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| Deus: de libertador a tirano |
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| Henri de Lubac |
| Sáb, 16 de Maio de 2009 00:29 |
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Caro Internauta, eis um texto do Pe. de Lubac que faz pensar. Henri de Lubac, sacerdote jesuíta, foi um dos maiores teólogos do século XX. Homem de Deus, homem de Igreja, homem profundamente humano, suas idéias ainda hoje são de grande atualidade. Pretendo colocar alguns dos seus pensamentos a seu dispor neste espaço. Boa leitura... Sem dúvida, o homem é feito de pó e de barro – hoje diríamos em outras palavras que ele sai da animalidade. A Igreja não o esquece, dado que isso é atestado das próprias páginas do Gênesis. Sem dúvida o homem é, além do mais, pecador, e a Igreja não cessa de lhe recordar isso. A estima que ela deseja inculcar-lhe por si próprio não deriva de uma visão superficial e ingênua. Como Cristo, ela “sabe aquilo que há o homem”... Mas, sabe também que essa humildade das suas origens carnais não impede de modo algum a sublimidade da sua vocação, e todas as taras que possam derivar do pecado não impedem de nenhum modo que essa vocação se mantenha viva e seja princípio de uma grandeza inalienável[1]. Pelo contrário, a Igreja pensa que tal vocação deva manifestar-se mesmo nas condições da vida presente, como uma fonte de liberdade e como um princípio de progresso, uma necessária vitória sobre as forças do mal. A Igreja reconhece, enfim, no mistério do Deus feito homem a garantia da nossa vocação e a consagração definitiva da nossa grandeza. Assim ela pode celebrar a cada dia na sua liturgia “a dignidade da natureza humana[2] antes mesmo de elevar-se à contemplação do nosso novo nascimento... Estas verdade elementares da nossa fé hoje nos parecem banais – se bem que freqüentemente nos descuidamos de seu significado. Temos dificuldade de imaginar a revolução que elas introduziram na alma da Antigüidade. Quando recebeu o primeiro anúncio delas, a humanidade foi tomada de esperança. Ela era atormentada por obscuros pressentimentos, que quase como a golpes, tornavam mais profunda a consciência da sua condição de miséria. Certamente, não se tratava em primeiro lugar daquela libertação exterior, daquela emancipação social que seria, por exemplo, a supressão da escravidão. Esta, que somente tornou-se possível através de múltiplas condições de ordem técnica e econômica, realizou-se lentamente, mas de modo firme, por influxo da idéia cristã de homem. “Deus – dizia Orígenes – fez todos os homens à sua imagem, modelou-os um por um”. Mas, desde o início esta idéia havia exercido uma ação mais profunda. Graças a ela, o homem foi libertado diante de si próprio da escravidão ontológica que o Destino fazia pesar sobre ele. (...) O Deus transcendente, o Deus amigo dos homens, revelado em Jesus Cristo, abria a todos um caminho que ninguém havia imaginado[3]. Daqui brota aquele intenso sentimento de alegria e de novidade radiante difundido por toda parte nos primeiros escritos cristãos. Agora, se descermos o curso dos séculos até chegar à aurora dos tempos modernos, faremos uma estranha descoberta. Eis que aquela mesma idéia cristã sobre o homem, que fora acolhida como uma libertação, começa a ser sentida como um jugo. Aquele mesmo Deus, no qual o homem havia aprendido a reconhecer o selo da sua própria grandeza, começa a parecer-lhe como um antagonista, um inimigo da sua dignidade. (...) Como os antigos Padres da Igreja, também os grandes doutores medievais, por sua vez, sem distinção de escola, tinham exaltado o homem, expondo o que a Igreja sempre ensinou a respeito da sua relação com Deus: Nisto o homem é engrandecido, nisto é dignificado, nisto é superior a todas as criaturas! Mas, o homem, um dia, não mais foi tocado por isso. Começou a crer que agora não se amaria e não poderia se desenvolver livremente se não quebrasse as relações, primeiro com a Igreja e, depois com aquele próprio Ser transcendente de quem a tradição cristã o fazia depender. Depois de, num primeiro momento, ter assumido o aspecto de um retorno ao antigo paganismo, esse movimento de ruptura progrediu velozmente e difundiu-se no curso dos séculos XVIII e XIX, para desaguar, depois de muitas etapas e vicissitudes, nas formas mais ousadas e mais violentas do ateísmo moderno. Humanismo absoluto que pretende ser o único verdadeiro humanismo e a cujos olhos um humanismo cristão não pode aparecer a não ser como algo ridículo. (...) O homem elimina Deus para ele mesmo tomar posse de novo da grandeza humana que lhe parece indevidamente roubada por um outro. Em Deus, ele derruba um obstáculo para conquistar sua liberdade[4]. (Henri de Lubac, Il dramma dell’umanesimo ateo). [1] Aqui está, precisamente, a beleza e o equilíbrio da antropologia cristã: ela afirma, ao mesmo tempo, a condição de simples criatura do homem, afirma sua pecaminosidade e, ao mesmo tempo, a grandeza do seu ser: ele é imagem de Deus, criado para a amizade e a comunhão com ele. trata-se de uma antropologia profundamente realista, provocante e libertadora. [2] A oração de ofertório da Missa diz: “Ó Deus, que de modo admirável criastes a dignidade da natureza humana...”. Bruno de Segni: “Grande honra, grande nobreza que o homem tenha sido feito à imagem e semelhança de Deus! Compreende a tua dignidade, nobre criatura!” [3] De Lubac está certo. A Antigüidade cristã tinha uma visão e uma prática negativa em relação ao indivíduo. Se a filosofia grega, por vezes, exaltava o homem, não valorizava a dignidade do indivíduo e, de modo geral, tinha uma visão fatalista e pessimista da vida humana. Foi a novidade cristã que libertou a cultura greco-latina dessa carga negativa, possibilitando uma visão otimista da vida e do homem. Aqui está o húmus do qual nasceu a civilização européia que conquistou o mundo e agora renega suas raízes cristãs! Artigos Relacionados: |
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