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Variedade
Sáb, 23 de Maio de 2009 03:21

Habemvs Papam!

Temos Papa!

Bento XVI

Humilde trabalhador da Vinha do Senhor

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Caro(a) Internauta, eis a encantadora e sólida homilia do Santo Padre Bento XVI por ocasião de sua Missa inaugural. É um texto para ser meditado profundamente.


Senhores cardeais,
Venerados irmãos no episcopado e no sacerdócio,
Distintas autoridades e membros do Corpo diplomático,
Queridos irmãos e irmãs:

      Por três vezes, acompanhou-nos nestes dias tão intensos o canto das ladainhas dos santos: durante os funerais de nosso Santo Padre João Paulo II; por ocasião da entrada dos cardeais em conclave, e também hoje, quando as cantamos com a invocação: «Tu illum adiuva» (= Tu, ajuda-o!), assiste o novo sucessor de São Pedro. Ouvi este canto orante cada vez de um modo completamente singular, como um grande consolo. Como nos sentimos abandonados após o falecimento de João Paulo II! O Papa que durante 26 anos foi nosso pastor e guia no caminho através de nossos tempos. Ele cruzou o limiar para a outra vida, entrando no mistério de Deus. Mas não deu este passo sozinho. Quem crê, nunca está só; não o está na vida nem tampouco na morte. Naqueles momentos pudemos invocar os santos de todos os séculos, seus amigos, seus irmãos na fé, sabendo que seriam o cortejo vivo que o acompanharia no mais além, até a glória de Deus. Nós sabíamos que ali se esperava sua chegada. Agora sabemos que ele está entre os seus e se encontra realmente em sua Casa. Fomos consolados de novo realizando a solene entrada no conclave para eleger aquele que Deus havia escolhido. Como podíamos reconhecer seu nome? Como 115 bispos, procedentes de todas as culturas e países, podiam encontrar a quem Deus queria outorgar a missão de ligar e desligar? Uma vez mais, sabíamos que não estávamos sós, que estávamos rodeados, guiados e conduzidos pelos amigos de Deus. E agora, neste momento, eu, fraco Servo de Deus, hei de assumir este cometido inaudito, que supera realmente toda capacidade humana. Como posso fazê-lo? Como serei capaz de levá-lo a cabo? Todos vós, queridos amigos, acabais de invocar toda a multidão de santos, representada por alguns dos grandes nomes da história que Deus tece com os homens. Deste modo, também em mim se reaviva esta consciência: não estou só. Não tenho de levar somente eu o que, na realidade, nunca poderia suportar sozinho. A multidão dos santos de Deus me protege, sustenta-me e me conduz. E me acompanham, queridos amigos, vossa compreensão, vosso amor, vossa fé e vossa esperança. Com efeito, à comunidade dos santos não pertencem só as grandes figuras que nos precederam e cujos nomes conhecemos. Todos nós somos a comunidade dos santos; nós, batizados no nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo; nós, que vivemos do dom da Carne e do Sangue de Cristo, por meio do qual ele quer transformar-nos e fazer-nos semelhantes a si mesmo. Sim, a Igreja está viva; esta é a maravilhosa experiência destes dias. Precisamente nos tristes dias da enfermidade e da morte do Papa, algo se manifestou de modo maravilhoso ante nossos olhos: que a Igreja está viva. E a Igreja é jovem. Ela leva em si mesma o futuro do mundo e, portanto, indica também a cada um de nós a via para o futuro. A Igreja está viva e nós vemos: experimentamos a alegria que o Ressuscitado prometeu aos seus. A Igreja está viva, está viva porque Cristo está vivo, porque ele ressuscitou verdadeiramente. Na dor que aparecia no rosto do Santo Padre nos dias de Páscoa, contemplamos o mistério da paixão de Cristo e tocamos ao mesmo tempo suas feridas. Mas em todos estes dias também pudemos tocar, em um sentido profundo, o Ressuscitado. Pudemos experimentar a alegria que ele prometeu, depois de um breve tempo de escuridão, como fruto de sua ressurreição.

      A Igreja está viva: deste modo saúdo com grande alegria e gratidão todos vós que estais aqui reunidos, veneráveis irmãos cardeais e bispos, queridos sacerdotes, diáconos, agentes de pastoral e catequistas. Saúdo-vos, religiosos e religiosas, testemunhas da presença transfigurante de Deus. Saúdo-vos, fiéis leigos, imersos no grande campo da construção do Reino de Deus que se expande no mundo, em qualquer manifestação da vida. A saudação se enche de afeto ao dirigi-la também a todos os que, renascidos no sacramento do Batismo, ainda não estão em plena comunhão conosco; e a vós, irmãos do povo hebreu, ao que estamos estreitamente unidos por um grande patrimônio espiritual comum, que funde suas raízes nas irrevogáveis promessas de Deus. Penso, enfim - quase como uma onda que se expande - em todos os homens de nosso tempo, crentes e não-crentes.

      Queridos amigos! Neste momento não necessito de apresentar um programa de governo. Alguma marca do que considero minha tarefa, pude expor já em minha mensagem da quarta-feira, 20 de abril; não faltarão outras ocasiões para fazê-lo. Meu verdadeiro programa de governo é não fazer minha vontade, não seguir minhas próprias idéias, mas pôr-me, junto com toda a Igreja, à escuta da palavra e da vontade do Senhor e deixar-me conduzir por Ele, de tal modo que seja ele mesmo que conduza a Igreja nesta hora de nossa história. Em lugar de expor um programa, desejaria mais tentar comentar simplesmente os dois sinais com os quais se representa liturgicamente o início do Ministério Petrino; ambos os sinais refletem também exatamente o que se proclamou nas leituras de hoje.

      O primeiro sinal é o pálio, tecido de lã pura, que se me põe sobre os ombros. Este sinal antiqüíssimo, que os bispos de Roma levam desde o século IV, pode ser considerado uma imagem do jugo de Cristo, que o Bispo desta cidade, o Servo dos servos de Deus, toma sobre seus ombros. O julgo de Deus é a vontade de Deus que nós acolhemos. E esta vontade não é um peso exterior, que nos oprime e nos priva da liberdade. Conhecer o que Deus quer, conhecer qual é o caminho da vida, era a alegria de Israel, seu grande privilégio. Esta é também nossa alegria: a vontade de Deus, em vez de afastar-nos de nossa própria identidade, purifica-nos - talvez às vezes de maneira dolorosa - e nos faz voltar deste modo a nós mesmos. E assim não servimos somente a Ele, mas também à salvação de todo o mundo, de toda a história. Na realidade, o simbolismo do pálio é mais concreto ainda: a lã de cordeiro representa a ovelha perdida, enferma ou fraca, que o pastor leva nas costas para conduzi-la às águas da vida. A parábola da ovelha perdida, que o pastor busca no deserto, foi para os Padres da Igreja uma imagem do mistério de Cristo e da Igreja. A humanidade - todos nós - é a ovelha desgarrada no deserto que já não pode encontrar o caminho. O Filho de Deus não consente que ocorra isto; não pode abandonar a humanidade a uma situação tão miserável. Põe-se de pé, abandona a glória do céu, para ir em busca da ovelha e ir atrás dela, inclusive até a cruz. Coloca-a sobre seus ombros, carrega-se com nossa humanidade, leva-nos a nós mesmos, pois Ele é o bom pastor, que oferece sua vida pelas ovelhas. O pálio indica em primeiro lugar que Cristo leva todos nós. Mas, ao mesmo tempo, convida-nos a levar-nos uns aos outros. Converte-se assim no símbolo da missão do pastor de que falam a segunda leitura e o Evangelho de hoje. A santa inquietude de Cristo há de animar o pastor: não é indiferente para ele que muitas pessoas vaguem pelo deserto. E há muitas formas de deserto: o deserto da pobreza, o deserto da fome e da sede; o deserto do abandono, da solidão, do amor quebrantado. Existe também o deserto da escuridão de Deus, do vazio das almas que já não têm consciência da dignidade e do rumo do homem. Os desertos exteriores multiplicam-se no mundo, porque se estenderam os desertos interiores. Por isso, os tesouros da terra já não estão ao serviço do cultivo do jardim de Deus, no qual todos podem viver, mas subjugados ao poder da exploração e da destruição. A Igreja em seu conjunto, assim como seus Pastores, hão de pôr-se a caminho como Cristo para resgatar os homens do deserto e conduzi-los ao lugar da vida, para a amizade com o Filho de Deus, para Aquele que nos dá a vida, e a vida em plenitude. O símbolo do cordeiro tem ainda outro aspecto. Era costume no antigo Oriente que os reis chamassem a si mesmos pastores de seu povo. Era uma imagem de seu poder, uma imagem cínica: para eles, os povos eram como ovelhas das quais o pastor podia dispor a seu agrado. Pelo contrário, o pastor de todos os homens, o Deus vivo, fez-se ele mesmo cordeiro, pôs-se da parte dos cordeiros, dos que são pisoteados e sacrificados. Precisamente assim se revela Ele como o verdadeiro pastor: «Eu sou o bom pastor [...]. Eu dou minha vida pelas ovelhas», diz Jesus de si mesmo (Jo 10,14s). Não é o poder o que redime, mas o amor. Este é o distintivo de Deus: Ele mesmo é amor. Quantas vezes desejaríamos que Deus se mostrasse mais forte! Que atuasse duramente, derrotasse o mal e criasse um mundo melhor. Todas as ideologias do poder se justificam assim, justificam a destruição do que se oporá ao progresso e à libertação da humanidade. Nós sofremos pela paciência de Deus. E, não obstante, todos necessitamos de sua paciência. O Deus, que se fez cordeiro, diz-nos que o mundo se salva pelo Crucificado e não pelos crucificadores. O mundo é redimido pela paciência de Deus e destruído pela impaciência dos homens.

