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Então, a Igreja «adora os santos»? PDF Imprimir E-mail
Doutrina Católica
Dom, 10 de Maio de 2009 20:59

Pe. Henrique Soares da Costa


 

            Desde há muito tempo acusa-se a Igreja católica de desprezar as Sagradas Escrituras e tornar sem eficácia a única mediação de Cristo Jesus com o culto à Virgem Maria e aos Santos. 

            Também neste ponto - como naquele referente às imagens - não há fundamento algum numa tal acusação. 

            É verdade que somente Jesus Cristo salva: “Não há, debaixo do céu, outro nome dado aos homens pelo qual devamos ser salvos” (At 4,11). Ele é o único Mediador entre Deus, nosso Pai, e a humanidade: “Há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, um homem, Cristo Jesus, que se deu em resgate por todos” (1Tm 2,5). Nele nós temos a bênção da graça e da salvação: “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos abençoou com toda a sorte de bênção espirituais, nos céus, em Cristo. É pelo sangue deste que temos a redenção, a remissão dos pecados... (Ef 1,3.7). Este, é, portanto, um ponto central claríssimo da fé católica: só Cristo salva e somente Cristo intercede por nós junto do Pai. Não há outra mediação fora da mediação do único e absoluto Salvador, Cristo Jesus

            Como, então, justificar o culto aos Santos? Como compreender que se fale em intercessão dos Santos e, particularmente, da Virgem Maria? 

1. O que é «um Santo»? 

            Antes de tudo, é importante compreender bem o que é um Santo.

            Segundo a Escritura, somente Deus é Santo (cf. 1Sm 2,2; Sl 22,3; Is 6,3). A palavra hebraica «santo» (=kadosh) significa «separado». Deus é o Outro, o que está para além de tudo, o que é diverso de toda a criação, é aquele que não pode ser confundido com as criaturas, aquele que não pode ser manipulado pelo homem. Deus não está entre as criaturas: ele é o sustento de tudo, é o fundamento de tudo: “Nele vivemos, nos movemos e existimos” (At 17,28). Porque é Santo, Deus é completamente livre, soberano, glorioso. A Igreja, fiel à Palavra de Deus, afirma, na Oração Eucarística II: “Na verdade, ó Pai, vós sois Santo e fonte de toda a santidade!” 

            Sendo o Filho eterno do Pai, e Deus com o Pai, Jesus Cristo é o Santo de Deus (cf. Mc 1,24; Lc 1,35; At 3,14...). A cada Domingo a Igreja dirige-se, na Missa, ao Senhor Jesus com estas palavras: “Só vós sois o Santo, só vós o Senhor, só vós o Altíssimo, Jesus Cristo, com o Espírito Santo na glória de Deus Pai” (Oração do Glória). Sendo o Santo, ele nos santificou com a sua cruz e ressurreição, pois, ressuscitando, derramou sobre nós o seu Espírito Santo, Espírito de santificação: “Dizendo isso, soprou sobre eles e lhes disse: «Recebei o Espírito Santo...» (Jo 20,22). Ao sermos batizados, recebemos o Espírito Santo do Cristo ressuscitado, que nos dá uma nova vida: a vida do próprio Deus. É esta vida nova que nos faz “Santos”: “Vós vos lavastes, fostes santificados, fostes justificados em nome do Senhor Jesus Cristo e pelo Espírito Santo” (1Cor 6,11) “Nele (em Cristo) ele (o Pai) nos escolheu antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis diante dele no amor” (Ef 1,4). Por isso mesmo São Pedro afirma na sua carta: “Vós sois uma raça eleita, um sacerdócio real, uma nação santa, o povo de sua particular propriedade” (1Pd 2,9). 

            Assim, aqueles que foram batizados em Cristo receberam a santidade de Cristo porque receberam o Espírito Santo de Cristo, Espírito santificador. Por isso mesmo muitas vezes São Paulo chama todos os cristãos de “Santos” (cf. 1Cor 1,2; 2Cor 1,1; Ef 3,8; Fl 4,21...). No entanto o cristão, sendo santo, ou seja, santificado por Cristo, deve viver como santo. Escrevendo aos Coríntios, o Apóstolo assim se referia aos batizados: ... àqueles que foram santificados em Cristo Jesus, chamados a ser santos... (1Cor 1,2). Em outras palavras: já santificados pelo Batismo, devemos cada vez mais nos abrir à ação do Espírito de santificação, que é o Espírito do Cristo ressuscitado. Vejam bem: a santidade é um fato já concreto para todo batizado: somos santos, fomos santificados e, ao mesmo tempo, é um processo, um desafio, um programa de vida: tornarmo-nos, por nossas ações e atitudes, aquilo que já somos. Assim, há santos que vivem como santos e há santos que vivem como pagãos! Só os primeiros são fiéis à graça recebida no Batismo! 

