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O Papa Justo (David Dalin) PDF Imprimir E-mail
Variedade
Sáb, 23 de Maio de 2009 03:24


David G. Dalin[1]

Caro(a)s Internautas, eis mais um texto sobre Pio XII e os judeus. Este, é de um respeitado rabino. Até quando caluniarão Pio XII e a Igreja católica? Boa leitura!

 

Já antes da morte de Pio XII, em 1958, ele era acusado, na Europa, de ter sido favorável ao nazismo, propaganda comum do comunismo contra o ocidente.

A acusação permaneceu esquecida durante alguns anos sob a onda de homenagens que se seguiu a morte do Papa, procedentes tanto do âmbito judaico como dos gentios, para reaparecer novamente, em 1963, com a publicação de o II Vigário, uma peça teatral de um escritor alemão de esquerda (que pertenceu a Hitler Jugend), chamado Rolf Hochhuth.

O II vigário era uma obra fantasiosa e polêmica, que sustentava que a preocupação de Pio XII pelas finanças do Vaticano lhe havia deixado indiferente diante do extermínio da população judaica da Europa. A obra de Hochhuth despertou um notável interesse da opinião pública, desencadeando uma controvérsia que se prolongou ao longo dos anos 60. Agora, passadas três décadas, essa controvérsia reaparece, repentinamente, por razões que não estão claras.

Porém a expressão “reaparecer” não descreve suficientemente a atual onda de polêmicas. Nos últimos dezoito meses, veio à luz nove livros que falam de Pio XII: Hitler’s Pope de John Cornwell, Pius XII and the Second World War de Pierre Blet , Papal Sin de Garry Wills, Pope Pius XII de Margherita Marchione, Hitler, The War and the Pope de Ronald J. Rychlak, The Catholic Church and the Holocaust, 1930-1965, de Michael Phayer, Under His Very Windows de Susan Zuccotti, The Deformation of Pius XII de Ralphy McInerny e, recentemente, Constantine’s Sword de James Carroll.Visto que quatro destes volumes – os de Blet, Marchione, Rychlak y McInerny – se colocam em defesa do Papa e dois - os de Wills y Carroll- imputam a Pio XII somente uma parte de mais um amplo ataque ao catolicismo, o quadro pode parecer equilibrado. Além do mais, lendo detidamente os nove livros, pode-se concluir que as argumentações de quem defende Pio XII são as mais convincentes. E, no entanto, os livros que difamam o Papa são os que tem majoritariamente chamado a atenção. 

Einstein, Golda Meir, Herzog 

Curiosamente todos os que se colocam na posição de difamadores (desde os ex-seminaristas John Cornwell e Garry Wills até o ex-padre James Carrol) são ex-católicos ou católicos heterodoxos. Com os líderes judeus da geração precedente à campanha contra Pio XII, surpreendentemente, ocorreu o contrário. Durante o pós-guerra, muitos judeus famosos - Albert Einstein, Golda Meir, Moshe Sharett, Rabí Isaac Herzog e muitos outros – expressaram publicamente sua gratidão a Pio XII. Em seu livro de 1967, Three Popes and the jews, o diplomata Pinchas Lapide (que prestou serviço como cônsul de Israel em Milão e entrevistou os italianos sobreviventes do holocausto) declarou que Pio XII “contribuiu substancialmente na salvação de 700.000 judeus, e, talvez, na de outros 860.000 da morte certa nas mãos dos nazistas.”

A verdade é que o livro de Lapide continua sendo a obra mais séria escrita por um judeu sobre este assunto e, nos trinta e quatro anos que transcorreu desde sua publicação, pode-se aceder a muitos materiais, tanto dos arquivos do Vaticano como de outras fontes. Tem-se recorrido a muitos testemunhos diretos e a um número impressionante de entrevistas com sobreviventes do Holocausto, capelães militares e civis católicos. Em vista dos recentes ataques, chegou a hora de sair novamente em defesa de Pio XII.

Em janeiro de 1940, por exemplo, o Papa deu instruções à rádio Vaticana para que revelasse a “espantosa crueldade da tirania selvagem” que os nazistas estavam infligindo aos judeus e aos católicos polacos. Ao receber a notícia da transmissão, uma semana mais tarde, o defensor público dos judeus de Boston elogiou-a pelo que era: “Uma denúncia explícita das atrocidades perpetradas pelos alemães na Polônia ocupada pelos nazistas, declarando-as abertamente como uma ofensa moral de a toda humanidade”. O New York Times escreveu em seu editorial: “Agora o Vaticano falou, com uma autoridade indiscutível, e confirmou os piores presságios de terror que surgem da escuridão da Polônia”. Na Inglaterra, o Manchester Guardian elogiou o Vaticano como “o mais energético defensor da Polônia torturada.” 

