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Editoriais do Semeador
Sex, 15 de Maio de 2009 19:10

Continua alastrando-se o costume das paixões de Cristo, apresentadas e representadas nas ruas e palcos de nossas cidades. Agora, começa-se a contratar atores e atrizes globais para tomarem parte da representação. Na seqüela da Fazenda Nova, em Nova Jerusalém, a moda pegou – como se diz – e veio para ficar. E, que se diga sem medo algum: é uma moda ambígua e perigosa!

Em Nova Jerusalém, por exemplo, a coisa foi sendo cada vez mais aprimorada: hoje tem-se uma verdadeira feira fora do recinto do evento teatral e, um palco para shows profanos e a presença de trios elétricos. O evento vai deixando de ser religioso para ser simplesmente um evento de mercado e de lazer!

Antes de tudo, não há dúvidas que tais representações têm um aspecto positivo: elas são um pouco como os vitrais das catedrais medievais: servem para a catequese e a instrução dos simples. O ver as cenas dramaticamente representadas, com figurinos e detalhes esmerados, ajuda a fixar plasticamente o drama de Jesus de Nazaré, podendo despertar sentimentos de compaixão, piedade e até mesmo de amor a Nosso Senhor. Mas, o aspecto positivo fica por aqui!

O primeiro aspecto negativo é a tendência de tais encenações se substituírem à celebração litúrgica: deixa-se a celebração da Igreja para ir-se ao espetáculo; dá-se mais importância a este que àquela! Ora, um teatro nem de longe é uma celebração: representa dramaticamente um evento, mas não faz a graça daquele evento tornar-se presente na nossa vida atual. A celebração litúrgica (da Sexta-feira Santa, por exemplo) não é uma representação de um fato do passado, mas a celebração orante e atuante, na força do Espírito Santo, que coloca quem dela participa em contato direto e gracioso com aquilo que aconteceu no passado e torna-se, agora, realmente presente na nossa vida, nas palavras, nos gestos e símbolos da celebração. O teatro é um espetáculo humano e artístico; a celebração litúrgica é um ato sagrado, de natureza eclesial (= é a comunidade crente quem celebra) e dá-se na força do Espírito do Ressuscitado. Celebra a Páscoa quem participa do rito sagrado, não quem vai assistir à Paixão de Cristo em Nova Jerusalém, no Morro da Maçaranduba, em João Pessoa ou Santa Luzia do Norte!

Um outro aspecto que deve ser considerado. Os textos sagrados não foram feitos para serem dramatizados, mas lidos e proclamados na Liturgia! Somente aí eles adquirem toda a sua força; só aí cada palavra, cada detalhe, ganha toda sua profundidade, pois evoca e provoca tantas coisas na nossa vida! Os textos bíblicos, representadas em filmes ou teatros, perdem muitíssimo de seu vigor; é como um vinho bom e encorpado no qual se derrama água. Isso mesmo, a comparação é boa, pode crer-me o leitor: nas peças e nos filmes – sem exceção! – os textos sagrados viram vinho aguado! Alguns exemplos: quando o Quarto Evangelho diz que Judas saiu do Cenáculo, logo acrescenta, em duas palavras: “Era noite” (13,30), o significado desta frase é terrível e dramático: não se fala aqui somente da noite cronológica, mas da noite do pecado, da noite no coração de Judas, do homem e do mundo! Como isso poderia aparecer num drama da Paixão? Aguaram o vinho! Quando Mateus diz que Pedro seguia Jesus à distância (cf. 26,58) está claramente mostrando como o mau discípulo se porta na sua vida, seguindo Jesus de longe, sem querer comprometer-se com seu Mestre. Numa encenação, este vinho forte vira água! Quando Lucas diz que o sol parou de brilhar e uma escuridão cobriu toda a terra (cf. 23,44) e, logo após afirma que o centurião “viu” o que acontecera (cf. 23,47) e as multidões também “viram” (cf. Lc 23,48), está querendo falar de um “ver” diferente e de uma escuridão diferente: aquela motivada pelo coração fechado ou aberto para o desígnio de Deus que se revela em Cristo crucificado! Que beleza e força, as do texto sagrado! Sem contar que o texto é inspirado, traz uma força de graça... e a representação teatral, não!

Um outro aspecto, negativo mesmo, é a mania de contratar atores famosos – muitos com uma vida claramente contrária ao cristianismo. Elba Ramalho – porquanto boa possa ser em sua vida privada – abandonou o cristianismo: é esotérica, reencarnacionista e adepta da Nova Era... e candidamente participou da encenação em João Pessoa! O que interessa é o público, o evento artístico, não o compromisso cristão, não a força e a exigência do Evangelho! É muito triste! Por que contratar atores famosos? Por que são bonitinhos? Para que as tietes dêem gritinhos quando os virem (foram ver o ator com o busto exposto e não o Cristo com o amor à mostra!)? É a profanação do sagrado – e infelizmente, muitas vezes, com a ingênua bênção de gente de Igreja!

Mais uma observação. Em Nova Jerusalém, após o término do espetáculo, tem-se um show profano, de música profana, em plena Semana Santa! Apresenta-se a Paixão e nega-se, logo após, tudo aquilo pelo que Cristo morreu! Apresenta-se o drama de Cristo e, logo após, apunhala-se o Cristo! - Ah, Judas! Quanto estás vivo! Estarás sempre, no coração dos homens e do mundo! - Isso deixa claro o que significa a encenação da Paixão para muitos: somente um espetáculo, representação do passado, sem nenhum compromisso com o nosso presente, sem nenhuma influência nos nossos costumes, na nossa vida, na nossa moral, nas nossas opções. É como se o Evangelho pudesse ser domesticado e eu pudesse pertencer a Cristo sem um compromisso real com ele na minha vida, renunciando ao pecado e à dissipação e abraçando sua cruz e ressurreição!

Uma última observação: para um cristão de verdade, é absurdo, nos dias do Tríduo Pascal, ir ver tais espetáculos, se, por isso, tiver que perder as celebrações litúrgicas. Esses são dias de silêncio e recolhimento, não de dissipação e distração! Dias de oração e meditação!

Uma sugestão aos nossos párocos: em suas paróquias, revitalizem cada vez mais o santo costume da Via Sacra. É mais salutar, é oração.... a aí as pessoas vão para rezar e buscar a conversão! Vejam com muita prudência e discernimento estas encenações da Paixão! Em si, não são nocivas, mas podem virar um veneno!

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Última atualização em Qua, 07 de Abril de 2010 19:35
 

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