      Uma das características fundamentais do pastor deve ser amar os homens que lhe foram confiados, tal como ama Cristo, a cujo serviço está. «Apascenta minhas ovelhas», diz Cristo a Pedro, e também a mim, neste momento. Apascentar quer dizer amar, e amar quer dizer também estar disposto a sofrer. Amar significa dar o verdadeiro bem às ovelhas, o alimento da verdade de Deus, da palavra de Deus; o alimento de sua presença, que ele nos dá no Santíssimo Sacramento. Queridos amigos, neste momento só posso dizer: rogai por mim, para que aprenda a amar cada vez mais o Senhor. Rogai por mim, para que aprenda a querer cada vez mais seu rebanho, a vós, a Santa Igreja, a cada um de vós, tanto pessoal como comunitariamente. Rogai por mim, para que, por medo, não fuja ante os lobos. Roguemos uns pelos outros para que seja o Senhor quem nos leve e nós aprendamos a levar-nos uns aos outros.

      O segundo sinal com o qual a liturgia de hoje representa o começo do Ministério Petrino é a entrega do anel do pescador. O chamado de Pedro a ser pastor, que ouvimos no Evangelho, vem depois da narração de uma pesca abundante; depois de uma noite na qual lançaram as redes sem êxito, os discípulos viram na margem o Senhor ressuscitado. Ele lhes manda voltar a pescar outra vez, e eis aí que a rede se enche tanto que não tinham forças para tirá-la; havia 153 peixes grandes e, «ainda que fossem tantos, a rede não se rompeu» (Jo 21,11). Este relato ao final do caminho terreno de Jesus com seus discípulos corresponde a um do princípio: tampouco então os discípulos haviam pescado nada durante toda a noite; também então Jesus convidou Simão a remar mar adentro. E Simão, que ainda não se chamava Pedro, deu aquela admirável resposta: «Mestre, na tua palavra encherei as redes». Foi-lhe confiada então a missão: «Não temas, desde agora serás pescador de homens» (Lc 5,1.11). Também hoje se diz à Igreja e aos sucessores dos apóstolos que se adentrem no mar da história e encham as redes, para conquistar os homens para o Evangelho, para Deus, para Cristo, para a vida verdadeira. Os Padres dedicaram também um comentário muito particular a esta tarefa singular. Dizem assim: para o peixe, criado para viver na água, resulta mortal tirá-lo do mar. É privado de seu elemento vital para converter-se em alimento do homem. Mas na missão do pescador de homens ocorre o contrário. Nós homens vivemos alienados, nas águas salgadas do sofrimento e da morte; em um mar de escuridão, sem luz. A rede do Evangelho nos resgata das águas da morte e nos leva ao resplendor da luz de Deus, na vida verdadeira. Assim é, efetivamente: na missão de pescador de homens, seguindo a Cristo, é necessário tirar os homens do mar salgado por todas as alienações e levá-lo à terra da vida, à luz de Deus. Assim é, em verdade: nós existimos para ensinar Deus aos homens. E unicamente onde se vê Deus, começa realmente a vida. Só quando encontramos em Cristo o Deus vivo, conhecemos o que é a vida. Não somos o produto casual e sem sentido da evolução. Cada um de nós é o fruto de um pensamento de Deus. Cada um de nós é querido, cada um é amado, cada um é necessário. Nada há de mais maravilhoso que ter sido alcançados, surpreendidos, pelo Evangelho, por Cristo. Nada mais belo que conhecê-lo e comunicar aos outros a amizade com ele. A tarefa do pastor, do pescador de homens, pode parecer às vezes grave. Mas é gozosa e grande, porque em definitivo é um serviço à alegria, à alegria de Deus que quer fazer sua entrada no mundo.

      Quero agora destacar ainda uma coisa: tanto na imagem do pastor como na do pescador, emerge de maneira muito explícita o chamado à unidade. «Tenho, também, outras ovelhas que não são deste redil; também estas eu tenho de trazer, e escutarão minha voz e haverá um só rebanho, um só Pastor» (Jo 10,16), diz Jesus ao final do discurso do bom pastor. E o relato dos 153 peixes termina com a gozosa constatação: «E ainda que eram tantos, não se rompeu a rede» (Jo 21,11). Ah, Senhor amado! Agora a rede se quebrou, dizemos doloridos. Mas não, não devemos estar tristes! Alegremo-nos por tua promessa que não defrauda e façamos todo o possível para percorrer o caminho para a unidade que tu prometeste. Façamos memória dela na oração ao Senhor, como mendigos; sim, Senhor, lembra-te do que prometeste. Faz que sejamos um só pastor e um só rebanho! Não permitas que se rompa tua rede e ajuda-nos a ser servidores da unidade!

      Neste momento minha recordação volta ao 22 de outubro de 1978, quando o Papa João Paulo II iniciou seu ministério aqui na Praça de São Pedro. Ainda, e continuamente, ressoam em meus ouvidos suas palavras de então: «Não temais! Abri, mais ainda, abri de par em par as portas para Cristo!». O Papa falava aos fortes, aos poderosos do mundo, os quais tinham medo de que Cristo pudesse tirar-lhes algo de seu poder, se o tivessem deixado entrar e tivessem concedido a liberdade à fé. Sim, ele certamente lhes haveria tirado algo: o domínio da corrupção, do quebrantamento do direito e da arbitrariedade. Mas não lhes haveria tirado nada do que pertence à liberdade do homem, à sua dignidade, à edificação de uma sociedade justa. Também, o Papa falava a todos os homens, sobretudo aos jovens. Acaso não temos de algum modo medo - se deixarmos entrar Cristo totalmente dentro de nós, se nos abrirmos totalmente a ele -, medo de que ele possa tirar algo de nossa vida? Acaso não temos medo de renunciar a algo grande, único, que faz a vida mais bela? Não corremos o risco de encontrarmo-nos logo na angústia e vermo-nos privados da liberdade? E ainda o Papa queria dizer: não! Quem deixa Cristo entrar não perde nada, nada - absolutamente nada - do que faz a vida livre, bela e grande. Não! Só com esta amizade se abrem as portas da vida. Só com esta amizade se abrem realmente as grandes potencialidades da condição humana. Só com esta amizade experimentamos o que é belo e o que nos liberta. Assim, hoje, eu quero, com grande força e grande convicção, a partir da experiência de uma longa vida pessoal, dizer a todos vós, queridos jovens: Não tenhais medo de Cristo! Ele não tira nada, concede tudo. Quem se dá a ele, recebe cem por um. Sim, abri, abri de par em par as portas para Cristo, e encontrareis a verdadeira vida. Amém.