“Espiritualmente semitas” 

Qualquer leitura honesta e minuciosa dos fatos, demonstra que Pio XII nunca deixou de expressar sua crítica ao nazismo. Basta considerarmos alguns pontos destacados em sua oposição antes da guerra. Dos quarenta e quatro discursos pronunciados por Pacelli na Alemanha como núncio apostólico entre 1917 e 1929, quarenta denunciavam algum aspecto da pujante ideologia nazista.

Em março de 1935, Pacelli escreveu uma carta aberta ao bispo de Colônia definindo os nazistas como “falsos profetas com o orgulho de lúcifer”. Nesse mesmo ano, pronunciou-se contra as ideologias “possuídas pela superstição da raça e do sangue” diante de uma multidão de peregrinos em Lourdes. Dois anos mais tarde, em Notre Dame, Paris, chamou a Alemanha de “essa nobre e poderosa nação, que será conduzida fora de seu caminho por maus pastores, abraçando uma ideologia racista”.

Em particular, Pacelli dizia a seus amigos que os nazistas eram “diabólicos”. À sra. Pascalina, que foi sua secretária durante muitos anos, disse-lhe que Hitler estava “totalmente obcecado; nada representava obstáculo para ele, era um destruidor capaz de caminhar sobre cadáveres”. Em 1935, durante uma entrevista com o heróico antinazista Dietrich Von Hildebrand, Pio XII declarou: “Não existe possibilidade de conciliação entre o Cristianismo e o racismo nazista porque ‘são como fogo e água’”.

No período no qual Pacelli foi conselheiro particular de seu predecessor, Pio XI, o pontífice fez a famosa declaração de 1938 diante de um grupo de peregrinos belgas, na qual afirmou que “o anti-semitismo é inadmissível; espiritualmente nós somos todos semitas”. E o mesmo Pacelli escreveu o rascunho da encíclica de Pio XI, Mit brennender Sorge, uma censura a Alemanha que se encontra entre as mais ásperas pronunciadas pela Santa Sé. Como conseqüência, nos anos 20, Pacelli foi extensamente difamado pela imprensa nazista como o cardeal de Pio XI “amigo dos judeus”, por causa das mais de cinqüenta cartas de protesto que enviou aos alemães como secretário do Estado do Vaticano. A estes se podem acrescentar alguns episódios que se sobressaem na ação de Pio XII durante a guerra. 

O New York Times 

Sua primeira encíclica Summi Pontificatus, publicada apressadamente em 1939 para impetrar a paz, era em boa parte uma declaração de que a tarefa própria do papado era, mais do que preferir uma ou outra parte, servir de mediador diante da beligerância de ambas. Porém, citava com tenacidade São Paulo “Já não há judeus nem gregos”, utilizando significativamente a palavra “judeus” no contexto de repúdio à ideologia nazista. O NewYork Times recebeu a encíclica com um artigo em primeira página em 28 de outubro de 1939: “O Papa condena os ditadores, os violadores dos tratados e o racismo.” Forças aéreas aliadas lançaram milhares de cópias do periódico sobre a Alemanha, na tentativa de avivar os sentimentos antinazistas.

Ente 1939 e 1940, Pio XII fez-se intermediário secreto entre os membros de uma conjura alemã antihitleriana e os ingleses. E correu muitos riscos, ao advertir os aliados da iminente invasão alemã da Holanda, Bélgica e França.

Quando em 1942 os bispos franceses publicaram várias cartas pastorais contra as deportações, Pio XII enviou a seu núncio a protestar diante do governo de Vichy contra “as detenções desumanas e as deportações dos judeus da França ocupada, da Silesia e de algumas partes da Rússia”. A Rádio Vaticana comentou durante seis dias seguidos as cartas dos bispos, nos anos em que na Alemanha e na Polônia escutar a Rádio Vaticana era um crime que alguns pagaram com a pena capital. “Parece que o Papa intercede pelos judeus inscritos nas listas de deportação da França”, era o título do New York Times de 06 de agosto de 1942. “Vichy captura os judeus, ignorando o apelo do Papa Pio”, ressaltava El Times três semanas mais tarde.

