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| Carta aberta a Hans Küng (Vittorio Messori) |
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| Variedade |
| Sáb, 23 de Maio de 2009 03:46 |
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Caro(a) Amigo(a) Internauta, com imensa satisfação ofereço-lhe esta carta de um conhecido jornalista cristão italiano, escrita ao padre e teólogo Hans Küng. O Pe. Küng tem sido um insistente e áspero crítico da Igreja e do Papa João Paulo II. Seu rancor contra o Papa aumentou desde que, nos anos oitenta, foi proibido de ensinar como teólogo católico, por suas idéias em profundo desacordo com a fé da Igreja. As palavras de Vittorio Messori são muito oportunas; por isso quis partilhá-las com você. Boa leitura.
Vittorio Messori * Realmente, a Igreja tem que se adaptar ao mundo? Seu serviço ao mundo se resolve com a ordenação sacerdotal das mulheres, o reconhecimento dos anticoncepcionais e do aborto como legítimos? Ante que tipo de concepção de Igreja e de cristianismo nos deparamos nos livros do teólogo suíço Hans Küng? Por que as “soluções” que Küng propõe – e que, segundo ele, a sua não aplicação é a causa da crise da Igreja – estão presentes no protestantismo e, contudo, essas igrejas protestantes estão em igual ou pior situação na sua crise? Em seguida, apresento a carta de um jornalista que, preocupado com o destino da fé no mundo contemporâneo, deseja iniciar um autêntico diálogo e não uma simulação de diálogo, que, em não poucas ocasiões, praticam aqueles que se afirmam tolerantes e ilustrados. Querido Padre Küng: O senhor é sacerdote, está próximo dos setenta anos de idade, entrou no seminário quando era ainda criança, conhece tudo e todos no mundo clerical. Então, já terá ouvido essas histórias engraçadas que circulam no meio dos padres, algumas das quais têm o senhor como protagonista. Uma, por exemplo, é a dos cardeais reunidos em conclave que – ao não encontrar entre eles ninguém progressista o bastante e, portanto, capaz de guiar a barca de Pedro até o sol do amanhã – enviam-lhe um emissário a Tubinga para saber se o senhor está disposto a ocupar o trono pontifício. E o senhor responde: “Eu, Papa? Isso é uma provocação do Vaticano! Se eu fosse Papa, deixaria de ser infalível, o que agora, como teólogo de vanguarda, sou e quero continuar sendo”... Uma história divertida – e deve-se admitir – que traz em si algo de verdade. Lendo suas obras – pelo menos já há uns quinze anos sempre iguais, porém com um nível de agressividade que às vezes se converte em insulto -, tem-se realmente a impressão que o senhor quer atribuir a si mesmo esse carisma de infalibilidade, que nega àquele e àqueles aos quais Cristo garantiu a assistência do Espírito. Agora, o senhor, com suas Teses sobre o futuro do papado, chega a desejar – constato com tristeza – a rápida intervenção da morte que, levando João Paulo II, livraria a barca de Igreja de um “capitão” que está por colocá-la a pique. Ao jornalista do Corriere della Sera, que lhe pergunta se deseja que o papa renuncie, dada sua insistência na mudança da cúpula da Igreja, o senhor responde com decisão que não. Com efeito, explica que, mesmo que renuncie, continuando vivo, “este papa (cito textualmente) faria de tudo para apoiar um sucessor no espírito do wojtylismo e do Opus Dei. É necessário, portanto, garantir que os cardeais possam eleger um sucessor sem sofrer manipulações, guiados unicamente pelo Espírito Santo”. Um Karol Wojtyla vivo seria, pois, “um manipulador”, um obstáculo intolerável à ação do Paráclito: desse modo, que morra, e o mais rápido possível! Naturalmente, minha esperança – e a de todos os que, seja qual for sua fé ou sua incredulidade, não estejam cegos pelo furor dos teólogos -, nossa esperança, dizia eu, é que tenhamos compreendido mal, que o senhor não queira ter dito isto, que não tenha desejado chegar tão longe. Espero-o como homem e como irmão na fé. Com efeito, apesar dos insultos que recebi do senhor na imprensa internacional (primeiro pelo meu livro-entrevista com