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Eis um trecho da catequese do Santo Padre Bento XVI, nesta quarta-feira, dia 27 de abril. Aqui, ele explica o nome que tomou como Papa: Bento:

           Neste primeiro encontro, quero antes de tudo deter-me no nome que escolhi ao converter-me em Bispo de Roma e pastor universal da Igreja. Quis chamar-me Bento XVI para unir-me idealmente com o venerado pontífice Bento XV, que guiou a Igreja em um período difícil por causa do primeiro conflito mundial. Foi autêntico profeta de paz e trabalhou com grande valentia para evitar o drama da guerra e depois para limitar suas nefastas conseqüências. Seguindo suas marcas, desejo pôr meu ministério ao serviço da reconciliação e harmonia entre os homens e os povos, com o profundo convencimento de que o grande bem da paz é sobretudo um dom de Deus, frágil e precioso, que temos de invocar, defender e construir todos os dias com a colaboração de todos.

          O nome Bento evoca, também, a extraordinária figura do grande «patriarca do monaquismo ocidental», São Bento de Nursia, patrono da Europa junto com os santos Cirilo e Metódio. A progressiva expansão da Ordem beneditina por ele fundada exerceu um influxo enorme na difusão do cristianismo em todo o continente. Por isso, São Bento é sumamente venerado na Alemanha e, em particular, na Baviera, minha terra de origem; constitui um ponto fundamental de referência para a unidade da Europa e uma forte recordação das irrenunciáveis raízes cristãs de sua cultura e de sua civilização.

           Deste pai do monaquismo ocidental conhecemos o conselho deixado aos monges em sua «Regra»: «não antepor nada ao amor de Cristo» (capítulo 4). Ao início de meu serviço como sucessor de Pedro, peço a São Bento que nos ajude a manter com firmeza Cristo no centro de nossa existência. Que em nossos pensamentos e em todas nossas atividades sempre esteja no primeiro lugar!

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"Farei surgir um sacerdote fiel,

que agirá segundo o meu coração e a minha vontade.

Eu lhe darei uma casa que permaneça para sempre

e ele caminhará na minha presença todos os dias". (1Sm 2,35)

 

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BIOGRAFIA
DE SUA SANTIDADE

BENTO XVI


 

Joseph Ratzinger nomeado Cardeal em 1977 e Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé em 1981, Decano do Colégio Cardinalício desde 2002 nasceu em Marktl am Inn, no território da Diocese de Passau (Alemanha), a 16 de Abril de 1927.

Seu pai era um comissário de polícia e provinha de uma família de agricultores da Baixa Baviera, cujas condições económicas eram bastante modestas. A mãe era filha de artesãos de Rimsting, no lago de Chiem, e antes de casar tinha trabalhado como cozinheira em vários hotéis.

Transcorreu a sua infância e a sua adolescência em Traunstein, uma pequena cidade perto da fronteira com a Áustria, a cerca de trinta quilómetros de Salisburgo. Recebeu neste contexto, que ele mesmo definiu "mozartiano", a sua formação cristã, humana e cultural.

O tempo da sua juventude não foi fácil. A fé e a educação da sua família preparou-o para a dura experiência dos problemas relacionados com o regime nazista: ele recordou ter visto o seu pároco açoitado pelos nazistas antes da celebração da Santa Missa e de ter conhecido o clima de grande hostilidade em relação à Igreja católica na Alemanha.

Mas precisamente nesta complexa situação, descobriu a beleza e a verdade da fé em Cristo e foi fundamental o papel da sua família que continuou sempre a viver um testemunho cristalino de bondade e de esperança radicada na pertença consciente à Igreja.

Quase no final da tragédia da Segunda Guerra Mundial também foi alistado nos serviços auxiliares anti-aéreos.

De 1946 a 1951 estudou filosofia e teologia na Escola superior de filosofia e teologia de Frisinga e na Universidade de Munique.

Em 29 de Junho de 1951 foi ordenado sacerdote.

Um ano mais tarde, Pe. Joseph Ratzinger iniciou a sua actividade didáctica na mesma Escola de Frisinga onde tinha sido estudante.

Em 1953 formou-se em teologia com uma dissertação sobre o tema: "Povo e Casa de Deus na Doutrina da Igreja de Santo Agostinho".

Em 1957 fez a livre docência com o conhecido professor de teologia fundamental de Munique, Gottlieb Söhngen, com um trabalho sobre: "A teologia da história de São Boaventura".

Depois de um cargo de dogmática e de teologia fundamental na Escola superior de Frisinga, prosseguiu a sua actividade de ensino em Bonn (1959-1969), em Monastério (1963-1966) e em Tubinga (1966-1969). A partir de 1969 foi professor de dogmática e de história dos dogmas na Universidade de Ratisbona, onde desempenhou também o cargo de Vice-Reitor da Universidade.
A sua intensa actividade científica levou-o a desempenhar importantes cargos no âmbito da Conferência Episcopal Alemã, na Comissão Teológica Internacional.

Entre as suas publicações, numerosas e qualificadas, teve particular eco a "Introdução ao cristianismo" (1968), uma colectânea de lições universitárias sobre a "profissão de fé apostólica"
Em 1973, foi publicado o volume: "Dogma e Revelação", que reúne os ensaios, as meditações e as homilias dedicadas à pastoral.

Teve grande ressonância a sua conferência pronunciada na Academia Católica da Baviera sobre o tema: "Por que é que eu ainda estou na Igreja?". Nesta ocasião declarou com a sua habitual clareza: "Só na Igreja é possível ser cristãos e não ao lado da Igreja".

A série numerosa de publicações continuou abundante e pontual ao longo dos anos, constituindo um ponto de referência para tantas pessoas e sobretudo para quantos estão comprometidos no estudo aprofundado da teologia. Basta pensar, por exemplo, no volume "Relatório sobre a fé" de 1985 e no volume "O sal da terra" de 1996. Deve ser recordado também o livro "Na escola da Verdade", impresso por ocasião do seu septuagésimo aniversário.

De grande valor, central na vida do Pastor Ratzinger, foi a experiência proveitosa da sua participação no Concílio Vaticano II, nas vestes de "perito", experiência que ele viveu também como confirmação da própria vocação por ele mesmo definida "teológica".

A 24 de Março de 1977 o Papa Paulo VI nomeou-o Arcebispo de Monastério e Frisinga.

Recebeu a ordenação episcopal no dia 28 de Maio do mesmo ano: foi o primeiro sacerdote diocesano que assumiu, depois de oitenta anos, o governo pastoral da grande Diocese da Baviera. Escolheu como mote episcopal: "Colaboradores da Verdade".

O Papa Montini criou-o e publicou-o Cardeal, do Título de Santa Maria Consoladora no Tiburtino, no Consistório de 27 de Junho de 1977.