No verão de 1944, após a liberação de Roma, mas antes do fim da guerra, Pio XII disse a um grupo de judeus romanos que lhe foram agradecer sua proteção: “Durante séculos os judeus foram tratados injustamente e depreciados. Já é hora de tratar-los com justiça e humanidade. Deus o quer e a Igreja também. São Paulo disse que os judeus são nossos irmãos. No entanto, deveríamos acolhê-los também como amigos”.

Já que estes e  mais outras centenas de exemplos são desacreditados um por um nos livros que recentemente atacam a figura de Pio XII, o leitor pode perder de vista seu peso específico, seu caráter geral, que não deixa resquícios de dúvida sobre a posição do Papa, sobretudo em relação aos nazistas. No editorial do dia seguinte ao Natal de 1941, o New York Times declarava: “A voz de Pio XII é uma voz solitária no silêncio e na escuridão que envolve a Europa neste Natal... Pedindo uma ‘nova ordem autêntica’, baseada na liberdade, justiça e amor”, o Papa se posicionou abertamente contra o hitlerismo”.

Na valorização das ações que Pio XII pôde levar ao término, muitos (entre os quais me encontro) tinham desejado vê-lo pronunciar excomunhões explícitas. Os nazistas, de tradição católica, já haviam incorrido automaticamente na excomunhão com todos os seus atos, desde a quase nula participação na missa à inexistente confissão de homicídios e o repúdio público ao Cristianismo. E, como se deduz claramente de seus escritos e de suas conversações, Hitler tinha deixado de se considerar católico – mais ainda se considerava um anticatólico – muito tempo antes de chegar ao poder. 

“Suicídio voluntário” 

Os sobreviventes do Holocausto, como Marcus Melchior, rabino chefe da Dinamarca, ressaltavam que “se o Papa houvesse tomado posição abertamente, provavelmente Hitler teria exterminado mais de seis milhões de judeus e, talvez, dez vezes dez milhões de católicos, se houvesse tido possibilidade”. Robert M. W. Kempner, referindo-se a sua experiência durante o processo de Nuremberg, afirmou em uma carta a redação depois de que o Commentary publicara um resumo de Guenter Lewy em 1964: “Qualquer movimento de propaganda da Igreja católica contra o Reich hitleriano não somente significaria um ‘suicídio voluntário’, mas teria acelerado a execução capital de um maior número de judeus e sacerdotes”.

Não se trata de uma questão puramente especulativa. Uma carta pastoral dos bispos holandeses que condenava “o impiedoso e injusto tratamento reservado aos judeus”, foi lida em todas as igrejas católicas holandesas em julho de 1942. A carta, apesar das boas intenções, e provavelmente inspirada por Pio XII, teve conseqüências inesperadas, como observa Pinchas Lapide: “A conclusão mais triste e que faz pensar é que, enquanto o clero da Holanda protestava como mais força, mais abertamente e como maior freqüência contra as perseguições aos judeus mais do que qualquer hierarquia religiosa de qualquer outra nação ocupada pelos nazistas, o contingente mais numeroso de judeus deportados aos campos de extermínio procedia precisamente da Holanda  - quase 110000, 79% do total.”

Poderíamos nos perguntar o que poderia ser pior do que o genocídio de seis milhões de judeus e a resposta seria: o massacre de outra centena de milhares. O Vaticano trabalhou para salvar a todos que pôde. E os dados são eloqüentes: enquanto 80% dos judeus europeus encontraram a morte durante a Segunda Guerra Mundial, 80% dos judeus italianos se salvaram.

Nos meses em que Roma esteve sob a ocupação alemã, Pio XII deu instruções ao clero italiano sobre como salvar vidas através de todos os meios ao seu alcance. Desde outubro de 1943, Pio XII dispôs igrejas e conventos de toda a Itália para que servissem de esconderijo aos judeus. Como resultado – e apesar de que Mussolini e os fascistas haviam cedido diante da exigência de Hitler de começar a deportação dos judeus da Itália – muitos católicos desobedeceram as ordens dos alemães. 

Rabat-Fohn 

Somente em Roma, 155 conventos e mosteiros deram asilo a quase cinqüenta mil judeus. Ao menos trinta mil encontraram refúgio na residência pontifícia de verão em Castel Gandolfo. Sessenta judeus viveram durante nove meses dentro de Universidade Gregoriana e muitos foram escondidos no porão do Pontifício Instituto Bíblico. Várias centenas se refugiaram dentro do mesmo Vaticano. Seguindo as instruções de Pio XII, muitos sacerdotes, monjes, monjas, cardeais e bispos italianos se empenharam ao máximo para salvar milhares de vidas judias. O cardeal Boetto de Gênova salvou pelo menos oitocentos judeus; o bispo de Assis escondeu trezentos judeus durante mais de dois anos; o bispo de Campagna e dois de seus parentes salvaram 961 em Fiume.

