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A Trindade Santa - III PDF Imprimir E-mail
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Qua, 06 de Maio de 2009 10:54

Pe. Henrique Soares da Costa

A Igreja vai refletindo sobre a Trindade - I 

            Desde o Novo Testamento a Igreja viveu e professou um único Deus e o confessou como Pai, Filho e Espírito Santo. Nos três primeiros séculos do cristianismo esta fé nas três pessoas divinas continuou firme e imutável. Isto aparece claro nos vários escritores que apresentavam resumos da fé cristã, chamados de Regra de Fé. No entanto, apesar de uma fé firme na Trindade Santa a Igreja não tinha ainda uma linguagem técnica, teológica, para falar da Trindade. Por exemplo: não existia ainda a palavra “trindade”, as expressões “três pessoas”, “uma essência”... tudo isto somente vai surgir no século IV. Neste tópico e no próximo veremos como se deu este desenvolvimento.

            A fé da Igreja na Trindade Santa teve que enfrentar, logo no início, dois grandes obstáculos: de um lado os judeus que, fundamentados no Antigo Testamento, de modo nenhum aceitavam que Jesus e o Espírito Santo fossem Deus: para eles isso era politeísmo e paganismo. Do outro lado, os pagãos, que tinham uma mentalidade influenciada pela filosofia grega, que estava em moda na época. Para os gregos somente poderia existir um Infinito, um Absoluto, um Onipotente, um Princípio de tudo. Assim, os judeus usavam o Antigo Testamento e os pagãos usavam a razão para zombarem da fé da Igreja na Trindade Santa. Foi por isso que muitos cristãos, querendo tornar a fé cristã compreensível e aceitável para os não-cristãos, terminaram caindo no erro, quer dizer, em heresia. Todos estes erros consistiam em duas tentativas diferentes de explicar a Trindade. Vejamo-las, sabendo que foram todas condenadas pela Igreja porque traíam a revelação trazida por Jesus Cristo e transmitida pelos Apóstolos.

            O primeiro tipo de heresia era o modalismo e ensinava que somente existe um Deus que aparece de três modos diferentes, como se fosse uma só pessoa que aparece com três máscaras: máscara de Pai, de Filho e de Espírito Santo. Assim, quem teria vindo a este mundo foi o próprio Pai, disfarçado no modo de Filho; foi o próprio Pai quem morreu na cruz! Notem que esta falsa doutrina destrói a Trindade completamente: Pai, Filho e Espírito seriam somente nomes diferentes da única pessoa divina. Esta doutrina é claramente contrária às Escrituras: o Pai enviou o Filho e o ressuscitou ao terceiro dia pela potência do Espírito Santo! Um é o Ressuscitante (o Pai), outro é o Ressuscitado (o Filho) e outro ainda é o Espírito de Ressurreição; ele que glorifica! Santo Irineu, que já conhecemos do tópico passado, já tinha explicado muito bem qual era a Regra de Fé da Igreja: “Eis a regra de nossa fé, o fundamento do edifício e o que confere solidez à nossa conduta:

Deus Pai incriado, que não está contido, invisível, um só Deus e Criador do universo. Este é o primeiro tópico de nossa fé.

E como segundo tópico: o Verbo de Deus, o Cristo Jesus Senhor nosso, (...) por quem foram feitas todas as coisas; que, além disso, no final dos tempos, para recapitular todas as coisas, se fez homem entre os homens, visível e palpável, para destruir a morte, fazer que apareça a vida e realizar uma comunhão de Deus e do homem.

O Espírito Santo pelo qual os profetas profetizaram e os Pais aprenderam o que concerne a Deus e os justos foram conduzidos pelo caminho da justiça e que no final dos tempos foi derramado de uma maneira nova sobre nossa humanidade para renovar o homem em toda a terra na perspectiva de Deus”. Também Tertuliano já havia explicado claramente que na Trindade Santa há realmente Três: o Pai, o Filho e o Santo Espírito: “Três em uma substância e um status e um poder”. São realmente Três, com a mesma honra e dignidade e poder divino!