Foi Relator na Quinta Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos (1980) sobre o tema da Família cristã no mundo contemporâneo. Naquela ocasião, na sua primeira Relação, desenvolveu uma análise ampla e pormenorizada sobre a situação da família no mundo, realçando a este propósito a crise da cultura tradicional diante da mentalidade tecnicista e meramente racional. Ao lado dos aspectos negativos, não deixou de evidenciar a redescoberta do verdadeiro personalismo cristão como fermento que fecunda a experiência conjugal de muitos casais, e exortou também a uma correcta avaliação do papel da mulher, que deve ser incluída entre as questões fundamentais na reflexão sobre o matrimónio e a família. Na segunda parte da Relação, dedicada ao desígnio de Deus sobre as famílias de hoje, recordou sobretudo que a masculinidade e a feminilidade são expressão da comunhão das pessoas como sinal original do dom de amor do Criador. Portanto realçava o amor do homem e da mulher não é privado, nem profano, nem meramente biológico, mas algo de sagrado que introduz num "estado", numa nova forma de vida, permanente e responsável. O matrimónio e a família recordou com veemência precedem de qualquer maneira o Estado e ele deve respeitar o direito próprio do matrimónio e da família e o seu íntimo mistério. Na terceira parte o Purpurado enfrentou os problemas pastorais ligados à família: da construção de uma comunidade de pessoas ao da geração da vida, da tarefa educativa à necessidade da preparação dos jovens para o matrimónio e para a vida familiar, das tarefas sociais às culturais e morais. A família, concluía, pode testemunhar ao mundo uma nova humanidade face ao domínio do materialismo, do hedonismo e da permissividade.

Foi Presidente Delegado da Sexta Assembleia (1983) que teve por tema a reconciliação e a penitência na missão da Igreja. Na sua intervenção nos trabalhos repetiu as normas pastorais promulgadas pela Congregação para a Doutrina da Fé que dizem respeito ao Sacramento da Reconciliação e aprofundou, em particular, as questões ligadas a dois interrogativos que surgiram várias vezes durante os trabalhos nas assembleias: o relativo à obrigação de confessar os pecados graves já absolvidos durante a absolvição geral e o concernente à confissão pessoal como elemento essencial do Sacramento.

A sua palavra ofereceu um contributo fundamental de reflexão e de confronto para o desenvolvimento de todos os Sínodos dos Bispos.

A 25 de Novembro de 1981 João Paulo II nomeou-o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Foi também Presidente da Pontifícia Comissão Bíblica e da Comissão Teológica Internacional. A 15 de Fevereiro de 1982 renunciou ao governo pastoral da Arquidiocese de Monastério e Frisinga.

O seu serviço como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé foi incansável e é quase impossível enumerar o seu trabalho no espaço de uma biografia. A sua obra como Colaborador de João Paulo II foi contínua e preciosa.

Entre os numerosos pontos firmes da sua obra, destacamos o papel de Presidente da Comissão para a Preparação do Catecismo da Igreja Católica.

A 5 de Abril de 1993 foi chamado a fazer parte da Ordem dos Bispos e tomou posse do Título da Igreja Suburbicária de Velletri-Segni.

No dia 6 de Novembro de 1998 foi nomeado Vice-Decano do Colégio Cardinalício e a 30 de Novembro de 2002 tornou-se Decano: tomou posse do Título da Igreja Suburbicária de Ostia.

Até à eleição para a Cátedra de Pedro foi Membro do Conselho da II Sessão da Secretaria de Estado; das Congregações para as Igrejas Orientais, do Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, para os Bispos, para a Evangelização, para a Educação Católica; do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos; da Pontifícia Comissão para a América Latina e da Pontifícia Comissão "Ecclesia Dei".

Por ocasião do seu cinquentenário de ordenação sacerdotal, João Paulo II enviou-lhe uma mensagem na qual, referindo-se à coincidência do seu jubileu com a solenidade litúrgica dos Santos Pedro e Paulo, com palavras de certa forma "proféticas" lhe recordava que "em Pedro ressalta o princípio de unidade, fundado na fé firme como a rocha do Príncipe dos Apóstolos; em Paulo a exigência intrínseca do Evangelho de chamar cada homem e cada povo à obediência da fé. Estas duas dimensões conjugam-se no testemunho comum de santidade, que cimentou a generosa dedicação dos dois apóstolos ao serviço da imaculada Esposa de Deus. Como não ver nestas duas componentes perguntava João Paulo II também as coordenadas fundamentais do caminho que a Providência dispôs para Si, Senhor Cardeal, chamando-o ao Sacerdócio?".

A ele foram confiadas as meditações da Via-Sacra de 2005 celebrada no Coliseu. Nesta inesquecível Sexta-Feira Santa, João Paulo II, estreitando a si o Crucifixo, num "ícone" comovedor de sofrimento, ouviu em silencioso recolhimento as palavras daquele que iria ser o seu Sucessor na Cátedra de Pedro. Significativamente, o leitmotiv da Via-Sacra foi a palavra pronunciada por Jesus no Domingo de Ramos, com a qual imediatamente depois da sua entrada em Jerusalém responde à pergunta de alguns gregos que o queriam ver: "Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, permanece só; ao contrário, se morrer, dá muito fruto" (Jo 12, 24). Com estas palavras o Senhor ofereceu uma interpretação "eucarística" e "sacramental" da sua Paixão. Mostra-nos foi a sua reflexão que a Via-Sacra não é simplesmente uma cadeia de sofrimento, de coisas nefastas, mas um mistério: é precisamente este processo no qual o grão de trigo ao cair na terra dá fruto. Por outras palavras, mostra-nos que a Paixão é uma oferenda de si mesmo e este sacrifício dá fruto e torna-se por conseguinte um dom para todos.

As suas reflexões que ressoaram na noite de Sexta-feira Santa no cenário sugestivo do Coliseu permaneceram impressas nas consciências dos homens. "Não podemos deixar de pensar foi o seu vibrante convite na meditação da nona estação em quanto sofre Cristo pela sua própria Igreja? Quantas vezes se abusa do santo sacramento da sua presença, em que vazio e maldade de coração muitas vezes ele entra! Quantas vezes celebramos apenas nós próprios sem nos apercebermos dele! Quantas vezes a sua palavra é deturpada e abusada! Quanta pouca fé há em tantas teorias, quantas palavras vazias! Quanta sujidade há na Igreja, e precisamente entre aqueles que, no sacerdócio, deveriam pertencer completamente a Ele! Quanta soberba, quanta autosuficiência!".

"Senhor é a oração que surge do seu coração muitas vezes a tua Igreja parece-nos uma barca na qual entra água por todos os lados. E também no teu campo de grão vemos mais erva daninha do que grão... A veste e o rosto tão sujos da tua Igreja desconcertam-nos. Mas somos nós quem os sujamos! Somos nós que te traímos todas as vezes, depois de todas as nossas grandes palavras, os nossos grandes gestos. Tem piedade da tua Igreja... Levantaste-te, ressuscitaste e podes levantar-nos a nós também. Salva e santifica a tua Igreja. Salva e santifica todos nós".

Só vinte e quatro horas depois da morte de João Paulo II, recebendo em Subiaco o "Prémio São Bento" promovido pela Fundação sublacense "Vida e Família", recordou com palavras hoje particularmente eloquentes: "Precisamos de homens como Bento de Nórcia, que num tempo de dissipação e de decadência, se imergiu na solidão mais extrema, conseguindo, depois de todas as purificações que teve que sofrer, alcançar a luz. Voltou e fundou Montecassino, a cidade sobre o monte que, com tantas ruínas, reuniu as forças com as quais se formou um mundo novo. Assim Bento, como Abraão, tornou-se pai de muitos povos".

Na sexta-feira, 8 de Abril, ele como Decano do Colégio Cardinalício presidiu à Santa Missa das exéquias de João Paulo II na Praça de São Pedro. A sua homilia, podemos dizê-lo, expressou a grande fidelidade ao Papa e à sua própria missão. ""Segue-me", diz o Senhor ressuscitado a Pedro, como sua última palavra a este discípulo, escolhido para apascentar as suas ovelhas. "Segue-me" esta palavra lapidária de Cristo pode ser considerada a chave para compreender a mensagem que vem da vida do nosso amado Papa João Paulo II, cujos despojos mortais depomos hoje na terra como semente de imortalidade o coração cheio de tristeza, mas também de jubilosa esperança e de profunda gratidão".

"Segue-me!", foi a palavra-chave, a ideia-guia da homilia que o Cardeal Ratzinger dirigiu ao mundo inteiro durante as exéquias do Santo Padre. Uma palavra que narra a missão de João Paulo II e ao mesmo tempo uma exortação que alcança todas as pessoas.