o Cardeal Joseph Ratzinger, depois por outro com o Papa João Paulo II e pela tradução alemã de outros escritos meus), apesar das palavras ofensivas que o senhor me dedicou, escrevi várias vezes que, apesar de tudo, tenho pelo senhor um sentimento de simpatia. No sentido etimológico do termo: “padecer com”. Hans Küng não corre o risco de ser “vomitado” por ser “morno”, “nem frio nem quente”, para citar o terceiro capítulo do Apocalipse. Pode-se – melhor dizendo, creio que se deve, e com firmeza – discordar da terapia suicida que o senhor propõe para o catolicismo em particular e para o cristianismo em geral. Estou convencido de que, se se seguisse o rumo que o senhor propõe, a barca de Pedro se espatifaria contra os rochedos e ficaria deserta, abandonado pelos últimos ocupantes. E, apesar de tudo, apesar do tom cada vez mais desagradável e intolerante que o senhor usa, nunca duvidei da boa fé, da lealdade das intenções: no senhor há paixão, não mornura. Sucede (assim parece a muitos como eu, a quem o senhor insultou) que frequentemente quem fala demasiado em “diálogo” crê-se livre de praticá-lo. Há, em suas invectivas, um diagnóstico equivocado, porém também o tormento por causa da fé no mundo de hoje. Porém, justamente este, Padre Küng, parece-me o ponto decisivo: o senhor tem mesmo certeza de que este mundo é habitado por pessoas que esperam da Igreja o que o senhor imagina? Quem, com eu, que está lhe escrevendo (permita-me uma alusão pessoal nesta carta que deseja ser pessoal), já há tempos é formado – ou deformado – não em gabinetes clericais fechados, mas sim nessa cultura ilustrada que tanto o fascina, com dificuldade freia a reação irônica ao ler essas suas “teses”, apresentadas como novas e que, ao invés, já foram repetidas mil vezes. Professor, o senhor nunca pensou que se errar o tiro ao buscar um lugar para o cristianismo – a todo custo, inclusive com o perigo de deformá-lo – em categorias “modernas” que o obsedam, porém que mostram seu anacronismo com mil sinais? O senhor é um apologista. Eu lhe presto solidariedade, ainda que para o senhor este adjetivo faça parte dessa categoria “politicamente incorreta” que o aterroriza. Porém, para quem sabe como ver o mundo de verdade, esta apologética sua parece mais adequada ao passado, ao tempo em que o senhor se formou, aos anos sessenta, época do Concílio, anos que fizeram sua fama e que marcaram o ápice e ao mesmo tempo o começo do declínio da modernidade. Entramos atualmente numa terra desconhecida que, por falta de melhor palavra, chamamos de “pós-moderna”. O homem de hoje – esse ao qual o senhor se dirige – está cansado e morre daquilo que o senhor lhe quer propor uma outra vez: dessacralização, desmitificação, profanidade, racionalismo, libertinagem, ilustração, socialização, democratização. Busca, tateando – escandaliza-o, por certo, mas não se irrite com quem não faz mais que descrever -, Sagrado, Símbolo, Mistério, Tradição, Disciplina, Religião, Autoridade, Milagre, Mística, Gregoriano, Anjos, Videntes. E isso até a saciedade. O mítico “homem de hoje” sobre o qual o senhor fantasia (e que, se em algum momento existiu, pertence a uma modernidade morta) não assiste aos debates – sobretudo se são animados por teólogos “ilustrados” – e corre onde se espalham notícias de aparições: ele se nega a ler documentos, mesmo que sejam sofisticados, das infinitas comissões e grupos de trabalhos clericais e escutam com avidez quando se lhe fala do Sudário, Lourdes, Fátima ou Medjugorie, de prodígios, anjos bons e maus, incluindo o demônio; abandona as paróquias, reduzidas a centros “democráticos” de comitês e assembléias, com eleições e organogramas, e batem à porta dos carismáticos, dos gurus, das seitas e das igrejinhas onde encontram o “sagrado” e a “religião”, e não sociologias ou ideologismos; respeita, talvez - ainda que os abandone a seus assuntos -, os sacredotes e religiosas disfarçadas de “pessoas como as outras”, das quais existe grande abundância e, ansiosamente, vai buscar homens e mulheres “diferentes”, “de Deus”. Busca