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Os Salmos Graduais - VI PDF Imprimir E-mail
Estudos Bíblicos
Sex, 08 de Maio de 2009 21:10

Côn. Henrique Soares da Costa

Salmo 123(124) 

            Na sua subida para Jerusalém, o peregrino tem sempre a consciência de que ele refaz o mesmo caminho que o povo de Israel fez ao subir do Egito para a liberdade. Um caminho que não está concluído... caminho sujeito a tantas ciladas, a tantas ameaças e perigos. Por isso, com todo o Povo santo, o peregrino faz memorial: 

Não estivesse IHWH do nosso lado
- Israel que o diga

não estivesse IHWH
do nosso lado

quando os homens nos assaltaram...
 

            A fé, no sentido bíblico, não é nunca uma realidade meramente privada, individual! Ela é adesão a uma história que se toma minha história; história do amor apaixonado de Deus pelo seu povo e por toda a humanidade. Desconhecer ou esquecer esta história é desconhecer o Senhor, é perder a possibilidade de entrar em verdadeiro diálogo existencial com ele e com os irmãos. Esquecer esta história é a origem de todo o pecado: “Apenas fica atento a ti mesmo! Presta muita atenção em tua vida, para não te esqueceres das coisas que os teus olhos viram, e para que elas nunca se apartem do teu coração, em nenhum dia da tua vida” (Dt 4,9)

            Quando o povo esquece o seu Senhor – que é sua segurança, riqueza e esperança - perde o rumo e começa a buscar falsas seguranças: “o homem vive somente de pão”; “sereis como deuses” – eis a mentira que ronda o crente, ameaçadoramente. Era esta a queixa que o Senhor apresenta através de Oséias: “Israel esqueceu Aquele que o fez e construiu palácios!” (8,14). 

Por isso mesmo, o Povo santo deve fazer contínuo memorial de tudo quanto IHWH fez por ele. A fé é, assim, um fazer memorial. Durante a Última Ceia, o Senhor Jesus dizia a seus discípulos: “Fazei isto em memorial de mim!” As gerações que nos ligam a Jesus através dos tempos transmitiram fielmente este “isto”, para que se guardasse a memória viva do Cristo ressuscitado. Cada domingo, toda comunidade celebra a morte e ressurreição do Senhor Jesus, alimenta-se da mesma palavra, aclama com a mesma convicção, traz suas oferendas com a mesma generosidade, come e bebe o corpo e o sangue do Ressuscitado para encontrar sua identidade cristã. O próprio Cristo Jesus nos transmitiu o que tinha recebido do seu povo, pois não veio abolir a Lei e os profetas, mas dar-Ihes pleno cumprimento (cf. Mt 5,17). Ainda hoje, na celebração pascal judaica, o pai de família adverte: “Em cada geração, cada um deve considerar se como se tivesse pessoalmente saído do Egito, como está escrito: “Explicarás, então, a teu filho: isto é em memorial do que o Senhor fez por mim, quando saí do Egito’. Portanto é nosso dever agradecer, honrar e louvar, glorificar, celebrar, enaltecer, consagrar, exaltar e adorar a quem realizou todos esses milagres para nossos pais e para nós mesmos!” 

É, portanto, um memorial que Israel faz ao subir para Jerusalém; memorial das libertações que IHWH realizou em seu favor. O povo reconhece que sem o socorro divino... 

Ter-nos-iam tragado vivos,
tal o fogo de sua ira!
As águas nos teriam inundado,
a torrente chegando ao pescoço;
as águas espumejantes
chegariam ao nosso pescoço!
 

Pois bem: diante das graves calamidades que o povo experimentou (pense-se desde o Egito, passando pelas dificuldades da conquista, dos filisteus, das grandes potências militares, do exílio, dos gregos...) tendo visto o socorro do Senhor, só resta exclamar: 

Bendito seja IHWH! Não nos entregou
como presas a seus dentes;
fugimos vivos, como um pássaro da rede do caçador:
a rede se rompeu e nós escapamos!
 

            O Senhor Jesus fez, na sua existência, memorial da história de seu povo: veja-se, por exemplo o texto da fuga para o Egito (cf. Mt 2,14s): “do Egito chamei o meu filho!” - o Senhor Jesus refaz o caminho de Israel. Do mesmo modo nas tentações do deserto... Quando ele, na Última Ceia, nos convida: “Fazei isto em memorial de mim!” vai além da reprodução do gesto eucarístico. Ele nos convida a renascer na pobreza de Belém, a anunciar a boa nova nos caminhos da vida, a experimentar a rejeição da parte de muitos, a carregar a cruz e subir a Jerusalém com ele e morrer e ressuscitar e, enfim, subir ao Pai! Fazer memorial do Senhor consiste, então, em enxertar nossa vida na vida de Cristo e de seu Corpo, que é a Igreja! Tudo isto é possível na força do Espírito do Ressuscitado. Eis, portanto, a força do memorial: viver cada momento de minha vida e da vida da Igreja e do mundo no fluxo e refluxo das graças e dos pecados do povo da Aliança. Como Daniel na fornalha ardente: “Oh, não nos entregues para sempre, por causa do teu nome, não repudies a tua aliança; não retires de nós a tua misericórdia por amor de Abraão, teu amigo, e de Isaac, teu servo, e de Israel, teu santo, aos quais falaste, prometendo-Ihes...” (3,34ss). Por amor de nosso pai Abraão, de nossos patriarcas Isaac e Jacó, por amor de Jesus nosso Senhor, vamos prosseguir, na força do memorial, a nossa subida a Jerusalém. Colocaremos os desafios que tivermos de enfrentar à luz da fé e da esperança do povo da Aliança e deixaremos que o sangue do Senhor Jesus purifique os nossos corações e resgate as nossas vidas. Se assim o fizermos, experimentaremos a afirmação triunfante do final do salmo: 

O socorro nosso é o nome de IHWH,
que fez o céu e a terra!
 

- Vejam-se, neste contexto 2Rs 18,17 -19,37; Is 36-37 e também Is 36,4-10.18-20; 37,9b-20; 37,21-23.28-29.33-35.

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