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Estudos Bíblicos
Sex, 08 de Maio de 2009 20:59

Côn. Henrique Soares da Costa

Salmo 130(131)             

IHWH meu coração não se eleva,
nem meus olhos se alteiam...
 

            Este salmo, que parece tão íntimo, é um salmo gradual: é, portanto, a oração de Israel peregrino. No Egito o povo começou sua história com IHWH: “Quando Israel era ainda um menino eu o amei e do Egito chamei meu filho” (Os 11,1). Mas, para crescer e amadurecer na fé, deveria passar pelo cadinho das várias situações humanas: a ocupação estrangeira, a tentação de infidelidade cultural... até à pobreza de uma comunidade religiosa pobre e humilde: “Deixarei em teu seio um povo pobre e humilde, e procurará refúgio no nome de IHWH o resto de Israel. Eles não praticarão mais a iniqüidade, não dirão mentiras; não se encontrará em sua boca língua dolosa. Sim, eles apascentarão e repousarão sem que ninguém os inquiete” (Sf 3,12s). 

Neste processo, o exílio de Babilônia foi decisivo para que Israel caísse em si. Do fundo do Exílio, Israel aprende a reavaliar suas expectativas: o rei, a terra, o poder, a prosperidade material... Agora, seu relacionamento com IHWH adquiria uma forte dimensão pessoal, interior: “Ó Deus, cria em mim um coração puro, renova um espírito firme no meu peito” (SI 51,12). 

            O coração humilde, que não seja orgulhoso... Na Escritura, coração indica a pessoa na sua interioridade; não apenas suas emoções, afetividade e sentimentos, mas também sua inteligência e pensamentos. O coração é também fonte de recordações e memória, centro de projetos e escolhas decisivas... O coração é o núcleo da personalidade: o coração é a própria pessoa. É no coração que Israel pode acolher ou rejeitar o seu Deus. Por isso Jesus adverte: “O que sai da boca procede do coração e é isto que toma o homem impuro. Com efeito, é do coração que procedem más intenções, assassínios, adultérios, prostituições, roubos, falsos testemunhos e difamações. São essas coisas que tomam o homem impuro”... (Mt 15,18s). Por isso o Salmo suplica: 

IHWH, mostra-me o teu caminho
e eu me conduzirei segundo a tua verdade.
Unifica meu coração
para que ele tema o teu Nome (SI 86,11)[1].
 

É na conversão do coração que Israel poderá reencontrar o seu Deus! E isto é dom de IHWH - conforme o que vimos nas palavras: SHuV (voltar, converter-se) e SHiVa (exilado, o que vai voltar). Por isso mesmo IHWH promete: “Borrifarei água sobre vós e ficareis puros; sim, purificar-vos-ei de todas as vossas imundícies e de todos os vossos ídolos imundos. Dar-vos-ei um coração novo, porei no vosso íntimo um espírito novo, tirarei do vosso peito o coração de pedra e vos darei um coração de carne. Porei no vosso íntimo o meu espírito e farei com que andeis de acordo com os meus estatutos” (Ez 36,25-28). Pois bem, agora, já perto de Jerusalém, purificado na sua existência, povo pobre, Israel pode exclamar: 

não ando atrás de grandezas,
nem de maravilhas que me ultrapassam...
 

Em Israel, esta era a espiritualidade dos anawin, os pobres de IHWH, que se fazem presentes no Novo Testamento nas pessoas de Maria, José, Zacarias, Isabel, Ana, Simeão... Este Israel humilde sabe exultar no Senhor: 

Minha alma engrandece o Senhor
e meu espírito exulta em Deus em meu Salvador,
porque olhou para a humilhação de sua serva...
Seu Nome é santo
e sua misericórdia perdura de geração em geração,
para aqueles que o temem.
Socorreu Israel, seu servo,
lembrado de sua misericórdia (Lc 1,47-55).
 

