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Os Salmos Graduais - IV PDF Imprimir E-mail
Estudos Bíblicos
Sex, 08 de Maio de 2009 21:11

Côn. Henrique Soares da Costa

Salmo 121(122) 

Alegrei-me quando me disseram:
“Vamos à Casa de IHWH !”
 

Agostinho escreve: “O salmo que comentaremos, ou melhor, aquele que descreve a peregrinação neste salmo, canta a Jerusalém da espera. Nesta terra estamos no exílio. Na caminhada suspiramos; na pátria, estremeceremos de alegria. No decorrer de nossa viagem encontramos companheiros; eles já viram a Cidade e nos asseguram que conduzirão nossos passos para lá. Eles arrancaram de Davi um grito de alegria: ‘Alegrei-me quando me disseram: Vamos à Casa do Senhor!’” Não se trata, portanto, de um salmo de quem já chegou, mas da exultação de quem parte sabendo aonde vai! Não podemos dizer como Tomé: “Senhor, não sabemos aonde vais. Como podemos conhecer o caminho?” (Jo 14,5 O Senhor Jesus é aquele que nos indica o caminho; ele é o Caminho para o shalom de Jerusalém! O peregrino, portanto, sabendo o que o espera, enche-se de alegria: “Vamos à Casa do Senhor!” Esta alegria não é um simples sentimento. Trata-se, aqui, da alegria messiânica, aquela alegria prometida para os dias do Messias, quando IHWH visitaria seu povo no shalom, eliminando todas as humilhações da sua peregrinação histórica. É impressionante a exclamação do velho Tobit, na exultação pelo reencontro do filho Tobias: Jerusalém está presente, como esperança da sua alegria (cf. Tb 13,9-17). Para o povo de Deus, a alegria é necessariamente associada ao shalom de Jeru-shalaím. Assim também anunciaram os profetas: 

Ó céus, dai gritos de alegria, ó tema, regozija-te,
os montes rompam em alegres cantos,
pois IHWH consolou o seu povo,
ele se compadece dos seus aflitos.
Sião dizia: “IHWH me abandonou;
o Senhor se esqueceu de mim”.
Por acaso uma mulher se esquecerá da sua criancinha de peito?
Não se compadecerá ela do filho do seu ventre?
Ainda que as mulheres se esquecessem
eu não me esqueceria de ti.
Eis que te gravei nas palmas da minha mão,
os teus muros estão continuamente diante de mim (Is 49,13-16).
 

Rejubila, filha de Sião,
solta gritos de alegria, Israel!
Alegra e exulta de todo coração, filha de Jerusalém!
IHWH
revogou a tua sentença,
eliminou o teu inimigo.
IHWH
, o rei de Israel está no meio de ti,
não verás mais a desgraça!
IHWH
o teu Deus, está no meio de ti,
um herói que salva!
Ele exulta de alegria por tua causa,
renovar-te-á por seu amor,
ele se regozija por tua causa com gritos de alegria,
como dias de festa (Sf 5,14-18). 

Há ainda um texto no qual Jerusalém aparece claramente como a Cidade da alegria messiânica: 

Exulta muito, filha de Sião!
Grita de alegria, filha de Jerusalém!
Eis que o teu rei vem a ti:
ele é justo e vitorioso,
humilde, montado sobre um jumento,
sobre um jumentinho, filho da jumenta (Zc 9,9).
 

A ânsia por Jerusalém, Cidade messiânica, é tal que o peregrino já antecipa psicologicamente o momento de colocar seus pés no solo sagrado: 

Nossos passos já se detêm
às tuas portas, Jerusalém!
 

Agostinho tinha razão ao exclamar: “Corramos, e não nos cansemos! Comamos para a Casa do Senhor!...”
Com o coração às portas da Cidade Santa, o peregrino já canta a beleza de Jerusalém: 

Jerusalém construída como cidade
em que tudo está ligado[1],
para onde sobem as tribos,
as tribos de IHWH,
é uma razão para Israel celebrar
o nome de IHWH
Pois ali estão os tronos da justiça,
os tronos da casa de Davi.
 

O peregrino deslumbra-se por Jerusalém. Mas não pela sua beleza arquitetônica. Jerusalém é muito mais:

