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A mentalidade islâmica PDF Imprimir E-mail
Ratzinger
Seg, 29 de Dezembro de 2008 19:56

Joseph Cardeal Ratzinger

Caro Internauta, eis um texto retirado do volume “Um olhar sobre a Europa. Igreja e modernidade na Europa das revoluções”, no qual o Cardeal Ratzinger, nosso Bento XVI, faz uma análise sobre algumas questões do Islã atual. Note que o que preocupa o Cardeal e, atualmente, o Papa, é que se procure compreender donde vem essa postura fundamentalista de parte dos países islâmicos. Por quê a preocupação? Porque é vital para o futuro da humanidade, que só terá chance num diálogo entre as culturas...

Com referência àquilo que se começou a chamar “Mundo islâmico” – cujo rosto multiforme não pode ser descrito aqui nem mesmo de modo aproximativo – gostaria somente de fazer referência de modo crítico a um dos temas do debate contemporâneo que se oferece freqüentemente como chave geral para esclarecer os processos atuais: a expressão “fundamentalismo”.

Se, antes de tudo, procurarmos muito brevemente as bases sobre as quais se apóia o atual renascimento islâmico, saltam aos olhos duas causas.

Em primeiro lugar, o progresso econômico e, com isto, também político e militar do mundo islâmico, a partir do significado que o petróleo assumiu na política internacional. Mas, enquanto no Ocidente o progresso econômico conduziu a um enfraquecimento da substância religiosa, o novo impulso econômico no mundo islâmico liga-se a uma nova consciência religiosa, na qual se conjugam em indissolúvel unidade a religião islâmica, a cultura e a política.

Essa nova consciência religiosa e as atitudes que dela nascem são chamadas no Ocidente de fundamentalismo. Do meu ponto de vista, se está transpondo um conceito do protestantismo norte-americano de modo inadequado para um mundo com características completamente diversas; coisa que não contribui para o verdadeiro conhecimento das circunstâncias. O fundamentalismo é, no seu significado originário, uma corrente surgida no protestantismo norte-americano do século XIX que tomou posição contra o evolucionismo e a crítica bíblica e que – juntamente com a defesa da absoluta infalibilidade da Escritura – procurou estabelecer um sólido fundamento cristão contra as duas correntes.

Sem dúvida, há analogias em relação a essas posições em outros universos espirituais mas, se se transforma a analogia em identidade, incorre-se em uma simplificação errônea. Da referida qualificação tirou-se uma chave demasiadamente simplificada, pela qual se pretende dividir o mundo em duas metades, uma boa e outra má. A linha do pretenso fundamentalismo estende-se então do protestante ao católico, até o fundamentalismo islâmico e aquele outro, marxista. Aqui a diferença freqüentemente não vale nada.

É fundamentalista aquele que tem sempre convicções firmes e por isso age como criador de conflitos e como inimigo do progresso. Seriam coisas boas, ao contrário, a dúvida, a luta contra as antigas convicções e, junto com isso, todos os movimentos modernos não dogmáticos ou anti-dogmáticos. Mas, quando se prescinde dos conteúdos a partir de um esquema classificatório puramente formal, não se pode interpretar realmente o mundo. Na minha opinião, dever-se-ia deixar de lado a expressão “fundamentalismo islâmico” porque esconde sob um mesmo rótulo processos muito diferentes ao invés de esclarecê-los.

Dever-se-ia distinguir, na minha opinião, o ponto de partida do novo despertar islâmico e as suas várias formas.

No que concerne ao ponto de partida, parece-me muito significativo que os primeiros sintomas da virada no Irã tenham sido os atentados contra o cinema norte-americano. O modo de viver ocidental, com a sua permissividade moral, foi interpretada como um ataque à própria identidade e à dignidade do próprio modo de viver.

O mundo cristão tinha gerado, nos momentos de maior expansão do seu poder, pelo menos no interior dos círculos cultos do mundo islâmico, um sentimento negativo em relação ao próprio subdesenvolvimento e dúvidas sobre a própria identidade. Desse modo cresceu o desprezo, marginalizando o moral e o religioso ao âmbito puramente privado, numa configuração da vida pública na qual era válido somente o agnosticismo religioso e moral. O poder com o qual tal estilo de vida foi imposto formalmente, sobretudo por meio da exportação da cultura norte-americana – um estilo de vida que devia parecer o único normal -, foi percebido sempre mais como um ataque contra quanto existia de profundo na própria essência. O fato que não se combata nem ataque a atéia União Soviética, mas sim os Estados Unidos da América – tolerantes em matéria religiosa e ao mesmo tempo fortemente marcados pela religião -, depende daquele choque entre uma cultura moralmente agnóstica e um sistema de vida no qual a nação, a cultura, a moral e a religião apareciam como uma totalidade indivisível.

As configurações concretas de tal nova autoconsciência islâmica são muito variadas. O agarrar-se fanaticamente às tradições religiosas liga-se em muitos sentidos ao fanatismo político e militar, no qual a religião é abertamente considerada como um caminho de poder terreno. A instrumentalização das energias religiosas em função da política é sem dúvida algo de muito próximo à tradição islâmica.

Em consonância com isso desenvolveu-se, em relação ao fenômeno da resistência palestina, uma interpretação revolucionária do islã que imita a teologia cristã da libertação e que facilmente deu curso a uma mistura de terrorismo ocidental, inspirado no marxismo, e aquele outro, islâmico.

Aquilo que superficialmente é chamado “fundamentalismo islâmico” poder-se-ia ligar sem dificuldade às idéias socialistas sobre a libertação: o islã é pensado como o verdadeiro caminho da luta pela libertação dos povos oprimidos. Roger Garaudy, por exemplo, encontrou nesta possibilidade a sua passagem do marxismo ao islã: ele vê neste último o portador de novas forças revolucionárias contra o capitalismo dominante. Em contraposição a isso, um homem de Estado fortemente marcado pela religião, como o Rei Hassam do Marrocos, exprimiu pouco tempo atrás sua profunda preocupação pelo futuro do Islã: uma interpretação do islã que considera como seu núcleo o abandono a Deus é oposta a uma interpretação político-revolucionária, na qual a questão religiosa se transforma em um componente de um chauvinismo cultural e, com isso, fica subordinada à política.

Não deveríamos nos aproximar com tanta superficialidade da análise de um fenômeno tão complexo como este. O islã, tão seguro de si, age sobre o Terceiro Mundo como uma realidade mais fascinante que um cristianismo em guerra consigo mesmo.

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