Porém, mais uma  vez, o testemunho mais eloqüente é o dos próprios nazistas. Documentos fascistas publicados em 1998 (e recolhidos no livro Papa Pio  XII de Marchione) revelam a existência de um plano alemão, denominado “Rabat-Fohn”, que deveria ser executado em janeiro de 1944. O plano previa que a oitava divisão de cavalaria nazista, disfarçados de soldados italianos, conquistaria São Pedro e “eliminaria Pio XII com todo Vaticano” e apontavam explicitamente o “protesto do Papa a favor dos judeus como a causa de tal represália”. História semelhante é descrita em toda Europa .

No entanto, o ponto de partida desta discussão fundamenta-se na verdade incontestável de que, tanto os nazistas como os judeus daquela época, consideravam o Papa como o mais importante opositor da ideologia nazista no mundo.

Já em dezembro de 1940, em um artigo publicado no Time Magazine, Albert Einstein rendia homenagem a Pio XII: “somente a Igreja declarou-se abertamente contra a campanha de Hitler pela supressão da verdade. Antes nunca havia sentido um amor especial pela Igreja, mas agora sinto um grande afeto e admiração porque somente a Igreja teve a coragem e a força de posicionar-se em defesa da verdade intelectual e da liberdade moral. Por isso, vejo-me obrigado a confessar que agora sinto apreço sem reservas pelo que durante muito tempo desprezei”.

Em 1943, Chaim Weiznann, que chegaria a ser o primeiro presidente do estado de Israel, escreveu que “a Santa Sé está prestando sua poderosa ajuda onde é possível, para aliviar a sorte de meus correligionários perseguidos”.

Moshe Sharett, vice-primeiro ministro israelita, encontrou-se com Pio XII ao término da guerra: “disse-lhe que meu primeiro dever era agradecer-lhe e, através dele, a toda Igreja católica, em nome do povo judeu, por tudo o que tem feito em diversos países para proteger os judeus”.

O rabino Isaac Herzog, rabino chefe de Israel, enviou uma mensagem em fevereiro de 1944 declarando: “O povo de Israel não esquecerá nunca o que Sua Santidade e seus ilustres delegados, inspirados pelos princípios eternos da religião que se encontram na base da autêntica civilização, está fazendo por nossos desventurados irmãos  e irmãs no momento mais trágico de nossa história, uma prova viva da divina providência neste mundo”.

Em setembro de 1945, Leon Kubowitzky, secretário - geral do Congresso judeu mundial, agradeceu pessoalmente ao Papa por suas intervenções, e este organismo doou vinte mil dólares ao Óbolo de São Pedro “como sinal de reconhecimento pelo trabalho desenvolvido pela Santa Sé ao salvar os judeus das perseguições fascistas e nazistas”. 

Benevolência e Magnanimidade. 

Em 1955, quando a Itália comemorou o décimo aniversário de sua libertação, a União das comunidades judaicas italianas preparou em 17 de abril “jornadas de agradecimento” pela assistência recebida do Papa durante a guerra.

Negar a legitimidade da gratidão expressada a Pio XII, equivale a negar a credibilidade dos testemunhos pessoais e dos juízos expressados sobre o mesmo Holocausto. “Mais que nenhum outro”, assinala Elio Toaff, um judeu italiano que sobreviveu ao Holocausto e chegou a ser rabino chefe de Roma: “tivemos a oportunidade de experimentar a grande e compassiva benevolência e a magnanimidade do Papa durante os anos infelizes da perseguição e do terror, quando parecia que para nós não havia saída alguma”. 

(Traduzido do espanhol por José Luciano Duarte)


 

[1] Rabino de Nova York, é uma das personalidades de relevo no mundo judeu estadunidense. Um dos seus livros, Religion and State in the American Jewish Experience, tem se destacado como um dos melhores trabalhos acadêmicos de 1998. Tem proferido conferências sobre as relações judaico-cristãs nas Universidades de Hartford Trinity College, George Washington e Queens College de Nova York. No artigo que apresentamos na íntegra nestas páginas, publicado em The Weekly Standard (semanário que representa á expressão máxima da elite neoconservadora americana), o rabino David Dalin pede que Pio XII seja reconhecido como “justo”, em virtude do quanto fez para salvar os judeus do Holocausto.

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