, o que vale para a Igreja como um todo vale para cada cristão pessoalmente. Como vimos no tópico passado, tal relação começa no Batismo: aí fomos mergulhados (=batizados) no Santo Espírito do Ressuscitado. Este Espírito nos une real e intimamente a Cristo, faz-nos uma só coisa com ele, de modo que, nele, nos tornamos filhos do Pai, temos acesso ao Pai. Vejamos alguns dentre os muitos textos do Novo Testamento que nos revelam isso. Primeiramente aquele, do diálogo de Jesus com Nicodemos: “Quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus. O que nasceu da carne é carne, o que nasceu do Espírito é espírito” (Jo 2,5-6). O sentido é claro: não basta nascer humanamente, segundo a natureza; não basta ter uma alma imortal, uma inteligência; é necessário abrir-se para uma vida divina, nova, que o Pai nos dá pelo Filho Jesus. Esta vida é-nos dada pelo Santo Espírito; ou melhor: esta vida é o próprio Santo Espírito dado na água do Batismo: o que nasce do Espírito vive uma nova relação com o Pai de Jesus; é “espírito”, quer dizer é aberto para Deus! Ora, batizados no Santo Espírito de Cristo, simbolizado pela água, fomos revestidos de Cristo: “Todos vós que fostes batizados em Cristo vos revestistes de Cristo” (Gl 3,27); “Fostes sepultados com ele no Batismo, também com ele ressuscitastes, pela fé no Poder de Deus, que o ressuscitou dos mortos” (Cl 2,12). É significativo Paulo falar aqui em Poder de Deus. Não se trata de algo, mas de Alguém: do Espírito Santo! Lembremo-nos do texto da Anunciação: falando do Espírito o Anjo afirma que o Poder do Altíssimo vai cobrir Maria (cf. Lc 1,35) e nos Atos é dito que Deus ungiu o Cristo com o Espírito Santo e com Poder (cf. At 10,38). Assim, o mesmo Espírito, Poder de Deus, que ressuscitou Jesus, age no nosso Batismo. Portanto, nossa vida agora é cristiforme (= tem a forma de Cristo, Filho do Pai) e, portanto, é uma vida filial: “Todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus. Com efeito, não recebestes um espírito de escravos, para recair no temor, mas recebestes um Espírito de filhos adotivos, pelo qual clamamos: Abbá! Pai. O próprio Espírito se une ao nosso espírito para testemunhar que somos filhos de Deus” (Rm 8,14-16). Este texto é importantíssimo; é trinitário: o cristão recebeu o Espírito do Filho Jesus, Espírito de filiação. Este Espírito nos une ao Filho Jesus e, com ele, nós podemos dizer: Abbá! Papai! Isto é: pelo Espírito o cristão é unido a Jesus e passa a participar da sua relação filial com o Pai. Por isso mesmo São João vai afirmar: “Vede que prova de amor que nos deu o Pai: sermos chamados filhos de Deus. E nós o somos!” (1Jo 3,1). Assim, toda a vida do cristão torna-se vida “espirituada”, vida segundo o Santo Espírito, conduzida pelo Espírito. E o que faz este Espírito em nós? Se é Espírito de Cristo, nos cristifica: dá-nos os sentimentos e atitudes do Cristo Jesus. Por isso, falando do Espírito, Jesus afirmou: “Ele me glorificará porque receberá do que é meu e vos anunciará” (Jo 16,14). Tendo os sentimentos e atitudes de Cristo, sendo cada vez mais semelhantes a Cristo pela potência do Espírito, nós entraremos sempre mais na relação filial: faremos a experiência de viver nos braços do Pai do céu, sabendo que nossa vida é preciosa aos seus olhos e caminha para ele: “Eu vos digo: Não vos preocupeis com vossa vida, com o que comereis, nem com o corpo, com o que vestireis. Não será a vida mais do que o alimento e o corpo mais do que as vestes? Olhai os pássaros do céu: não semeiam, nem colhem, nem guardam em celeiros, mas o Pai celeste os alimenta. E vós não valeis muito mais do que eles? Quem de vós, com suas preocupações, pode aumentar a duração de sua vida de um momento sequer? E por que vos preocupais com as vestes? Observai como crescem os lírios do campo: não trabalham nem fiam. Mas eu vos digo que nem Salomão com toda a sua glória se vestiu como um deles. Se Deus veste assim a erva do campo, que hoje cresce e amanhã será lançada ao fogo, quanto mais a vós, gente de pouca fé! Por isso não vos preocupeis, dizendo: ‘O que vamos comer? O que vamos beber? Com que nos vamos vestir?’ São os pagãos que se preocupam com tudo isso. Ora, vosso Pai celeste sabe que necessitais de tudo isso. Buscai, pois, em primeiro lugar o reino de Deus e sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas de acréscimo” (Mt 6,25-33). Jesus aqui não está convidando à malandragem nem à irresponsabilidade imprevidente, mas a um abandono confiante no amor do Pai. Para isto não basta nosso esforço nem nossa boa vontade: é no Espírito do Filho Ressuscitado que temos a certeza interior que o Pai de Jesus é nosso Pai! Note-se bem: não se trata somente de um sentimento; trata-se de uma realidade impressionante e maravilhosa: porque recebemos o Espírito do Filho, participamos da sua filiação, participamos da natureza divina (cf. 2Pd 1,4). Pois bem: toda a vida do cristão é vida no Espírito, na docilidade a ele, para que ele nos cristifique e nos leve ao Pai. Tudo em nós é no Espírito, através do Filho para o Pai. A oração do cristão, por exemplo, é trinitária. Não se trata de rezar à Trindade, mas de rezar na Trindade: se nós oramos, é porque o Espírito ora em nós (cf. Rm 8,26-27) e, sendo ele Espírito do Filho, a sua oração é filial, é a mesma do Filho, isto é, é nos fazer clamar como o Filho: Abbá! Pai! (cf. Rm 8,15). Assim, toda oração nossa vai sempre terminar no Pai. Mesmo quando rezamos ao Filho é como aquele que é nosso Mediador junto do Pai. Rezamos ao Pai pelo Filho! Toda oração nossa é no Espírito. A Igreja quase não ora ao Espírito, porque ora sempre no Espírito, através do Filho, para a glória do Pai: Ó Pai, “por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo!” Trinitária nossa vida, trinitária nossa oração, trinitária será também nossa morte: para o Cristão morrer é “morrer em Jesus” (1Ts 4,14), é “partir para estar com Cristo” (Fl 1,23). Morreremos não na morte, mas em Jesus morto e ressuscitado! Isto é, aquele mesmo Espírito que recebemos no Batismo e que ressuscitou Jesus, nos ressuscitará também como ressuscitou Jesus: “Se o Espírito dAquele (do Pai) que ressuscitou Jesus dentre os mortos habita em vós, Aquele (o Pai) que ressuscitou Jesus dentre os mortos dará vida também a vossos corpos mortais, mediante o Espírito que habita em vós” (Rm 8,11). A idéia é claríssima: se temos o Espírito do Cristo morto e ressuscitado, seremos mortos e ressuscitados no mesmo Espírito no qual Jesus morreu e ressuscitou; seremos transfigurados pelo Espírito que o Pai derramou sobre nós através do Filho! Aí sim, seremos plenamente filhos, com o Filho, no único Espírito, para a glória do Pai. Era o que João dizia: “Caríssimos, desde já somos filhos de Deus, mas o que nós seremos ainda não se manifestou. Sabemos que por ocasião desta manifestação (do Filho) seremos semelhantes a ele (ao Filho), porque o veremos tal como ele é” (1Jo 3,2). Basta! No próximo tópico terminaremos nossa meditação sobre a Trindade! Até lá! O mundo e a história caminham para a TrindadeEste é o último daquela série de tópicos sobre a Trindade Santa. Já vimos que a criação é obra da Trindade: tudo vem do Pai, brota do seu coração amoroso que, gerando o Filho no Espírito de Amor, somente sabe criar e dar vida, nunca destruir e matar; tudo foi criado através do Filho: através dele e para ele foram feitas todas as coisas no céu e na terra; tudo existe na força do Espírito, que é Senhor que dá a vida e enche a face da terra. Pois bem: a criação e a história humana vem da Trindade, existe na Trindade e caminha para Trindade. Para a fé cristã, o Deus que agiu na obra da salvação é o mesmo que agiu no princípio, na criação, dando existência a todas as coisas. Assim, a criação, como nós já vimos, é referida antes de tudo ao Pai, origem e princípio de toda a vida: ele, o eterno Amante, que gera