o Padre Pio - para nos entendermos e para citar alguém que não sabia nada de “planos pastorais” nem de “novas exigências querigmáticas” e que das lições do professor Küng pouco ou nada teria compreendido; porém que, justamente por isso, atraiu em sua vida a mais pessoas que todas as faculdades teológicas juntas em sua história passada e futura. Certa vez, eu participava de uma imponente conferência à imprensa organizada por um grupo dos seus editores para apresentar seu enésimo livro onde – como de costume e com sua costumeira impetuosidade virulenta – pedia para a Igreja católica o mesmo que continua pedindo com estas últimas “teses” suas: sacerdotes casados, mulheres sacerdotes, divorciados readmitidos em novos matrimônios, homossexuais venerados, métodos contraceptivos livres, aborto aceito, párocos, bispos e papas eleitos por todos; cismáticos e hereges postos como modelos; ateus, agnósticos, pagãos acolhidos não só como irmãos em humanidade, mas também como mestres de vida e pensamento dos quais devemos aprender tudo... Em resumo, o costumeiro rosário do “teologicamente correto”... os mandamentos do novo conservador, as “valorosas reformas” do conformista ocidental médio. Perdoe-me, porém a duras penas continha meus bocejos. Padre, ao meu lado o escutava com atenção um pastor protestante que, ao final, tomou a palavra: “É muito bonito e edificante, professor Küng. O senhor tem razão: estas são as reformas que o catolicismo deveria por em prática. Porém, diga-me: por que nós, protestantes, já temos tudo isso que o senhor pede para os católicos, e desde há muito tempo e, contudo, nossos templos estão ainda menos cheios que as suas igrejas católicas?” O senhor, não só não respondeu a pergunta, que desde os céus das teorias “pastorais”, ótimas para os semestres acadêmicos, descia à brutal realidade dos fatos - estes fatos mal-educados que não querem entrar nunca me nossos esquemas -, mas, mais ainda, eis que vejo em seu artigo do Corriere della Sera que continua, impávido: assim, o pecado imperdoável deste Papa seria sobretudo o de “não haver introduzido na Igreja católica as instâncias da Reforma protestante e da modernidade”. Quanto à “modernidade”, já fizemos alusão a alguns pontos. Quanto à Reforma, será possível que alguém como o senhor, que vive entre a Suíça e a Alemanha, que conhece esse norte de Europa, que seguiu (muitas vezes pela violência dos príncipes) a palavra de Lutero, Calvino, Zwinglio... será possível, dizia eu, que o senhor não constate o verdadeiro estado das igrejas protestantes que antes estiveram vivas? Será possível que suas viagens pelo mundo não lhe tenham mostrado que o único protestantismo que hoje parece ter futuro é esse protestantismo “enlouquecido”, agressivo, intolerante em relação a todo ecumenismo, representado por mil seitas e igrejinhas? Pode-se propor hoje para a Igreja romana – quase como se fossem novidades milagrosas – reformas que aquela que se chama a si mesma de “Reforma” descobriu e adotou há cinco séculos e cujos resultados estão aí, à vista de todos os que saibam enxergar sem os óculos da abstração? Somente para dar um exemplo: este ano, mais de onze mil anglicanos da Grã-Bretanha pediram para ingressar na Igreja católica. Dentro de alguns dias o Arcebispo de Londres ordenará como sacerdotes católicos a muitas dezenas de pastores anglicanos. São irmãos (e irmãs) cuja conversão foi provocada pela decisão da hierarquia anglicana de ordenar mulheres. Uma decisão que não atraiu para eles nenhum católico (nem nenhuma católica!), enquanto provocou um êxodo importante em direção ao catolicismo. Professor Küng, pelo menos neste caso, os fatos não são exatamente o contrário do que suas teorias afirmam! O que o senhor me diz, por exemplo, dessa Holanda, que antes do Concílio era talvez o país do mundo com a vida católica mais fervorosa, e que imediatamente depois do Concílio converteu-se na esperança e na Meca do progressismo clerical, que levou a cabo o que era possível realizar das reformas que o senhor invoca, cobrindo de desprezo “a arcaica