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Editoriais do Semeador
Sex, 15 de Maio de 2009 23:14

          Segundo antiga etimologia bíblica a palavra “páscoa” significa “passagem”; e são quatro.

Primeiramente a Páscoa de IHWH, Deus de Israel: na noite em que feriu os primogênitos do Egito, “ele passou” adiante, poupando os primogênitos dos israelitas: “É a Páscoa do Senhor. Naquela noite passarei pela terra do Egito. Matarei todo primogênito na terra do Egito. O sangue colocado nas casas em que estiverdes vos servirá de sinal. Vendo o sangue passarei adiante e não haverá flagelo destruidor” (Ex 12,11-13). A passagem do Senhor significou salvação, libertação, vida e alegria para o povo.

A segunda páscoa é a Páscoa de Israel: sustentado pelo braço forte do seu Deus, o povo deixou o Egito e, atravessando o mar e o deserto, “passou” da dureza da escravidão para a liberdade: “Este dia será para vós um memorial, e o celebrareis como uma festa para IHWH; nas vossas gerações a festejareis, é um decreto perpétuo” (Ex 12,14).

A terceira é a Páscoa de Cristo Jesus, que realiza e cumpre a Páscoa de Israel: “Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara a sua hora de “passar” deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1). Jesus faz sua Páscoa passando desta vida limitada e mortal para a plenitude da Vida do Pai, a Vida plena e eterna. Ele ressuscitou! A morte, que era como uma caverna escura e sem saída, tornou-se apenas um túnel: Jesus entrou nela, saindo deste mundo, arrombou-lhe a parede de fundo e saiu do outro lado, na plenitude infinita do Pai. Ele passou, ele fez a Páscoa através da cruz e da morte! Ele venceu! Ele ressuscitou! Sua Páscoa é causa de uma quarta Páscoa: a nossa e do mundo.

A última Páscoa é esta, precisamente: a de cada um de nós e de toda a criação. Sobre esta, pensemos um pouco...

Também nós “passamos”; “tudo passa”... Desde concebidos já estamos passando, correndo a corrida da vida rumo ao fim... Por mais que não gostemos de recordar isso, por mais que tenhamos uma vontade louca de viver aqui para sempre, passamos... como o orvalho da manhã que se esvai, como a flor fresquinha que fenece ao meio-dia, como a sombra que perde os contornos, como o pó que o vento leva... Somos essencialmente passageiros; tanto que o Eclesiastes, pessimista incorrigível, diz, numa de suas lamentelas: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade! Tudo é vaidade e correr atrás de vento” (Ecl 1,2.14). Assim, nascemos e vivemos em páscoa, em passagem: no aeroporto da vida não somos mais que passageiros em trânsito!

Esta situação nossa de cada dia oprime e deprime aquele que não crê. Para os incréus, a vida é a passagem para o nada, para o absurdo total! Viemos ao mundo cheios da ânsia de viver e, quanto mais vivemos mais morremos, quanto mais existimos mais corremos, loucos, para o nada da morte, do fim, da terra das sombras, de onde ninguém retorna... quanto mais se vive mais se passa... Páscoa de morte, esta, dos incréus!

Mas, para quem crê, para quem sabe que o Cristo ressuscitou, fez sua Páscoa deste mundo para o Pai, o sentido da passagem da vida é bem diverso! Também para os cristãos a vida é passagem, mas não para o nada, para o abismo do não-ser, da morte, da falta de sentido! Passamos, é verdade, mas como Jesus, passamos deste mundo para o Pai. E passamos com Jesus e por causa de Jesus e em Jesus, como membros do seu corpo, que é a Igreja! O cristão não se ilude: ele sabe que tudo passa, ele tem consciência que nossa vida foge por entre os dedos mas, ele, serenamente sabe e espera: quanto mais a vida passa, mais perto encontra-se da plenitude. Feliz cristão: sabe de onde veio, sabe para onde vai: “Saí do Pai e vim ao mundo; agora deixo o mundo e volto ao Pai” (Jo 16,28).

E não somente nós, individualmente, passamos com Cristo na Páscoa para o Pai. Nós cremos e esperamos com toda esperança que, um dia, que a Escritura chama “Dia do Senhor” ou “Último Dia” ou “Terceiro Dia” ou “Dia da Ressurreição”, toda a criação passará desta situação precária para a glória de Cristo. Páscoa nossa e Páscoa do mundo, fruto bendito da única e eterna Páscoa de Cristo!

Então, estamos todos de páscoa – de passagem. A questão é saber se passamos para o nada, se fazemos da vida uma corrida sem sentido ou, ao invés, se passamos para o Pai, como Jesus e com Jesus. A Festa da Páscoa é a grande festa cristã, precisamente por isso: celebrando a ressurreição do Senhor, que não ficou na morte, mas a ultrapassou, nós podemos dizer: “Ainda que eu passe pelo vale da morte, não temerei! Tu estás comigo; teu bordão e teu cajado me dão segurança! Tu me preparas uma mesa e o meu cálice transborda! E viverei na Casa do meu Deus pelos tempos infinitos!” (Sl 22).

A você, leitor dO SEMEADOR, uma feliz Páscoa! Que sua Páscoa, em Cristo, permaneça para sempre e que sua vida, com idas e vindas, altos e baixos, não seja nunca um correr sem rumo, um correr para o nada, mas a corrida certa de quem caminha para a plenitude de Cristo Ressuscitado!

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Última atualização em Sex, 15 de Maio de 2009 23:37
 

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