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Perguntas do Internauta
Dom, 24 de Maio de 2009 22:06


Como a existência do Inferno pode combinar com um Deus de Amor? Por que Deus permite a existência do Mal? (Paulo César) 

            Antes de tudo, sugiro uma leitura do texto “Sobre o fim do mundo – V”, no link Cursos. Ali há uma apresentação bastante detalhada da questão.

            A pergunta, na verdade, coloca duas questões, conexas, mas distintas. Vamos lá, brevemente, começando pelo fim: 

(1) Por que Deus permite o mal? 

            O mal não é obra de Deus. Ele, ao criar, revelou seu maior poder não somente ao chamar à existência coisas, mas, sobretudo, ao criar seres livres: Deus criou os anjos e os homens. Só um Deus capaz de amar infinitamente, um Deus infinitamente seguro de si, senhor de si, poderia criar seres realmente conscientes e livres. E por quê? Porque ao nos criar livres para dizermos “sim” ao Criador, deu-nos realmente a capacidade de dizer “não”. Ao criar seres livres, Deus aceitou correr o risco de receber um “não” na cara! E Deus respeita esse “não”, não nos destrói por isso! Ele é tão grande e generoso no seu amor onipotente, que suporta o “não” da criatura, respeitando-a até o fim... como o pai do filho pródigo, que dolorosamente vê o filho partir, mas respeita sua liberdade! 

            Ora, o mal no mundo será sempre um mistério que nos ultrapassa. Mas, se ele é pesado, se ele é tão destrutivo, a Escritura ensina que, de algum modo, ele está ligado ao “não” que a humanidade disse e diz a Deus. Por exemplo: uma criancinha paralítica. É um mal. E Deus respeita a ordem da sua criação, de modo que ela continuará paralítica. Mas, se fôssemos uma humanidade fraterna, justa, solidária, será que aquela criança, mesmo com seus problemas, não teria uma vida feliz? O mal não se tornaria ocasião para um bem maior? A criança não se sentiria amada, respeitada, protegida? Veja bem: isso não resolve a questão do mal, mas nos indica que a nossa liberdade, se bem usada, muda o sentido do mal em bem. A enorme maioria dos males está ligada ao egoísmo e fechamento da humanidade para Deus e entre si! 

Além do mais, Deus, silenciosamente, assumiu o mal; ele não é indiferente ao mal, aos nossos males: no seu Filho, ele suportou a humilhação e a morte... carregou os males do mundo e fez da cruz, sinal de ódio e injustiça, um sinal de amor e salvação. Repito, então: Deus não nos explica o mal. Neste mundo, jamais poderemos compreendê-lo totalmente. No entanto, sabemos e sentimos que esta realidade terrível do mal, está ligada ao pecado, ao nosso fechamento para Deus e os irmãos e que esse mal pode ter seu sentido mudado, como Cristo fez na cruz. Para o cristão, ainda que o mal entristeça e amedronte, já não o pode esmagar: unido a Cristo, ele sabe que "tudo concorre para o bem dos que amam a Deus".

(2) Por que Deus permite o Inferno? 

            Porque é amor! Criou-nos livres, criou-nos para ele... e jamais pisará a nossa liberdade. Não é um Deus tirano e despótico, que não respeita a minha liberdade! Se eu construo a minha existência como um “sim” a ele, se me abro para ele, ele poderá preencher-me plenamente após esta vida – é o céu, comunhão com Deus. Se me fecho, se me torno incapaz de uma relação com ele, se me torno incapaz de comunhão com ele, pelos meus fechamentos a ele nesta vida, ele também respeita - triste, contra a vontade, mas coerente com sua decisão de me respeitar, de respeitar minha liberdade até o fim! Isto é o inferno: viver eternamente longe de Deus.  

Rigorosamente, não é Deus quem manda para o inferno! Deus somente chama para o céu; criou-nos para o céu! O inferno é decisão minha, ao dizer “não” ao chamado de Deus. E o “sim” ou o “não”, a gente diz com a vida, com as decisões e atitudes de cada dia. 

            Se Deus não respeitasse o meu “não”, tampouco levaria a sério o meu “sim”; se não há inferno, também não há céu. Mas, o céu e o inferno existem porque Deus é amor, Deus nos respeita de fato. Amar é dar ao outro espaço para a liberdade. E ser livre é também escolher, assumindo plenamente as conseqüências da escolha!

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