Mas um tipo de heresia ainda mais perigoso foi o subordinacionismo. As heresias subordinacionistas tentavam explicar a unidade de Deus do seguinte modo: existe somente um Deus: o Pai. O Filho e o Espírito Santo não são realmente Deus. São chamados de Deus de modo figurado. O Filho é a mais perfeita criatura do Pai: o Pai criou o Filho, o Filho criou o Espírito e, o Pai, através destes dois, criou todas as coisas! Assim, o Filho é subordinado ao Pai e o Espírito Santo é subordinado ao Filho! Por este modo de pensamento somente o Pai é eterno, é sem começo: o Filho foi criado e o Espírito Santo também. Mais ainda: para os subordinacionistas, houve um tempo em que Deus não era Pai: só se tornou Pai quando criou o Filho! O principal defensor destes erros foi um sacerdote de Alexandria chamado Ario e sua doutrina, que na época fez muito sucesso, foi chamada de arianismo.

É claro que tal doutrina também fere a revelação da Escritura! Basta ver o que mostramos nos tópicos passados sobre a fé do Novo Testamento na Trindade. Muitos santos doutores combateram o arianismo e foram perseguidos para defender a fé na Santa Trindade. Eis os nomes de alguns: Santo Atanásio de Alexandria, Santo Hilário de Poitiers, São Basílio Magno, São Gregório Nazianzeno, São Gregório de Nissa, São Jerônimo, Santo Ambrósio, Santo Agostinho de Hipona e muitos outros. Todos estes santos ajudaram a Igreja a compreender e explicar melhor a sua fé. Ajudados por estes doutores, os Bispos foram definindo e explicando de modo cada vez mais claro a fé da Igreja. Vejamos alguns exemplos: 

1)       O Concílio de Nicéia, reunido em 325 para julgar a doutrina de Ario, condenou sua heresia e ensinou:

"Cremos em um só Deus Pai oniponte,

criador de todas as coisas, visíveis e invisíveis;

e em um só Senhor Jesus Cristo Filho de Deus,

nascido unigênito do Pai, isto é, da substância do Pai,

Deus de Deus, luz de Luz,

Deus verdadeiro de Deus verdadeiro,

engendrado, não feito, consubstancial ao Pai

por quem todas as coisas foram feitas,

as que há no céu e as que há na terra,

que por nós homens e por nossa salvação desceu (do céu)

e se encarnou, se fez homem,

padeceu, e ressuscitou ao terceiro dia, subiu aos céus,

e há de vir para julgar os vivos e os mortos.

E no Espírito Santo.

Mas aos que afirmam: houve um tempo em que (o Filho) não existiu e que antes de ser engendrado não existia e que foi criado do nada, ou os que dizem que é de outra hipóstase ou de outra substância (diferente do Pai) ou que o Filho de Deus é cambiável ou mutável, a estes a Igreja Católica anatematiza”. 

A doutrina do Concílio é clara: o Filho é Deus como o Pai, é Deus gerado de Deus, como a luz é gerada pela luz; é da mesma substância (= do mesmo ser) do Pai. 

2) O I Concílio de Constantinopla, em 381, assim escreveu ao Papa Dâmaso: “Cremos na única divindade e potência e substância do Pai e do Filho e do Espírito Santo, a dignidade igual e o império coeterno em três perfeitas hipóstases, isto é, em três perfeitas pessoas”. 

Por agora ficamos por aqui. Vamos continuar no próximo tópico, mostrando o ensinamento da Igreja sobre a Trindade Santa. Até a próxima! 