Portanto, “santo”, para a Igreja, é todo cristão! Contudo, damos o nome de «santo» de um modo todo especial àqueles cristãos, irmãos nossos - canonizados ou não -, que já estão na Glória. Eles foram abertos à graça de Cristo, eles disseram “sim” sem reservas à salvação trazida por Jesus; aceitando completamente Jesus como Salvador, eles não resistiram à ação do Espírito Santo, eles viveram seu Batismo até às últimas conseqüências! O «santo» é um pecador como nós, que lutou para levar Cristo a sério e, procurando ser fiel à graça de Cristo, viveu o Evangelho. Por isso mesmo é apresentado pela Igreja como exemplo para todos nós. É este, aliás, o sentido da canonização: a Igreja propõe um filho seu como modelo de vida cristã e de seguimento a Cristo. Se alguém é «santo», é por graça de Deus, que o santificou. O «santo» não é um super-homem que, se santificou com suas forças! Ele recebeu a santidade de Cristo, foi aberto à ação santificante do Espírito do Senhor Jesus. Dizer que alguém é santo significa dizer que foi santificado por Cristo! “Pela graça de Deus sou o que sou: e sua graça a mim dispensada não foi estéril” (1Cor 15,10). Assim sendo, quando a Igreja afirma que alguém está na Glória e o chama «santo» deseja mesmo é mostrar o quanto a graça salvadora de Cristo é eficaz, o quanto a força do Senhor Jesus, nosso único Salvador, é capaz de transformar a nossa miséria humana e nos elevar à santidade. É Cristo que é admirável nos seus santos. O santo é uma obra prima da graça de Deus que opera através de Cristo Jesus! Admirando a obra prima, exaltamos o seu Autor! Como a própria Liturgia da Igreja reza: “Ó Deus, sois o amparo dos que em vós esperam e sem vosso auxílio ninguém é forte, ninguém é santo...” (Coleta da Missa do XVII Domingo Comum). 

            Fica claro, portanto, que a santidade dos que estão na Glória revela e enaltece a força e eficácia da santidade do Cristo Jesus e a ação santificadora do seu Espírito Santo, para a glória do Pai. O «santo» não é um concorrente da santidade de Deus, mas, ao contrário, é fruto dessa santidade divina. 

            Aí podemos entender o quanto é tola e errada aquela história: “a Igreja santificou fulano de tal”... A Igreja, coitada, não santifica ninguém: só Cristo santifica! A própria Igreja precisa da santidade de Cristo e é santificada pelo seu Espírito Santo! Na canonização, o que a Igreja faz é reconhecer, oficialmente, a santidade que a graça de Deus concedeu àquela pessoa! Só Deus é Santo e fonte da santidade; somente Deus é o autor de toda a santidade! 

            Atenção! Seria errado e herético considerar os santos como pequenos deuses, com uma força que viria deles mesmos, sem que tivessem recebido tudo de Cristo por pura graça do Senhor! A santidade deles brota única e totalmente de Cristo Jesus, doador do Espírito Santo! Os santos não são uns orixazinhos, não são duendizinhos, não são espíritos superiores, não são uma energia positiva; são irmãos nossos que, tendo sido fiéis ao seu Batismo, já estão na Glória, na comunhão do Deus de Amor e, nele, rezam por nós! 

2. O culto aos Santos 

            A partir deste modo de compreender a santidade e os Santos é que se pode compreender corretamente o culto que a Igreja lhes presta. 