o Filho e do qual procede o Santo Espírito! E, tanto no íntimo do mistério trinitário como na criação e na história, o que move o Pai é o amor gratuito e exuberante, que o faz sair eternamente de si. A criação é fruto da liberdade amorosa de Deus: por puro amor ele tirou tudo do nada! O ato criador do Pai é ligado à geração eterna do Filho: o Pai é a mesma fonte, que gera eternamente o Filho e livremente, através dele, cria todas as coisas. Mais ainda: se o Filho é pura receptividade de amor, é o eterno Amado, a criação, feita através dele, também o é igualmente: tudo existe para ser amado pelo Pai no Amor com o qual o Pai ama o Filho. Se tudo provém do Pai pelo Filho, é no Espírito que tudo foi criado e permanece no ser: como na vida divina o Espírito mantém o Pai e o Filho no amor unificante, assim também, na criação, é ele quem mantém a unidade entre Deus e o criado: é nele que tudo quanto Deus criou é bom, é nele que se mantém a criação. É este mesmo Espírito que, mesmo com o pecado do homem, permite que Deus não se afaste do homem na fidelidade o seu amor e, mais ainda, se com-padeça do homem e com o homem. Não somente a origem do mundo é trinitária; também o seu presente. este tempo é tempo de Deus para o homem, tempo de salvação (cf. 2Cor 6,2). Neste tempo, Deus vem ao homem: Pai que sempre deseja salvar, Filho que continuamente traz a salvação na potência do único Espírito, que atua na Igreja, sobretudo pelos sacramentos, mas também atua de modo misterioso no coração do mundo e da história humana. Também o final da criação e da história será trinitário: primeiramente ação do Pai: nele tudo repousará, quando ele submeter ao Filho todas as coisas para que este, em pura resposta de amor, lhe entregue todo o criado para que Deus seja tudo em todos (cf. 1Cor 15,28). Realizar-se-á, então, a esperança do novo céu e da nova terra e Deus habitará na sua criação. Naquele tempo, o Filho entregando tudo ao Pai e sendo por ele glorificado, “julgará” todas as coisas, enquanto somente nele a criação será plena da glória do Pai: tudo quanto estiver excluído da sua comunhão, do seu corpo, será privado da glória de Deus. O tempo final será também história do Espírito: ele, efundido sobre toda a carne levará à plenitude da glória da qual era penhor. Espírito de unidade, nele, a terra e o céu serão plenificados da glória. Espírito de liberdade, conservará a autonomia da criação glorificada, que não se dissolverá na divindade! Resplandecerá, portanto, na glória do fim, a unidade do mistério trinitário: glória do Pai, que derramará o seu amor sobre todas as criaturas para sempre; glória do Filho, a quem as criaturas estarão unidas para sempre no acolhimento do amor num louvor sem fim e glória do Espírito na unidade da criação reconciliada. Aquilo que foi iniciado em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo terminará com glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo: tudo que saiu do Pai pelo Filho no Espírito, retornará ao Pai, enquanto inserido no Corpo do Cristo pela plenitude do Espírito Santo. O Espírito será a energia, a força, a atmosfera, a biosfera que nos introduzirá e manterá no corpo daquele que é Cabeça de toda a criação e, por ele, teremos acesso ao Pai para sempre! É esta a nossa esperança, a nossa certeza, a nossa fé trinitária. Com esta meditação terminamos nossa série de meditações sobre a Trindade. Uma coisa deve ter ficado clara para nós: a Trindade é o alicerce de nossa fé. Sem a consciência trinitária não se pode realmente ser cristão, não se pode compreender e vivenciar a obra do Pai que nos cria e chama à comunhão com ele através do Filho na força do Espírito. Que estas meditações nos ajudem a melhor amar e viver o mistério trinitário! À Santa e indivisa Trindade, imortal e consubstancial a glória, o louvor e a adoração pelos séculos. Amém! Artigos Relacionados: |
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