A Igreja vai refletindo sobre a Trindade - II 

No tópico passado mostramos como foram surgindo, no seio da Igreja, doutrinas que feriam a fé católica sobre a Trindade. Estas doutrinas errôneas, chamadas heresias, eram sobretudo modalistas (que afirmavam que em Deus havia somente uma pessoa com três modos de aparecer: Pai, Filho e Espírito Santo) e subordinacionistas, sobretudo arianos (que afirmavam que o Filho não é verdadeiramente Deus, sendo subordinado ao Pai, e o Espírito Santo seria subordinado ao Filho). Para combater estas heresias, a Igreja procurou explicar cada vez melhor sua fé trinitária e foi criando uma linguagem precisa e técnica, deixando claro qual a sua doutrina. Foi isto que começamos a ver no tópico anterior e vamos continuar vendo neste.

Logo após a Igreja ter condenado o arianismo, afirmando que Cristo é Deus como o Pai, Deus da mesma substância, do mesmo ser do Pai, surgiu uma outra heresia, desta vez, contra o Espírito Santo: eram os pneumatômacos (esta palavra quer dizer “assassinos do Espírito”), que afirmavam que o Espírito Santo não é Deus. A Igreja os reprovou no Concílio de Constantinopla, em 381. Eis o texto da profissão de fé do Concílio:

“Cremos em um só Deus, Pai todo-poderoso,

criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis.

E em um só Senhor Jesus Cristo, o Filho unigênito de Deus,

nascido do Pai antes de todos os séculos, luz de Luz,

Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, nascido, não feito,

consubstancial com o Pai,

por quem foram feitas todas as coisas;

que por nós homens e por nossa salvação desceu dos céus

e se encarnou por obra do Espírito Santo e de Maria Virgem,

e se fez homem e foi crucificado por nós sob Pôncio Pilatos

e padeceu e foi sepultado

e ressuscitou ao terceiro dia segundo as Escrituras,

e subiu aos céus, e está sentado à destra do Pai,

e outra vez há de vir com glória para julgar os vivos e os mortos;

e seu reino não terá fim.

E no Espírito Santo, Senhor e fonte de vida, que procede do Pai,

que juntamente com o Pai e o Filho é adorado e glorificado,

que falou pelos profetas.

Em uma única Santa Igreja Católica, e Apostólica.

Confessamos um só batismo para a remissão dos pecados.

Esperamos a ressurreição da carne e a vida do século futuro. Amém.” 

Este é o texto que ainda hoje a liturgia utiliza, sobretudo nas missas mais solenes. Aí, se afirma claramente a divindade do Filho (ele é igual ao Pai, da mesma substância, do mesmo ser do Pai) e também a divindade do Espírito Santo: ele é fonte de vida (e só Deus é fonte de vida), ele é adorado e glorificado com o Pai e o Filho (e só Deus é adorado). Mais tarde, num outro documento importante, chamado Quicumque, escrito no século V, a Igreja esclareceu de modo ainda mais detalhado a sua fé trinitária:

“Todo aquele que quiser salvar-se, antes de tudo é necessário que mantenha a fé católica; e quem não a guardar íntegra e inviolada sem dúvida perecerá para sempre.

Ora bem, a fé católica é essa: que veneremos a um só Deus na Trindade e a Trindade na unidade; sem confundir as pessoas nem separar a substância. Porque uma é a pessoa do Pai, outra a do Filho e outra (também) a do Espírito Santo; porém, o Pai, o Filho e o Espírito Santo têm uma só divindade, glória igual e coeterna majestade. Qual o Pai, tal o Filho e tal (também) o Espírito Santo; incriado é o Pai, incriado é o Filho e incriado (também) o Espírito Santo; imenso é o Pai, imenso é o Filho, imenso (também) o Espírito Santo. E mesmo assim, não são três eternos, mas um só eterno, como não são três incriados, nem três imensos, mas um só eterno, e um só imenso. Igualmente, onipotente o Pai, onipotente o Filho, onipotente (também) o Espírito Santo. E no entanto não são três onipotentes, mas um só onipotente.