"Segue-me!". Juntamente com o mandamento de apascentar o seu rebanho, Cristo anunciou a Pedro o seu martírio são as palavras urgentes do Cardeal Ratzinger na sua vibrante e comovida homilia exequial. Com esta palavra que constitui ao mesmo tempo a conclusão e o resumo do diálogo sobre o amor e o mandato de pastor universal, o Senhor recorda outro diálogo, feito no contexto da última ceia. Aqui Jesus dissera: "Para onde eu vou, vós não podeis ir". Pedro pergunta: "Senhor, para onde vais?". Jesus responde: "Para onde eu vou agora, por enquanto tu não podes ir; seguir-me-ás mais tarde" (Jo 13, 33.36). Da ceia, Jesus vai para a cruz, vai para a ressurreição entra no mistério pascal; Pedro, ainda não o pode seguir. Agora depois da ressurreição chegou esse momento, esse "mais tarde". Apascentando o rebanho de Cristo, Pedro entra no mistério pascal, encaminha-se para a cruz e para a ressurreição. O Senhor diz isto com as seguintes palavras: "... quando eras mais jovem... ias para onde querias, mas quando fores velho, estenderás as tuas mãos, e outro te há-de cingir as vestes e levar-te para onde tu não queres" (Jo 21, 18). No primeiro período do seu Pontificado o Santo Padre, ainda jovem e cheio de forças, sob a guia de Cristo ia até aos confins do mundo. Mas depois entrou cada vez mais na comunhão dos sofrimentos de Cristo, compreendeu cada vez mais a verdade das palavras: "Outro cingir-te-á...". Foi precisamente nesta comunhão com o Senhor sofredor que incansavelmente e com renovada intensidade anunciou o Evangelho, o mistério do amor que vai até ao fim (cf. Jo 13, 1)".
"Ele afirmou o Cardeal Ratzinger interpretou para nós o mistério pascal como mistério da misericórdia divina... O Papa sofreu e amou em comunhão com Cristo e por isso a mensagem do seu sofrimento e do seu silêncio foi tão eloquente e fecunda". E concluiu da seguinte forma, com palavras que constituem uma "síntese" do Pontificado de João Paulo II mas também da sua própria missão de fiel, directo e estreito Colaborador do Papa desde 1981 como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé: "Divina Misericórdia: o Santo Padre encontrou o reflexo mais puro da misericórdia de Deus na Mãe de Deus. Ele, que perdera a sua mãe quando ainda era criança, amou tanto a Mãe divina. Sentiu as palavras do Senhor crucificado como se fossem ditas pessoalmente a ele: "Eis a tua mãe!". E fez como o discípulo predilecto: acolheu-a no íntimo do seu ser Totus tuus. E da mãe aprendeu a conformar-se com Cristo. Permanece inesquecível para todos nós como neste último domingo de Páscoa da sua vida, o Santo Padre, marcado pelo sofrimento, se apresentou mais uma vez à janela do Palácio Apostólico e pela última vez deu a bênção "Urbi et Orbi". Podemos ter a certeza de que o nosso amado Papa agora está à janela da casa do Pai, nos vê e nos abençoa. Sim, abençoa-nos Santo Padre. Nós confiamos a tua querida alma à Mãe de Deus, tua Mãe, que te guiou todos os dias e agora te guiará à glória eterna do Seu filho, Jesus Cristo nosso Senhor".

Na vigília da sua eleição para o Sólio Pontifício, na manhã de segunda-feira, 18 de Abril, na Basílica Vaticana, celebrou a Santa Missa "pro eligendo Romano Pontefice" com os Cardeais eleitores, poucas horas antes do início do Conclave que o teria eleito. "Nesta hora de grande responsabilidade exortou na homilia escutemos com particular atenção o que o Senhor nos diz". Referindo-se às leituras da Liturgia, recordou que "a misericórdia divina põe um limite ao mal. Jesus Cristo é a misericórdia divina em pessoa: encontrar Cristo significa encontrar a misericórdia de Deus. O mandamento de Cristo tornou-se mandamento nosso através da unção sacerdotal; somos chamados a promulgar não só com palavras mas com a vida, e com os sinais eficazes dos sacramentos, "o ano de misericórdia do Senhor"". "A misericórdia de Cristo realçou não é uma graça a bom preço, não supõe a banalização do mal. Cristo leva no seu corpo e na sua alma todo o peso do mal, toda a sua força destruidora. Ele queima e transforma o mal no sofrimento, no fogo do seu amor sofredor". "Quanto mais formos tocados pela misericórdia do Senhor acrescentou tanto mais entramos em solidariedade com o seu sofrimento, tornamo-nos disponíveis para completar na nossa carne "o que falta aos padecimentos de Cristo"".

"Não deveríamos permanecer crianças na fé, em estado de menoridade. Quantos ventos de doutrina conhecemos nestes últimos decénios, quantas correntes ideológicas, quantas modas de pensamento... A pequena barca do pensamento de muitos cristãos não raramente foi agitada por estas ondas, lançada de um extremo ao outro: do marxismo ao liberalismo, até à libertinagem; do colectivismo ao individualismo radical; do ateísmo a um vago misticismo religioso; do agnosticismo ao sincretismo e por aí adiante. Todos os dias surgem novas seitas e realiza-se quanto diz São Paulo sobre o engano dos homens, sobre a astúcia que tende a levar ao erro (cf. Ef 4, 14). Ter uma fé clara segundo o Credo da Igreja, é com frequência classificado de fundamentalismo.

Enquanto o relativismo, isto é, deixar-se levar "aqui e além por qualquer vento de doutrina", parece ser a única atitude ao nível dos tempos de hoje. Vai-se constituindo uma ditadura do relativismo que nada reconhece como definitivo e que deixa como última medida só o próprio eu e as suas vontades. Nós, ao contrário, temos outra medida: o Filho de Deus, o verdadeiro homem. É ele a medida do verdadeiro humanismo. "Adulta" não é uma fé que segue as ondas da moda e a última novidade; adulta e madura é uma fé profundamente radicada na amizade com Cristo. É esta amizade que nos abre a tudo o que é bom e nos dá o critério para discernir entre verdadeiro e falso, entre engano e verdade. Esta fé adulta devemos amadurecê-la, para esta fé devemos guiar o rebanho de Cristo". "O nosso ministério recordou ao concluir é um dom de Cristo aos homens, para construir o seu corpo, o novo mundo. Vivemos o nosso ministério assim, como dom de Cristo aos homens! Mas nesta hora, sobretudo, rezamos com insistência ao Senhor, para que depois do grande dom do Papa João Paulo II, nos conceda de novo um pastor segundo o seu coração, um pastor que nos guie ao conhecimento de Cristo, ao seu amor, à alegria verdadeira".

                                                                           +++++

Eis as primeiras palavras do Santo Padre Bento XVI:

Caros irmãos e irmãs,
Depois do grande Papa João Paulo II, os senhores cardeais elegeram a mim, um simples e humilde trabalhador na vinha do Senhor.
Consola-me o fato que o Senhor sabe trabalhar e agir também com instrumentos insuficientes,
e sobretudo confio-me às vossas orações.
Na alegria do Senhor Ressuscitado, confiantes no seu auxílio permanente, prossigamos.
O Senhor nos ajudará!
Maria, sua Mãe, está ao nosso lado. Obrigado.

                                                      

                                                                 +++++

Rezemos pelo Santo Padre:

Ó Deus, que escolhestes o vosso servo Bento,
sucessor do apóstolo Pedro,
como o pastor de todo o rebanho,
atendei as súplicas do vosso povo.
Concedei ao que faz as vezes do Cristo na terra
confirmar na fé seus irmãos
para que a Igreja se mantenha em comunhão com ele
no vínculo da unidade, do amor e da paz,
até que, em vós, pastor das almas,
cheguemos todos à verdade e à vida eterna.
Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
na unidade do Espírito Santo. Amém
.