            O culto aos Santos é culto de louvor e gratidão a Deus, admirável nos seus Santos. Ao venerarmos um nosso irmão que foi santificado por Cristo, estamos reconhecendo a ação de Deus nele. Estamos também agradecendo a Deus por ter dado a graça àquele nosso irmão para que ele fosse aberto à ação do Espírito Santo. Lembremo-nos sempre: ao engrandecermos a obra de arte, louvamos e enaltecemos seu Autor! Quando a Igreja venera um seu filho que chegou à santidade, recorda-se sempre da frase de Paulo: “Pela graça de Deus sou o que sou: e sua graça a mim dispensada não foi estéril” (1Cor 15,10). Quando os cristãos exaltam as obras dos Santos, não esquecem que eles agiram pela força de Cristo, que foi o Espírito Santo do Senhor ressuscitado quem os inspirou e moveu para o bem, já que “é Deus quem opera em vós o querer e o operar” (Fl 2,13). Cumpre-se, assim, a palavra do Senhor Jesus: “Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte. Nem se acende uma lâmpada e se coloca debaixo do alqueire, mas no candelabro, e assim ela brilha para todos os que estão na casa. Brilhe do mesmo modo a vossa luz diante dos homens, para que, vendo as vossas boas obras, eles glorifiquem o Pai que está nos céus” (Mt 5,14-16). 

            Assim, venerar um irmão que levou a sério o Cristo e seu Evangelho e que, para nós, é um exemplo de vida, é, sobretudo, reconhecer a potência maravilhosa da graça de Deus que, em Cristo, sustenta a fragilidade humana, dando-lhe a graça de viver testemunhar o Senhor Jesus. 

            Atenção! É errado pensar que o louvor aos Santos é dirigido a eles somente, como se eles fossem heróis pelas próprias forças. O louvor aos Santos é, em última instância, dirigido a Deus, autor e fonte da santidade dos Santos: é Ele que é admirável nos seus Santos! Um louvor que pare no Santo é errado! 

            E rezar a um Santo, pedir sua intercessão? Não seria ferir a mediação única de Cristo? Vejamos agora o sentido da intercessão dos Santos e como ela não fere, mas, antes, sublinha e proclama a única mediação de Cristo. 

3. A intercessão dos Santos 

            A Escritura nos ensina que todos os batizados foram revestidos de Cristo e, tornando-se uma só coisa com ele, são membros do seu Corpo, que é a Igreja. Ser cristão é estar incorporado, enxertado no Senhor Jesus ressuscitado: “Todos vós, que fostes batizados em Cristo, vos revestistes de Cristo... pois todos vós sois um só em Cristo Jesus” (Gl 3,27); “Vós sois o corpo de Cristo e sois seus membros, cada um por sua parte” (1Cor 12,27); “Nós somos muitos, mas formamos um só corpo em Cristo” (Rm 12,27). A união nossa com Cristo é tão forte e real, tão concreta e verdadeira, que Paulo fala que o cristão é batizado (=mergulhado) em Cristo, no Cristo, dentro de Cristo: “Não sabeis que todos os que fomos batizados em Cristo Jesus, é na sua morte que fomos batizados?... Porque se nos tornamos uma só coisa com ele por uma morte semelhante à sua, seremos uma só coisa com ele também por uma ressurreição semelhante à sua” (Rm 6,3-9). A vida dos bem-aventurados no céu - e também já aqui na terra a vida de cada batizado - é vida em Cristo: “A graça de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 6,23). A ele estamos unidos como os ramos à videira, de tal modo que vivemos da sua mesma vida: “Eu sou a verdadeira videira e meu Pai é o agricultor... Permanecei em mim, como eu em vós. Como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanece na videira, assim também vós, se não permanecerdes em mim. Eu sou a videira e vós os ramos. Aquele que permanece em mim e eu nele produz muito fruto; porque sem mim, nada podeis fazer” (Jo 15,1.4-5). O cristão é aquele que permanece em Cristo, que vive não mais por si mesmo, mas por Cristo. A seiva, a vida nova da qual vivem os cristãos é o próprio Espírito Santo do Senhor Jesus ressuscitado, recebido no batismo: “Aquele que se une ao Senhor, constitui com ele um só Espírito” (1Cor 6,17); “Pois fomos todos batizados num só Espírito para ser um só corpo... e todos bebemos de um só Espírito” (1Cor 12,13). De tal modo isto é verdadeiro, real, que Paulo exclamava: “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20); “Para mim o viver é Cristo...” (Fl 1,23). Cristo está de tal modo presente no cristão e este é de tal modo enxertado em Cristo e nele incorporado, que fazia o Apóstolo afirmar: “A vossa vida está escondida com Cristo em Deus” (Cl 3,2). E falar também do mistério de Deus que é “o Cristo em vós, a esperança da glória” (Cl 1,27). Aparece assim claramente que os batizados - particularmente os que estão na Glória - são uma só coisa com Cristo, estão em Cristo, foram «con-formados» com Cristo, são membros de Cristo, que é Cabeça de todos. Não há, para aqueles que estão na Glória, outra vida que não a de Cristo e em Cristo! 