Assim Deus é Pai, Deus é Filho, Deus é (também) Espírito Santo; e, no entanto, não são três deuses, senão um só Deus. Assim, Senhor é o Pai, Senhor é o Filho, Senhor é (também) o Espírito Santo; e, no entanto, não são três Senhores, senão um só Senhor: porque assim como pela verdade cristã somos compelidos a confessar como Deus e Senhor a cada pessoa em particular, assim também a religião católica nos proíbe dizer que são três deuses e senhores. O Pai por ninguém foi feito nem criado nem gerado. O Filho foi gerado somente pelo Pai, não feito nem criado, mas engendrado. O Espírito Santo, procedente do Pai e do Filho, não foi feito nem criado nem engendrado senão que procede.

Há, conseqüenemente, um só Pai, não três pais; um só Filho, não três filhos; um só Espírito Santo, não três espíritos santos; e nesta Trindade nada é antes nem depois, nada maior ou menor, senão que as três pessoas são entre si co-eternas e co-iguais, de sorte que, como antes se disse, por tudo deve-se venerar tanto a unidade na, Trindade quanto a Trindade na unidade.

Quem quiser, pois, salvar-se assim deve pensar da Trindade”.

 

Por esta mesma época, os Bispos reunidos no I Concílio de Toledo, ensinaram assim:

 

“Existe também o Espírito Paráclito, que não é nem o Pai nem o Filho, senão que procede do Pai e do Filho. É, pois, não-gerado o Pai, gerado o Filho, não gerado o Espírito Santo, que procede do Pai e do Filho.

Nós não dizemos que o Filho é causa, por isso nós não dizemos que Ele é Pai... Nós não dizemos que o Espírito procede do Filho, mas nós dizemos que ele é o Espírito do Filho”. 

Portanto, a fé da Igreja é clara: há um só Deus Pai, que é o princípio de tudo na Trindade. Ele gera eternamente o Filho. É importante notar que “gerar” não significa criar! O Pai sempre foi Pai do Filho, que sempre foi Filho. Assim, os dois existem eternamente. Para que se possa compreender melhor usemos uma comparação: o sol, desde que é sol, gera os raios; não existe sol sem raios nem raios sem sol. No entanto, não é o sol que procede dos raios, mas os raios que procedem do sol e não são os raios que geram o sol, mas o sol que gera o raio... e, no entanto, uma só é a luz do sol e a dos raios: o mesmo calor, a mesma “natureza”. Com esta imagem bem simples podemos compreender um pouquinho o que significa dizer que o Pai gera o Filho eternamente e, no entanto, o Filho é tão Deus e tão eterno quanto o Pai. Outra coisa: o Filho não é gerado pela vontade do Pai; não foi gerado porque o Pai quis... Se fosse assim, não seria Deus, pois o Pai poderia não gerá-lo! Nada disso: o Filho é Filho pelo ser do Pai; não como um filho humano, que é gerado pela vontade do pai. Por isso mesmo, o Filho é gerado eternamente, porque o Pai é eternamente Pai do Filho! Só o Pai gera, só o Filho é gerado!

E o Espírito Santo? O Espírito Santo procede do Pai e do Filho: é o Amor com o qual o Pai ama o Filho e o Filho se deixa amar pelo Pai! Ora, o Pai ama o Filho eternamente e o Filho é amado eternamente... assim, o Espírito Santo é eterno, como o Pai e o Filho. Entretanto não se pode dizer que o Espírito é gerado; dizemos simplesmente que ele “procede” ou é “expirado” pelo Pai e pelo Filho, que o recebe do Pai e o expira. Assim, o Pai é o que gera o Filho e expira o Espírito; o Filho é gerado pelo Pai e, com ele, expira o Espírito; o Espírito é aquele que é expirado pelo Pai e pelo Filho. No entanto, que fique claro: é um só Deus e não três!

Neste tópico eu quis mostrar como a Igreja foi encontrando palavras para apresentar e defender sua fé na Trindade Santa. No próximo tópico vou apresentar um pequeno dicionário com as várias palavras que a Igreja usa para falar na Trindade. Depois, nos tópicos seguintes, vamos meditar de modo mais saboroso no significado profundo de crer num Deus uno e trino... e vamos ver o quanto é bela a fé na Santa Trindade! Até lá!

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