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Os Salmos Graduais - IX PDF Imprimir E-mail
Estudos Bíblicos
Sex, 08 de Maio de 2009 21:00

Côn. Henrique Soares da Costa

Salmo 126(127)             

Se IHWH não constrói a casa,
em vão labutam os seus construtores;
se IHWH não guarda a Cidade,
em vão vigiam os guardas.
 

            Este é o salmo da graça divina, contra toda tentação de auto-suficiência humana... sobretudo aquela espiritual: tudo é graça! O salmista peregrino, subindo para Jerusalém, recorda que tudo quanto Israel é e possui, tudo quanto Israel construiu na sua história, é dom de IHWH. Assim, exalta a eficácia da ação divina contra toda pretensão idolátrica (o homem vive somente de pão; sereis como deuses): “Não vás dizer em teu coração: ‘Foi a minha força e o poder de minhas mãos que me proporcionaram estas riquezas’. Lembra-te de IHWH teu Deus, pois é ele quem te concede força para te enriqueceres, mantendo a Aliança que jurou aos teus pais, como hoje se vê. Contudo, se te esqueceres completamente de IHWH teu Deus, seguindo outros deuses, servindo-os e adorando-os, eu hoje testemunho contra vós: é certo que perecereis!” (Dt 8,17-19). 

            A Casa, à qual o salmo se refere, além de uma alusão aos filhos - que veremos ao final -, contém uma alusão ao Templo, coração de Jerusalém e de Israel: sem a presença do Senhor, o trabalho de construção e adoração não tem nenhum valor (cf. Ez 10,18-22;11,22s). A casa e a cidade referem-se também ao próprio povo, enquanto sociedade. Por extensão, referem-se à Igreja e à própria humanidade, como um todo. A casa-cidade construída sem o Senhor é Babel orgulhosa: “Vinde! Construamos uma cidade e uma torre cujo ápice penetre nos céus! Façamo-nos um nome e não sejamos dispersos sobre toda a terra!” (Gn 11,4). 

            Mais uma vez, a perene tentação de construir sem o Senhor, de se bastar a si próprio... E o homem é tão pequeno, que IHWH, para ver sua “obra grandiosa” tem que “descer”: “IHWH desceu para ver a cidade e a torre que os homens tinham construído!” (Gn 11,5).

           
O contrário de Babel é Jerusalém: “De Sião será dito: ‘todo homem ali nasceu’ e foi o Altíssimo que a firmou” (SI 87,5). Construir sozinhos a sociedade, a Igreja, a comunidade... é em vão... em vão... em vão! Israel aprendeu isso a duras penas: “Hás de esquecer a condição vergonhosa de tua mocidade, não tomarás a lembrar os opróbrios da tua viuvez, porque o teu esposo será o teu Criador!” (Is 54,4). A palavra usada pelo salmista para dizer “vão” é SHaVe, da mesma raiz de vaidade (= ídolo) e muito próxima de uma outra: SHoaH - o holocausto nazista! A lição é clara: se o Senhor não constrói a Casa, o mundo edifica somente sua autodestruição! Somente quando o homem aceita a casa (o Templo de Jerushalaím) construída por Deus é que ele pode encontrar o Shalom. A Cidade dos homens, a sociedade humana, construída contra a Cidade de Deus é Babel (= confusão, destruição, desagregação). Somente quando o homem compreende que a vida e a realidade são um dom de Deus e a humanidade é hóspede nessa casa, que o Senhor constrói, é que ela poderá realmente construir de modo duradouro e realizador.
 

            Mais uma vez as palavras de Santo Agostinho são iluminantes: “Esta é a voz de quem sobe e canta: canta o seu amor filial pela Jerusalém celeste. Em direção a ela suspiramos, enquanto continuamos a subir. Nela nos alegraremos, no final do nosso caminho! Todo homem que progride, sobe em direção a ela; todo homem que cessa de progredir, cai e dela se afasta. Não contes com os teus pés para subir, e não temas que sejam os teus pés que te afastarão: se amas a Deus, tu sobes; se amas este mundo, tu cais!” 

            E o salmista continua: 

É inútil que madrugueis,
e que atraseis o vosso deitar
para comer o pão com duros trabalhos:
ao seu Amado ele o dá enquanto dorme!
 

            Para ressaltar a inutilidade das pretensões auto-suficientes do homem, o salmista recorda o Bem-Amado que dorme e é saciado, por pura graça. Mas, quem é este Amado? Segundo alguns, Salomão (cf. 2Sm 12,25) que dorme em Gabaon (cf. 1 Rs 3,5). SHaLoMoN, o pacífico, o homem-SHaLoM, rei em Jeru-SHaLaiM! Salomão é, não esqueçamos, imagem do Filho Amado! 

            Por isso mesmo o Salmista evoca a imagem dos filhos, “casa” de um homem, dom de Deus: 

Sim, os filhos são a herança de IHWH,
é um salário o fruto do ventre!
Como flechas na mão de um guerreiro
são os filhos da juventude.
 

Feliz o homem
que encheu sua aljava com elas:
não ficará envergonhado frente às portas,
ao litigar com seus inimigos!
 

            A alusão aos filhos reforça a idéia da gratuidade. Em Israel, os filhos são sinal de bênção, pois perenizam a raça do pai no meio do povo santo. Além do mais são uma ajuda no trabalho e uma força e defesa na velhice dos pais. Eles são como “um salário” que o Senhor concede, são um prêmio; são como uma arma para os pais, pois, tendo filhos fortes, ninguém ousará ultrajar um homem, mesmo que ele seja ancião e fraco: seus filhos o defendem. Por isso, ele não ficará envergonhado quando discutir com seus inimigos: leva junto com ele os seus filhos, que o defenderão. Então, aqui, “filhos” significa bênção, segurança, força, prestígio, vida eterna... Imagem das virtudes, dos dons... Mas, tudo isso é dom do Senhor, pois, quem pode garantir um ventre fecundo? Segundo a mentalidade bíblia, é a graça por excelência: os filhos! Assim, Israel e cada um de nós, deve sentir a existência: como um dom gratuito de IHWH, a ser aceito e acolhido e vivido numa atitude de gratidão e diálogo ou, como diríamos hoje, de parceria.

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