                                                                      +++++

Eis o texto da homilia que o então Cardeal Joseph Ratzinger, futuro Bento XVI, pronunciou na Missa antes da entrada dos Cardeais no Conclave:

 

          Nesta hora de grande responsabilidade, escutemos com particular atenção ao que o Senhor disse com suas próprias palavras. Citarei apenas alguns trechos de três palavras que se aplicam diretamente a um momento como este.

           A primeira palavra oferece um retrato profético da figura do Messias retrato que recebe todo o seu significado a partir do momento em que Jesus lê o texto na sinagoga de Nazaré e diz: "Hoje foi realizada esta Escritura". No cerne do texto profético encontramos uma palavra que, ao menos à primeira vista, parece contraditória. O Messias, falando de seu trabalho, diz que lhe foi ordenado "promulgar o ano da misericórdia do Senhor, um dia de vingança para o nosso Deus".

           Escutemos, com alegria, o anúncio do ano de misericórdia: a misericórdia divina impõe limites ao mal foi o que nos disse o Santo Padre. Jesus Cristo é a misericórdia divina personificada: encontrar Cristo significa encontrar a misericórdia de Deus.

         O mandato de Cristo se torna nosso mandato através da unção sacerdotal; somos chamados a promulgar não apenas com palavras, mas na vida, e com os eficazes signos dos sacramentos -"o ano de misericórdia do Senhor".

          Mas o que queria dizer Isaías quando anunciou "o dia de vingança para o nosso Deus?" Jesus, em Nazaré, em seu sermão sobre o texto profético, não pronunciou essa palavra concluiu anunciando o ano de misericórdia. Talvez tenha sido esse o motivo do escândalo que se desenrolou depois de sua prédica? Não o sabemos. De qualquer forma, o Senhor ofereceu seu comentário autêntico quanto a essas palavras quando morreu na cruz. "Ele carregou nossos pecados em seu corpo no madeiro da cruz", disse São Pedro. E São Paulo, na epístola aos Gálatas, escreveu que "Cristo correu o risco de maldição, sob os termos da lei, tornando-se ele mesmo uma maldição, em nosso lugar, como está escrito: maldito o que pende da cruz, porque em Jesus Cristo a benção de Abraão se transferiu aos homens, e recebemos a promessa do Espírito mediante a fé".

            A misericórdia de Cristo não é uma graça fácil de obter, não supõe uma banalização do mal. Cristo porta em seu corpo e em sua alma todo o peso do mal, toda sua força destrutiva. Ele molda e transforma o mal em sofrimento, torna-o foco de seu amor sofredor. O dia da vingança e o ano da misericórdia coincidem no mistério pascal, no Cristo morto e ressuscitado. É essa a vingança de Deus: Ele mesmo, na pessoa de Seu Filho, sofre por nós.

          Quanto mais formos tocados pela misericórdia do Senhor, tanto mais entramos em solidariedade com seu sofrimento tornamo-nos disponíveis para completar em nossa carne "aquilo que falta ao sofrimento de Cristo".

            Passemos à segunda palavra, da Epístola aos Efésios. Nela, os temas substanciais são três. Em primeiro lugar, os ministérios e carisma da Igreja, como dons do Senhor ressuscitado e ascendido ao céu; segundo, o amadurecimento da fé e do conhecimento do Filho de Deus, como condição e conteúdo da unidade do corpo de Cristo; e, por fim, a participação comum no crescimento do corpo de Cristo, ou seja, a transformação do mundo em comunhão com o Senhor.

           Permitam-me enfatizar apenas dois pontos: o primeiro é o caminho em direção à "maturidade de Cristo"; assim dispõe, de forma um pouco simplificada, o texto italiano. Mais precisamente deveríamos, de acordo com o texto grego, falar da "medida da plenitude de Cristo", a qual somos convocados a emular para que nos tornemos realmente adultos em nossa fé. Não devemos permanecer crianças na fé, em estado de menoridade. E em que consiste sermos crianças na fé? Responde São Paulo: "Significa sermos arrastados para lá e para cá por qualquer vento doutrinário". Uma descrição muito atual!

           Quantos ventos doutrinários experimentamos nesses últimos decênios, quantas correntes ideológicas, quantos modos de pensamento... O pequeno barco do pensamento de muitos cristãos se viu freqüentemente agitado por essas ondas arremessado de um extremo ao outro: do marxismo ao liberalismo, e até mesmo à libertinagem; do coletivismo ao individualismo radical; do agnosticismo ao sincretismo, e muito mais. A cada dia nascem novas seitas, e as palavras de São Paulo sobre a possibilidade de que a astúcia, nos homens, seja causa de erros, são confirmadas.

             Ter uma fé clara, de acordo com o Credo da Igreja, muitas vezes foi rotulado como fundamentalista. Enquanto o relativismo, que se "deixa arrastar para cá e para lá pelos ventos doutrinários", parece ser o único sistema aplicável aos tempos modernos. Vai-se constituindo uma ditadura do relativismo, que não reconhece nada como definitivo e toma como medida última das coisas o eu e as vontades do eu.

             Nós, em lugar disso, tomamos como norma uma outra medida: o Filho de Deus, o verdadeiro homem. É ele a medida do verdadeiro humanismo. "Adulta" não é uma fé que acompanha a moda e as últimas novidades; adulta e madura é uma fé profundamente enraizada na amizade com Cristo. É esta a amizade que se abre a tudo aquilo que é bom e nos oferece critérios para discernir entre verdadeiro e falso, engano e verdade.

              Essa é a fé adulta que devemos amadurecer, a essa fé devemos conduzir a Igreja de Cristo. E é essa fé e só a fé - que cria unidade e se realiza na caridade. São Paulo pode ser citado, quanto a isso em contraste com as contínuas peripécias daqueles que são como crianças arrastadas pelas ondas, e oferece belas palavras: "Encontrai a verdade na caridade", uma fórmula fundamental da existência cristã. Em Cristo, coincidem verdade e caridade. Na medida em que nos aproximamos de Cristo, também em nossa vida a verdade e a caridade fincam raízes. Caridade sem verdade parece cega; verdade sem caridade é como um "címbalo que ecoa".

            Consideremos agora os Evangelhos, de cuja riqueza quero extrair apenas duas pequenas observações. O Senhor pronuncia essas palavras maravilhosas: "Não os chamo mais servos; chamo-os amigos".

             Tantas vezes e com razão sentimos ser apenas servos inúteis. Apesar disso, o Senhor nos chama de amigos, nos torna seus amigos, nos doa sua amizade. O Senhor define a amizade de maneira dupla: não existem segredos entre amigos. Cristo nos dizia tudo aquilo que ouvia do Pai; nos doava sua plena confiança e, com ela, igualmente, o conhecimento. Revelava-nos suas vontades, seu coração. Exibia sua ternura por nós, seu amor apaixonado, que ia ao extremo de sofrimento que lhe foi reservado na cruz. Confiava-se totalmente a nós, nos dava o poder de falarmos com seu eu: "Este é meu corpo..."; "eu te absolvo".

            Confiou a nós seu corpo, a Igreja. Confiou às nossas débeis mentes, às nossas débeis mãos, a sua verdade: o mistério do Deus Pai, Filho e Espírito Santo; o mistério de Deus que "amou o mundo a ponto de dar-lhe seu Filho unigênito". Fez de nós seus amigos e como respondemos?

            O segundo elemento com o qual Jesus define a amizade é a comunhão de vontades. "Idem velle idem nolle" era a definição de amizade até mesmo entre os romanos. "Sois meus amigos; fazei aquilo que vos ordeno". A amizade com Cristo coincide com a terceira linha do Pai Nosso: "Seja feita a Vossa vontade, assim na terra como no céu".

            No momento do Calvário, Jesus transformou nossa vontade humana rebelde em vontade conforme e unida à vontade divina. Sofreu todo o drama de nossa autonomia e entregando nossa vontade às mãos de Deus, nos deu a verdadeira liberdade. "Não como eu quero, mas como Vós quereis". Nessa comunhão de vontades se realiza nossa redenção; ser amigo de Jesus quer dizer tornar-se amigo de Deus. Quanto mais amamos Jesus, quanto mais o conhecemos, tanto mais cresce a nossa verdadeira liberdade, cresce a alegria da redenção. Graças a Jesus, por sua amizade!