Sabe reconhecer a visita amorosa de Deus: 

Bendito seja o Senhor Deus de Israel,
porque visitou e redimiu o seu povo...
Como prometera... de nos conceder que - sem temor
libertos da mão dos nossos inimigos -
nós o sirvamos com santidade e justiça,
em sua presença, todos os nosso dias...
para transmitir ao seu povo o conhecimento da salvação,
pela remissão dos pecados...
para iluminar os que jazem
nas trevas e na sombra da morte,
para guiar nossos passos no caminho da paz (shalom) (Lc 1,68-79).
 

Toda esta mudança no sentimento de Israel é atestada de modo emocionante na oração dos profetas Baruc 1,15 - 2,8 e Daniel 9,4-19: “Senhor todo-poderoso, Deus de Israel, é uma alma angustiada, um espírito perturbado que clama a ti: Escuta, Senhor, e tem piedade, porque nós pecamos contra ti. Senhor todo-poderoso, Deus de Israel, escuta pois a súptica dos mortos de Israel... Tu és o Senhor nosso Deus e havemos de te louvar, Senhor! É por isso que infudiste o teu temor em nossos corações: para que invocássemos o teu Nome! E nós te louvaremos mesmo em nosso exílio”... 

            Definitivamente, Israel vai aprendendo a fazer de IHWH sua única riqueza... a ponto de poder dizer: 

Não! Fiz calar e repousar meus desejos,
como criança desmamada no colo de sua mãe,
como criança desmamada estão em mim meus desejos.
 

O “não!” ou “pelo contrário!”, do início desta estrofe, reflete a conversão de Israel, seu amadurecimento e mudança de atitude. Agora ele se compara a uma criança desmamada. Aqui não se trata de um recém-nascido, mas de uma criança que acaba de ser desmamada e encontra-se psicologicamente fragilizada, já que perdeu sua área de segurança que constituía seu universo afetivo, quando o leite materno enchia a barriga de seus desejos. Para compensar tal perda, Deus enche Israel de carinho e ternura: “Fui eu, contudo, quem ensinou Efraim a caminhar, eu os tomei em meus braços, mas não reconheceram que eu cuidava deles! Com vínculos humanos eu os atraía, com laços de amor eu era para eles como os que levantam uma criancinha contra o seu rosto, eu me inclinava para ele e o alimentava” (Os 11,3s). A imagem que descreve os sentimentos de Deus é a da mãe que acaba de desmamar seu filhinho: ela mastiga o alimento sólido e, após pré-digeri-lo na própria boca, com ternura inclina-se sobre o filhinho, tira a comida pré-digerida e dá-Ihe de comer. Assim fez IHWH com Israel: alimentou-o com o maná, com a água do rochedo, com as codornizes, com a Torah: alimentos de vida, dados em resposta à fé-confiança de seu povo. 

            Quando Jesus faz da experiência do ser criança a condição para entrar no Reino, não devemos pensar numa atitude fácil e boa vontade, como a do povo que, no Sinai repetia: “Tudo que IHWH falou, nós o faremos e obedeceremos” (Ex 24,7). Esse povo não demorou muito a re-inventar um deus conforme seu gosto. Jesus fala da criança desmamada de seus projetos idolátricos, pelo sofrimento da longa marcha e todas as purificações do caminho. É a fé adulta, provada, resistente e firme dos apóstolos, depois da paixão e ressurreição do Senhor: “Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tomardes como crianças, de modo algum entrareis no Reino dos Céus. Aquele, portanto, que se tomar pequenino como esta criança, esse é o maior no Reno dos Céus” (Mt 18,3s). A criança desmamada é aquela criança desarmada, totalmente confiante no Senhor: 

Israel, põe tua esperança em IHWH,
desde agora e para sempre!
 

Quando a fé torna-se esperança-confiança no presente em vista do futuro, podemos afirmar que ela cresceu e não se deixará abalar por nenhuma prova ou dificuldade.

[1] A tradução é a da TEB, que explica: “sendo o coração antes de tudo o órgão de decisão e da vontade, é preciso que ele seja unificado, isto é, engajado exclusivamente no caminho de Deus”.

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