            Ora, o Espírito de Cristo ressuscitado em nós, fazendo-nos uma só coisa com o Senhor Jesus, suscita em nós os bons sentimentos e as boas obras: tudo de bom que pensamos e fazemos é suscitado pelo Espírito Santo em nós: “É Deus quem opera em vós o querer e o operar” (Fl 2,13). É exatamente porque cremos em Cristo, porque estamos unidos a ele e nele estamos enxertados e incorporados pelo Batismo, que podemos realizar as obras da fé, daquela fé que atua pela caridade (cf. Gl 5,6). Quando rezamos, não somos nós que rezamos: quem ora em nós, quem louva em nós e intercede em nós é o próprio Espírito do Cristo Jesus ressuscitado: “Assim também o Espírito socorre a nossa fraqueza. Pois não sabemos o que pedir como convém; mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis e aquele que perscruta os corações sabe qual é o desejo do Espírito; pois é segundo Deus que ele intercede pelos santos” (Rm 8,26-27). É por isso que, já aqui na terra, pedimos aos nossos irmãos que intercedam por nós. Dizemos uns aos outros: «Fulano, reze por mim!» O próprio Novo Testamento recomenda que rezemos uns pelos outros (cf. 2Cor 1,1; Ef 1,16; 6,19; Fl 1,4; Cl 4,12; 1Ts 1,2; 1Ts 5,25; 1Tm 2,1; Tg 5,16). Pedimos a oração de um irmão batizado porque sabemos que ele ora em Cristo, que esse irmão é uma só coisa com Cristo, já que é membro do seu Corpo e vive do Espírito do Senhor ressuscitado, de modo que já não é ele quem ora, mas é Cristo que ora nele como Mediador único entre nós e Deus

            Com nossos irmãos que estão na Glória acontece o mesmo. A morte não nos separa do amor de Cristo nem dos irmãos, não rompe a comunhão entre os que estão com o Senhor, no céu, e nós, peregrinos: “Estou convencido de que nem a morte nem a vida... nem qualquer outra criatura poderá nos separar do amor de Deus manifestado em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8,38-39). No Senhor todos vivem e permanecem unidos no amor. Se a morte interrompesse uma tal comunhão em Cristo isso significaria que ela - a morte - seria mais forte que o amor, que a vida e que a vitória do Senhor Jesus. Mas, não! Cristo é mais forte que a morte e o inferno: “Morte, onde está a tua vitória? Morte, onde está o teu aguilhão?” (1Cor 15,55). Desse modo, nossos irmãos que estão com Cristo (cf. Fl 1,23) na Glória, são plenamente membros do Corpo do Cristo, vivem do Espírito do Cristo ressuscitado e participam da única mediação de Cristo! É Cristo quem intercede neles, de modo que a intercessão dos Santos, amigos de Cristo, nada mais é que uma admirável manifestação do poder e da fecundidade da única mediação do Senhor Jesus. Ele é o único Mediador, que inclui na sua mediação única todos os que são uma só coisa com ele por serem membros do seu Corpo. A mediação do Senhor Jesus não é mesquinha: é única, mas não é exclusivista: ela inclui todos nós: não é exclusiva, mas inclusiva! Caso contrário, nem nós, que vivemos ainda neste mundo, poderíamos rezar uns pelos outros, já que isso é também uma forma de mediação. 

            Assim, é em Cristo, como seus membros, no seu Espírito, que os Santos intercedem ao Pai. A intercessão dos Santos nada mais é que uma manifestação da única intercessão do Senhor Jesus, que, sendo rico e potente, suscita em nós a capacidade de participar da sua única mediação. Os nossos irmãos na Glória são aquela nuvem de testemunhas de que fala a Epístola aos Hebreus: “Portanto, também nós, com tal nuvem de testemunhas ao nosso redor, rejeitando todo o fardo e o pecado que nos envolve, corramos com perseverança a corrida que nos é proposta, com os olhos fixos nAquele que é o Autor e Realizador da fé, Jesus” (Hb 12,1-2). São eles que, a exemplo dos primeiros santos mártires, participando da mediação única do Senhor Jesus, e nessa única mediação, suplicam em nosso favor, como membros de Cristo: “Vi sob o Altar as vidas dos que tinham sido imolados por causa da Palavra de Deus e do testemunho que dela tinham prestado. E eles clamaram em alta voz: ‘Até quando, ó Senhor Santo e Verdadeiro, tardarás a fazer justiça, vingando nosso sangue contra os habitantes da terra?’” (Ap 6,10). 