            O outro elemento do Evangelho que eu gostaria de destacar é o discurso de Jesus sobre crescer e frutificar "o homem foi criado para crescer e frutificar, e para que seus frutos permaneçam". É aqui que se constata o dinamismo da existência do cristão, do apóstolo: foram criados para crescer. Devemos viver animados por uma santa inquietação a inquietação de divulgar a todos o dom da fé, da amizade com Cristo. Na verdade, o amor e a amizade de Deus nos foram dados para que cheguem aos outros. Recebemos a fé para dá-la aos outros somos sacerdotes para servir aos outros. E devemos gerar um fruto que permaneça. Todos os homens desejam deixar um traço que permaneça. Mas o que permanece? Não o dinheiro; as edificações tampouco permanecem; depois de algum tempo, mais ou menos longo, todas essas coisas se esvaem.
A única coisa que permanece eternamente é a alma humana, o homem criado por Deus para a eternidade. O fruto que permanece é aquele que semeamos na alma humana o amor, o conhecimento; o gesto capaz de tocar o coração; a palavra que abre a alma às alegrias do Senhor. Devemos sair e pregar a palavra do Senhor, porque isso ajuda a gerar frutos, frutos permanentes. Só dessa maneira a terra se tornará de vale de lágrimas em jardim de Deus.

            Retornemos enfim, ainda uma vez, à Epístola aos Efésios. Diz a epístola, nas palavras do salmo 68, que Cristo, ao subir aos céus, "distribuiu dons aos homens".

           Os vencedores distribuem dons. E esses dons são apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e doutores. O nosso ministério é um dom de Cristo ao homem, para construir seu corpo o mundo novo.

            Que vivamos assim o nosso ministério como dom de Cristo ao homem. Mas nessa hora, sobretudo, peçamos com insistência ao Senhor que, depois dos grandes dons do Papa João Paulo II, nos dê novamente um pastor fiel ao seu coração, um pastor capaz de guiar o rebanho na direção do conhecimento de Cristo, de seu amor, da verdadeira alegria. Amém.

                                                         +++++

Eis a homilia do Santo Padre Bento XVI, feita para os Cardeais, em sua primeira Missa como Sucessor de Pedro:

Caros irmãos Cardeais,
Caríssimos Irmãos e Irmãs em Cristo,
Todos vós, homens e mulheres de boa vontade!


      No meu espírito convivem nestas horas dois sentimentos contraditórios. De um lado, um sentido de inadequação e de humana perturbação pela responsabilidade que ontem me foi confiada, enquanto Sucessor do apóstolo Pedro nesta Sede de Roma, face a face com a Igreja universal. Por outro lado, sinto em mim uma viva gratidão a Deus que - como nos faz cantar a liturgia - não abandona o seu rebanho, mas o conduz através dos tempos, sob a orientação daqueles que Ele mesmo elegeu como vigários do seu Filho e constitui pastores.

      Caríssimos, este íntimo reconhecimento por um dom da divina misericórdia prevalece, acima de tudo, no meu coração. E considero este fato como uma graça especial oferecida pelo meu venerado predecessor, João Paulo II. Parece-me sentir a sua mão forte a apertar a minha; parece-me ver os seus olhos sorridentes e ouvir as suas palavras, dirigidas a mim em particular, neste momento: "Não tenhas medo!"

      A morte do Santo Padre João Paulo II e os dias que se seguiram foram para a Igreja e para o mundo inteiro um tempo extraordinário de graça. A grande dor pelo seu falecimento e o sentimento de perda que deixou em todos foram atenuados pela ação de Cristo ressuscitado, que se manifestou durante tantos dias na onda de fé, amor e solidariedade espiritual, culminada nas suas exéquias solenes.

      Podemos dizer que o funeral de João Paulo II foi uma experiência verdadeiramente extraordinária, na qual se percebeu, de algum modo, o poder de Deus que, através da sua Igreja, quer fazer de todos os povos uma grande família pela força unificante da Verdade e do Amor (cf. Lumen Gentium, 1). Na hora da morte, conformado ao seu Mestre e Senhor, João Paulo II coroou o seu longo e fecundo Pontificado, confirmando na fé o povo cristão, congregando-o em volta de si e fazendo sentir mais unida toda a família humana. Como não sentir-nos sustentados por este testemunho? Como não perceber o encorajamento que vem deste acontecimento da graça?


      2. Surpreendendo todas as minhas previsões, a divina Providência, através do voto dos meus venerados Padres Cardeais, chamou-me a suceder a este grande Papa. Penso, nesta hora, naquilo que aconteceu na região de Cesaréia de Filipe, há dois mil anos. Parece-me ouvir as palavras de Pedro: "Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo", e a solene afirmação do Senhor: "Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja... Dar-te-ei as chaves do Reino dos céus" (Mt 16, 15-19).

      Tu és o Cristo! Tu és Pedro! É como se revivesse a própria cena evangélica; eu, Sucessor de Pedro, repito com estremecimento as palavras estremecidas do pescador da Galiléia e ouço de novo, com íntima emoção, a promessa reconfortante do divino Mestre. Se é enorme o peso da responsabilidade que se coloca sobre os meus ombros, é certamente desmesurada força divina com a qual posso contar: "Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja" (Mt 16, 18).

      Escolhendo-me como Bispo de Roma, o Senhor quis fazer de mim seu vigário, "pedra" sobre a qual todos se podem apoiar com segurança. Peço-lhe que supra a pobreza das minhas forças, para que eu seja Pastor fiel e corajoso do seu rebanho, sempre dócil às inspirações do seu Espírito.

      Preparo-me para empreender este peculiar ministério, o ministério "petrino" ao serviço da Igreja universal, com humilde abandono nas mãos da Providência de Deus. Em primeiro lugar, é a Cristo que renovo a minha total e confiante adesão: "In Te, Domine, speravi; non confundar in aeternum!".

      A vós, Senhores Cardeais, com espírito agradecido pela confiança demonstrada, peço que me sustentem com a oração e com a constante, ativa e sábia colaboração. Peço também a todos os Irmãos no Episcopado que estejam a meu lado com a oração e com o conselho, para que possa ser verdadeiramente o Servus servorum Dei. Como Pedro e os outros Apóstolos constituíram por desejo do Senhor um único Colégio apostólico, do mesmo modo o Sucessor de Pedro e os Bispos, sucessores dos Apóstolos devem estar estreitamente unidos entre si - algo que o Concílio frisou com força (cf. Lumen Gentium, 22).

      Esta comunhão colegial, apesar da diversidade de papéis e funções do Romano Pontífice e dos Bispos, está ao serviço da Igreja e da unidade na fé, da qual depende em grande medida a eficácia da ação evangelizadora no mundo contemporâneo. Neste caminho, portanto, sobre o qual avançaram os meus venerados Predecessores, também eu me proponho prosseguir, unicamente preocupado em proclamar ao mundo inteiro a presença viva de Cristo.

      3. Tenho diante de mim, de forma particular, o testemunho do Papa João Paulo II. Ele deixa uma Igreja mais corajosa, mais livre, mais jovem. Uma Igreja que, segundo o seu ensinamento e exemplo, olha com serenidade para o passado e não tem medo do futuro. Com o grande Jubileu ela entrou no novo milênio trazendo nas mãos o Evangelho, aplicado no mundo atual através da releitura autorizada do II Concílio do Vaticano. Justamente o Papa João Paulo II indiciou o Concílio como "bússola" pela qual orientar-se no vasto oceano do terceiro milênio (cf. Novo Millennio Ineunte, 57-58).

      Também no seu testamento espiritual, ele apontava: "Estou convencido de que ainda por muito tempo será dado às novas gerações descobrir as riquezas que este Concílio do século XX nos deixou" (17.III.2000).

