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Perguntas do Internauta
Dom, 24 de Maio de 2009 22:00


Usando o vocabulário dos sacrifícios, os autores do Novo testamento querem dizer que a morte de Jesus produziu os efeitos que se esperavam dos sacrifícios? A morte de Jesus é um sacrifício no sentido de uma obra que se produz pela eficácia do sangue derramado? (Paulo César) 

            Realmente, os cristãos interpretaram a paixão e morte de Jesus à luz dos sacrifícios do Antigo Testamento. Por exemplo: o Evangelho de São João, ao narrar a paixão do Senhor, o tempo todo faz referência aos ritos litúrgicos judaicos (por exemplo: Jo 19,14 refere-se ao meio-dia, quando o fermento deveria ser retirado das casas para a celebração da Páscoa; Jo 19,23 faz referência à túnica inconsútil de Jesus. Esta referência pode ser uma alusão à túnica do Sumo Sacerdote, que era inconsútil; Jo 19,36: o fato de não quebrarem as pernas de Jesus parece ser atribuído ao cordeiro pascal, que não deveria ter nenhum osso quebrado). Mais ainda que João, a Carta aos Hebreus apresenta claramente o sacrifício de Cristo como cumprimento dos sacrifícios do Antigo Testamento. Enfim, o Novo Testamento, de modo geral, interpreta a paixão e morte de Cristo como sacrifício e na linha dos sacrifícios do Antigo Testamento.

            Agora vamos às questões: “isso quer dizer que a morte de Jesus produziu os efeitos que se esperavam dos sacrifícios do Antigo Testamento?” A resposta é sim! A Carta aos Hebreus afirma isso o tempo todo. Quando os israelitas ofereciam um sacrifício, fundamentalmente, eles estavam querendo oferecer a vida ao Senhor. O sangue simboliza a vida e o animal sacrificado representava aquele que o ofertava. Ora, Cristo é a verdadeira vítima, oferecida em sacrifício por todos nós. Ele próprio se ofereceu por toda a humanidade, como vítima por nossos pecados, que nos matam porque nos afastam do Deus da vida. A entrega da sua vida resgata a nossa vida da morte (que é afastamento do Deus-Vida). 

            E, a segunda questão: “a morte de Jesus é um sacrifício no sentido de uma obra que se produz pela eficácia do sangue derramado?” Aqui são necessários alguns esclarecimentos: 

(1) Na Bíblia, o sangue não significa somente o líquido vermelho de nossas artérias. O sangue derramado simboliza a vida dada, vida derramada, vida entregue. 

(2) Jesus viveu sua vida todinha “derramando-se” por amor ao Pai em nosso favor. Ele derramou sua vida, seu sangue, durante toda a sua existência: caminhando pelas estradas debaixo do sol escaldante, perdoando, ensinando, acolhendo, tendo paciência, suportando as injúrias dos inimigos e a lentidão dos discípulos... Assim, Jesus foi se consumindo, dando-se, derramando-se pelos seus e por toda a humanidade... e “tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1). A entrega de Jesus na cruz nada mais foi que a consumação de toda uma vida feita entrega, derramada por nós. 

(3) O que significa o sangue de Jesus? Significa a vida toda de Jesus, dada conscientemente por amor ao Pai em nosso favor! Então, se você imagina “sangue” somente como a líquido vermelho das artérias de Jesus, a resposta à sua pergunta é não! O sangue de Jesus não é um amuleto mágico! Sangue por sangue, não seria muito diferente do das vítimas do Antigo Testamento. 

(4) Se você imagina o sangue derramado de Jesus como expressão e símbolo de toda uma existência vivida e entregue por amor consciente e livre, amor ao Pai e a nós, então a resposta é sim! A eficácia do sacrifício de Jesus decorre do sangue/vida derramado do Filho de Deus, que, por nós, fez-se obediente ao Pai até a morte e morte de cruz. Este sangue/vida é o preço da nossa salvação e por ele fomos lavados de nossos pecados. Há um texto da Epístola aos Hebreus que exprime maravilhosamente esta idéia: “É ele que, nos dias de sua vida terrestre, apresentou pedidos e súplicas, com veemente clamor e lágrimas, àquele que o podia salvar da morte; e foi atendido por causa da sua submissão. E embora fosse Filho, aprendeu, contudo, a obediência pelo sofrimento; e, levado à perfeição, se tornou para, todos os que lhe obedecem, princípio de salvação, tendo recebido de Deus o título de sumo sacerdote” (5,7-10).      Segundo este texto, em toda a sua vida, Jesus derramou-se diante de Deus em obediência sofrida e amorosa, em nosso favor. Tal obediência, tal entrega, tal derramamento da vida/sangue chegou à perfeição, ao ponto máximo na entrega da cruz. Como foi uma vida/sangue derramada não inconscientemente, mas livremente e por amor, em nome de todos nós, tal entrega, tal sangue derramado, tem um valor salvífico para todos nós! 

(5) É necessário, portanto, evitar uma representação do sangue simplesmente na sua materialidade, como se aquele líquido por si só, quase que de um modo mágico, tivesse a força e o poder de salvar! Este é o erro do Mel Gibson no seu filme “Paixão de Cristo”: ele enfatiza exageradamente o sangue de Jesus simplesmente na sua materialidade, como se Jesus nos salvasse mais porque sofreu muito e derramou muito sangue! Não é a quantidade de sangue derramado ou de sofrimento suportado por Jesus que nos salvam, mas sim a intensidade do seu amor de Filho de Deus feito homem por nós e, por nós, obediente até a morte e morte de cruz. É certo que amor e dor vão juntos na vida, mas é também verdade que somente o amor pode dar um sentido à dor! A dor, sem amor, ou é masoquismo ou absurdo! A dor, vivida com amor e por amor, liberta e salva!

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