teologia romana”, e que em breve tempo foi reduzida a um deserto onde as igrejas que não caem em ruínas são transformadas em supermercados, pornô-shops ou hamburguesarias? Padre Küng, ninguém nunca lhe disse que se o mais católico dos continentes, o latino-americano, está passando rápida e massivamente para as seitas “enlouquecidas”, de que falava antes, ou regressa aos cultos afro-americanos, é porque busca nestes aquilo que não encontra mais em certo clero católico, que (formado o mais das vezes, nas escolas de suas faculdades alemãs), diz que “optou pelos pobres”, enquanto que “os pobres não o escolheu”? Talvez o senhor contraponha outros fatos aos meus. Examiná-los-ei com atenção: o único carisma que me atribuo é o da falibilidade. Creio, no entanto, que não me equivoco ao recordar que – retomando como dizia, o velho ano de 1968, que continua vivo somente na Igreja como você nos apresenta – o que divide o senhor e aqueles aos quais o senhor insulta é, no fim das contas, a concepção mesma de Igreja. Ela não é um clube, cujo estatuto os sócios podem mudar a seu gosto para “adaptá-lo aos tempos”, não é um círculo de leitores do mesmo velho Livro, onde cada um defende sua interpretação; não é tampouco uma assembléia na qual o “em minha opinião” de cada um tem o mesmo valor que os demais. Este Papa ao qual (repito: espero que seu pensamento tenha sido mal compreendido) o senhor parece desejar uma morte libertadora, não é um patrão, mas sim um servo e administrador de uma Escritura e uma Tradição que não são suas, do mesmo modo que não são de homem algum. Paro imediatamente, porque me sentiria um tanto ridículo se fosse mais além da simples alusão ao problema com alguém, como o senhor, que conhece muito melhor que eu não somente a eclesiologia católica, como também a eclesiologia comparada. E, precisamente porque a conhece – e tão bem – permita-me dizer-lhe que, na Igreja institucional, dos homens de Igreja, vejo todos os limites, todos os defeitos (que são também os meus: por acaso, como todo batizado, não sou também “a Igreja”?); permita-me dizer ainda que conheço a aprovo a antiga sentença sobre a Igreja sempre necessitada de reforma; que estou tão distante de todo tipo de triunfalismo, a ponto de ser suspeitoso para muitos que suspeitam também do senhor. E, no entanto, talvez precisamente, porque não nasci nesta velha Igreja, nela encontrei – experimentando sua vida concreta – um lugar de humanidade, liberdade, sabedoria e esperança que em vão havia procurado em outras partes... também – e sobretudo – nessa “modernidade” que tanto o abeceda e que o senhor nos deseja impor e cuja porta de saída os homens de hoje procuram às apalpadelas para não morrerem asfixiados. Queira perdoar-me, Professor Küng, se o deixo com desgosto pelo que direi sobre seus “novos paradigmas”, a respeito dos quais tanto meditei em tantos livros seus, porém, se, por acaso, devo enganar-me, mais que em sua companhia, prefiro enganar-me em companhia desses muitos para quem esse Papa “polaco” – como o senhor o chama – não é um fardo, mas um dom; não é um senhor contra o qual devemos nos rebelar, mas um pai; não é um presidente de clube, mas o sucessor de Pedro na direção de uma Igreja que, pela fé, não é só nem em primeiro lugar o “Vaticano”, mas o Corpo mesmo de Cristo. Jornalista de corte? Falador e autodidata da teologia? Leigo abusado entre clérigos “conhecedores”? Talvez mais uma vez o senhor vá me gritar essas coisas nos seus artigos. De qualquer modo, aqui o senhor tem um irmão que, ainda que alérgico a toda retórica, externa-lhe sua estima e se sente solidário – apesar de tudo – com sua, se bem equivocada, paixão apologética e missionária num mundo que não suporta a quem,como nós, são suspeitos de “levar demasiadamente a sério” a causa do Evangelho. ______________ * Jornalista. Autor de vários livros, entre os quais se destacam: os livros-entrevista com João Paulo II e com o Cardeal Ratzinger, além de vários livros de pesquisa.Artigos Relacionados: |
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