            Certamente, como aquela que mais esteve unida a Cristo Senhor neste mundo e na glória, a Virgem Maria participa de um modo todo especial dessa única mediação de Cristo...

            Fica claro que uma coisa é certíssima: a Igreja de Cristo, ao ensinar que os nossos irmãos do céu, os Santos, intercedem por nós, mostra o quanto a única mediação de Cristo é fecunda e eficaz... de tal modo fecunda e eficaz, que nela nos inclui e dela nos faz participantes! Não se trata, portanto, nem de concorrência, nem de competição e nem mesmo de uma mediação paralela à mediação única de Cristo. Também não se trata de uma escadinha de mediadores: os Santos seriam mediadores junto a Cristo e Cristo é o Mediador junto ao Pai. Não! Há um só Mediador! Todos os outros apenas participam da única mediação do Cristo Jesus, nossa Cabeça e nossa santificação. Se participamos desta mediação única é exatamente porque, pelo Batismo, recebemos a plenitude de Cristo: “Nele aprouve a Deus fazer habitar toda a plenitude e reconciliar por ele todos os seres” (Cl 1,19). E da sua plenitude todos nós recebemos graça sobre graça! (Jo 1,16). 

            Atenção! É errado pensar que os Santos intercedem por nós informando a Deus sobre nossas necessidades - como se Deus não as conhecesse! - ou convencendo Deus a mudar sua opinião. É errado e herético pensar que a Virgem Maria e os Santos intercedem por nós a Deus de modo independente de Cristo ou ao lado de Cristo! A Virgem e os Santos intercedem por nós em Cristo, como membros do seu Corpo e em união com a santíssima vontade do Senhor Jesus, nosso único Intercessor junto do Pai! 

            Para completar tudo quanto aqui foi dito, é muito útil transcrever trechos da declaração de um grupo de teólogos anglicanos, luteranos, reformados (todos protestantes!), ortodoxos e católicos reunidos em nome de suas igrejas na ilha de Malta, nos dias 8-15 de setembro de 1983: 

1. Todos reconhecemos a existência da Comunhão dos Santos como comunhão daqueles que na terra estão unidos a Cristo, como membros vivos do seu Corpo Místico. O fundamento e o ponto central de referência desta comunhão é Cristo, o Filho de Deus feito homem e Cabeça da Igreja (cf. Ef 4,15-16), para nos unir ao Pai e ao Espírito Santo. 

2. Esta comunhão, que é comunhão com Cristo e entre todos os que são de Cristo, implica uma solidariedade que se exprime também na oração de uns pelos outros; esta oração depende daquela de Cristo, sempre vivo para interceder por nós (cf. Hb 7,25). 

3. O fato mesmo de que, no céu, à direita do Pai, Cristo roga por nós, indica-nos que a morte não rompe a comunhão daqueles que durante a própria vida estiveram unidos em Cristo pelos laços da fraternidade. Existe, pois, uma comunhão entre os que pertencem a Cristo, quer vivam na terra, quer, tendo deixado os seus corpos, estejam com o Senhor (cf. 2Cor 5,8; Mc 12,27). 

4. Neste contexto, compreende-se que a intercessão dos Santos por nós existe de maneira semelhante à oração que os fiéis fazem uns pelos outros. A intercessão dos Santos não deve ser entendida como um meio de informar Deus das nossas necessidades. Nenhuma oração pode ter este sentido a respeito de Deus, cujo conhecimento é infinito. Trata-se, sim, de uma abertura à vontade de Deus por parte de si mesmo e dos outros, e da prática do amor fraterno. 

5. No interior desta doutrina, compreende-se o lugar que pertence a Maria Mãe de Deus. É precisamente a relação a Cristo que, na Comunhão dos Santos, lhe confere uma função especial de ordem cristológica... Maria ora no seio da Igreja como outrora o fez na expectativa do Pentecostes (cf. At 1,14). Quaisquer que sejam nossas diferenças confessionais (=de religião), não há razão alguma que impeça de unir a nossa oração a Deus no Espírito Santo com a liturgia celeste, e de modo especial com a Mãe de Deus. 

Este documento é assinado por teólogos e pastores luteranos, anglicanos, reformados, bem como por teólogos ortodoxos e católicos! 

Conclusão: no culto e oração dos Santos nada há que fira a unicidade da mediação, da santidade e da glória de Cristo! É ele, Autor da santidade, que é grande e admirável nos seus Santos!

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