      Também eu, ao colocar-me ao serviço que é próprio do Sucessor de Pedro, quero afirmar com força a vontade decidida de prosseguir no compromisso da atuação do Concílio do Vaticano, sobre o trilho dos meus Predecessores e em fiel continuidade com a bimilenária tradição da Igreja.

      Terá lugar neste ano o 40º aniversário da conclusão das sessões Conciliares (8 de Dezembro de 1965). Com o passar dos anos, os Documentos conciliares não perderam a sua atualidade; os seus ensinamentos revelam-se particularmente pertinentes em relação às novas instâncias da Igreja e da presente sociedade globalizada.

       4. De maneira muito significativa, o meu Pontificado inicia-se quando a Igreja está a viver o Ano especial dedicado à Eucaristia. Como deixar de acolher esta coincidência providencial, como um elemento que deve caracterizar o ministério ao qual fui chamado?

       A Eucaristia, coração da vida cristã e fonte da missão evangelizadora da Igreja, não pode deixar de constituir o centro permanente e a fonte do serviço petrino que me foi confiado. A Eucaristia torna constantemente presente o Cristo ressuscitado, que continua a dar-se a nós, chamando-nos a participar na mesa do seu Corpo e do seu Sangue. Da plena comunhão com Ele nascem todos os outros elementos da vida da Igreja, em primeiro lugar a comunhão entre todos os fiéis, o compromisso de anunciar e de testemunhar o Evangelho, o ardor da caridade para com todos, especialmente os mais pobres e pequenos.

      Neste ano, portanto, deverá ser celebrada com particular relevo a Solenidade do Corpus Domini. A Eucaristia estará, portanto, no centro da Jornada Mundial da Juventude, de Agosto, em Colônia e em Outubro da Assembléia Ordinária do Sínodo dos Bispos, que decorrerá sobre o tema "A Eucaristia, fonte e cume da vida e da missão da Igreja".

       Peço a todos que intensifiquem nos próximos meses o amor e a devoção a Jesus Eucaristia e que exprimam de modo corajoso e claro a fé na presença real do Senhor, sobretudo mediante a solenidade e a correção das celebrações.

      Peço-o de modo especial aos Sacerdotes, nos quais penso neste momento com grande afeto. O Sacerdócio ministerial nasceu no Cenáculo, juntamente com a Eucaristia, como tantas vezes sublinhou o meu venerado Predecessor João Paulo II. "A existência sacerdotal deve ter a título especial uma «forma eucarística»", escreveu na sua última Carta para a Quinta-feira Santa (nº 1).

      Para este fim contribui, acima de tudo, a devota celebração quotidiana da santa Missa, centro da vida e da missão de cada Sacerdote.

      5. Alimentados e sustentados pela Eucaristia, os católicos não podem deixar de sentir-se estimulados a tender para aquela plena unidade que Cristo desejou ardentemente no Cenáculo.

      Deste supremo anelo do Mestre divino, o Sucessor de Pedro sabe que deve assumir esta tarefa de um modo muito particular. A ele foi, de fato, confiada a missão de confirmar os irmãos (cf. Lc 22,32). Plenamente consciente, portanto, no início do seu ministério na Igreja de Roma que Pedro regou com o seu sangue, o atual seu Sucessor assume como compromisso primário o de trabalhar sem poupar energias na reconstituição da plena e visível unidade de todos os seguidores de Cristo.

      Esta é a sua ambição, este é o seu dever arrebatador. Ele está consciente de que para isto não bastam as manifestações de bons sentimentos. São precisos gestos concretos que entrem nas almas e movam as consciências, solicitando a cada um a conversão interior que é o pressuposto de qualquer progresso no caminho do ecumenismo. O diálogo teológico é necessário, o aprofundamento das motivações históricas de escolhas acontecidas no passado é, contudo, indispensável.

      Aquilo que nos urge de maior maneira, no entanto, é aquela "purificação da memória", tantas vezes evocadas por João Paulo II, a única que poderá dispor os espíritos a acolher a plena verdade de Cristo. É diante dele, supremo Juiz de cada ser vivo, que cada um de nós deve colocar-se, na consciência de ter um dia de dar-lhe contas de tudo aquilo que fizeram ou não em vista do grande bem da plena e visível unidade de todos os seus discípulos.

      O atual Sucessor de Pedro deixa-se interpelar na primeira pessoas por esta questão e está disposto a fazer tudo o que estiver em seu poder para promover a causa fundamental do ecumenismo. Sobre os passos dos seus Predecessores, ele está plenamente determinado a cultivar qualquer iniciativa que possa aparecer para promover os contactos e o encontro com representantes das diversas Igrejas e Comunidades eclesiais. A eles, também, envia nesta ocasião a mais cordial saudação em Cristo, único Senhor de todos.

      6. Volto com a memória, neste momento, à inesquecível experiência vivida por todos nós por ocasião da morte e das exéquias de João Paulo II. Em volta dos seus restos mortais, depositados na terra nua, recolheram-se Chefes das Nações, pessoas de todos os estratos sociais e especialmente os jovens, num inesquecível abraço de afeto e admiração. O mundo inteiro olhou para ele com confiança. Pareceu a muitos que aquela intensa participação, amplificada até aos confins do planeta pelos meios de comunicação social, fosse como um coral pedido de ajuda dirigido ao Papa por parte da humanidade hodierna, perturbada por incertezas e temores, que se interroga sobre o seu futuro.

      A Igreja de hoje deve reavivar em si mesma a consciência da missão de propor ao mundo, novamente, a voz daquele que disse: "Eu sou a luz do mundo, quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida” (Jo 8,12).

      Ao assumir o seu ministério, o novo Papa sabe que a sua missão é o de fazer resplandecer diante dos homens e mulheres de hoje a luz de Cristo: não a sua própria luz, mas a de Cristo.

      Com esta consciência, dirijo-me a todos, mesmo aos que seguem outras religiões ou que simplesmente procuram uma resposta às perguntas fundamentais da existência e ainda não a encontrou. A todos me dirijo com simplicidade e afeto, para assegurar que a Igreja quer continuar a tecer com eles um diálogo aberto e sincero, à procura do verdadeiro bem do homem e da sociedade.

      Invoco de Deus a unidade e paz para a família humana e declaro a disponibilidade de todos os católicos em cooperar para um autêntico desenvolvimento social, que respeite a dignidade de cada ser humano.

      Não pouparemos esforços e dedicação para prosseguir o promissor diálogo começado pelos meus venerados Predecessores com as diversas civilizações, para que da compreensão recíproca nasçam as condições de um futuro melhor para todos.

      Penso em particular nos jovens. A eles, interlocutores privilegiados do Papa João Paulo II, vai o meu abraço afetuoso à espera, de Deus quiser, de encontrá-los em Colônia por ocasião da próxima Jornada Mundial da Juventude. Convosco, caros jovens, futuro e esperança da Igreja e da humanidade, continuarei a dialogar, escutando as vossas expectativas no intento de ajudar-vos a encontrar, numa profundidade cada vez maior, o Cristo vivo, o eternamente jovem.

      7. Mane nobiscum, Domine! Fica conosco Senhor!
      Esta invocação é o tema dominante da Carta Apostólica de João Paulo II para o Ano da Eucaristia e é a oração que brota espontaneamente do meu coração, enquanto me preparo para iniciar o ministério a que Cristo me chamou.

     Como Pedro, também eu renovo-lhe a promessa incondicional de fidelidade. Só a Ele pretendo servir, dedicando-me totalmente ao serviço da sua Igreja.

       Para sustentar esta promessa, invoco a materna intercessão de Maria Santíssima, em cujas mãos ponho o presente e o futuro da minha pessoa e da Igreja. Intervenham com a sua intercessão também os Santos Apóstolos Pedro e Paulo, e todos os Santos.

      Com estes sentimentos, ofereço-vos, venerados Irmãos Cardeais, àqueles que participam neste rito e a quantos nos acompanham pela televisão e a rádio uma especial, afetuosa bênção.

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