· é o centro de unidade das doze tribos, que ao redor de Sião tornam-se o povo da Aliança;
                · é o único lugar legítimo de culto (cf. Dt 12,13s);
                · é o lugar do Templo, sede da presença viva e atuante do Deus santo de Israel. Dali o Deus nômade continua sua peregrinação com o seu povo pelos caminhos da história;
                · é lá que reside a Casa de Davi, aquele que IHWH  escolheu para guiar o seu povo de Israel;
                · finalmente, como capital política, é a sede da justiça, sede de apelo. Ela é a cidade de Melquisedec, o rei de justiça (Malqui = meu rei; tsédeq = é justiça). “Fruto da justiça é a paz”, dizia Isaías (32,17) e o salmo confirma: “Justiça e paz se abraçam” (84[85],10). Por isso o rei de Jerusalém não poderia ser outro que não Melquisedec. E Jerusalém será plenamente sede da justiça e visão de paz quando vier Aquele que é o Filho de Davi e sacerdote segundo a ordem de Melquisedec.
                · Jerusalém é, enfim, a Cidade saída das mãos de Deus, que tem como arquiteto o Deus Um (cf. Is 62,5). Por isso seus habitantes e os que para ela peregrinam devem unificar seus corações no Deus Um: “Um dos escribas... perguntou-lhe: ‘Qual é o primeiro de todos os mandamentos?’ Jesus respondeu: ‘O primeiro é: Ouve, ó Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor, e amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e com toda a tua força’” (Mc 12,28s). O primeiro de todos os mandamentos não é amar a Deus, mas ouvir (= aprender) que o Senhor nosso Deus é UM. Esta unicidade abrange toda a vida do povo de Israel e elimina toda idolatria, toda tentação de concorrência com IHWH.  É um monoteísmo profundamente empenhativo: “Seguireis a IHWH vosso Deus e a ele temereis, observareis seus mandamentos e obedecereis à sua voz, a ele servireis e a ele vos apegareis” (Nm 13,5). “IHWH falou a Moisés e disse: e Fala a toda a comunidade dos filhos de Israel. Tu Ihes dirás: Sede santos, porque eu, IHWH vosso Deus sou santo. Cada um de vós respeitará sua mãe e seu pai. Guardai os meus sábados. Eu sou IHWH vosso Deus. Não vos volteis para os ídolos e não mandeis fundir deuses de metal. Eu sou IHWH vosso Deus. Quando segardes a messe de vossa terra, não segareis até o limite extremo do campo. Não respigarás a tua messe, não rebuscarás a tua vinha nem recolherás o fruto caído no teu pomar. Tu os deixarás para o pobre e para o estrangeiro. Eu sou IHWH vosso Deus. Ninguém dentre vós cometerá roubo, nem usará de falsidade ou de mentira para com o seu compatriota. Não jurareis falsamente pelo meu nome, pois profanarias o nome do teu Deus. Eu sou IHWH. Não oprimirás o teu próximo, nem o roubarás: o salário do operário não ficará contigo até a manhã seguinte. Não amaldiçoarás o mudo e não porás obstáculo diante de um cego, mas temerás o teu Deus. Eu sou IHWH... Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou IHWH(Lv 19,1-18). Ora, a força de união do povo eleito em Jerusalém concentra-se precisamente na experiência mística, existencial e comunitária do Deus-UM. Ao longo de sua história, o povo de Deus aprendeu a respeitar as exigências do Deus-Elohim, sem desanimar perante o desafio que isso representa, porque ele faz com a mesma força e experiência da ternura de Deus-IHWH[2]. Isto é “celebrar o seu Nome”. Portanto, a unidade compacta de Jerusalém, sua harmonia, tem sua fonte no Deus-UM e é sacramento da unidade do povo eleito. Esta unidade tem um nome: shalom

Por isso mesmo o salmista exorta: 

Pedi a paz para Jerusalém:
“Que tuas tendas repousem,
haja paz em teus muros
e repouso em teus palácios!”
 

Jerusalém... lá (SHaM), reside o Nome (SHeM) que assegura a paz (SHaLoM). A paz que o salmista deseja é a paz messiânica (paz de SHeLoMon, o pacífico), que significa felicidade, prosperidade, bem, serenidade, plenitude. Em hebraico a raiz shlm exprime totalidade e plenitude de paz. Assim, o salmista pede que o peregrino deseje que Jerusalém seja o que seu nome indica! Assim, todo o povo de Deus, toda a humanidade encontrarão a verdadeira paz: 

Por meus irmãos e meus amigos
eu desejo: “A paz esteja contigo!”
Pela casa de
IHWH nosso Deus
eu peço: “Felicidade para ti!”
 

Toda esta expectativa começou a realizar-se naquele que disse: 

Deixo-vos o shalom,
o meu shalom vos dou;
não vo-lo dou como o mundo dá.
Não se perturbe nem se intimide vosso coração! (Jo 14,27).
 

No entanto, será plena somente na Jerusalém celeste: 

Nunca mais haverá maldições.
Nela estará o trono de Deus e do Cordeiro,
e seus servos Ihe prestarão culto;
verão sua face,
e seu nome estará sobre suas frontes.
Já não haverá noite:
ninguém mais precisará da luz da lâmpada,
nem da luz do sol,
porque o Senhor Deus ( IHWH -Elohim) brilhará sobre eles,
e eles reinarão pelos séculos dos séculos (Ap 22,3-5).
 

- Para leitura: SI 83(84) 

[1] Aqui a tradução é dificílima:

Jerusalém, a construída
como uma cidade cuja força de união para ela é:

todos no Um.

[2] Note-se que a literatura rabínica, referindo-se a Ex 34,6s (Ouve, ó Israel: IHWH  nosso Elohim, IHWH  é UM), considera que o nome IHWH  evoca o traço materno do amor de Deus:

IHWH , IHWH ,
Deus de compaixão e piedade,
lento para a cólera,
e cheio de amor e fidelidade.
 

A compaixão é por definição a qualidade da mãe: durante nove meses, ela carrega e alìmenta no seu ventre (ReKHeM), o filho que será para sempre objeto de sua compaixão (RaKHaMiM). Já o vocábulo Elohim evoca o amor paterno de Deus, feito de exigência na fidelidade à sua vontade. Para ser eficaz essa exigência supõe uma cobrança, que se exprime sobretudo no juízo e inclui a possibilidade de castigo.

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Última atualização em Sex, 08 de Maio de 2009 21:35
 

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