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Homilia para o XXIX Domingo Comum - Ano B

October 23, 2018

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A Igreja e o mundo atual: entrevista com o Cônego Henrique

Caro(a) Internauta, ofereço-lhe na íntegra uma entrevista por mim concedida ao jornalista Romero Vieira Belo, de O Jornal. Esta entrevista, em forma mais condensada, foi publicada na edição de 20 de março de 2005. 

 

Em razão da idade avançada e de seu estado de saúde, o Papa João Paulo II deve renunciar? 

 

Não. O Papa não é um simples governante; sua primeira missão não é fazer coisas ou escrever documentos, mas é conservar o testemunho da fé apostólica, que consiste em afirmar que Jesus é o Cristo, o Enviado de Deus, o Salvador do mundo. Esse testemunho, o Papa dá também com a vida. João Paulo II já o deu com suas viagens, com sua pregação, com seu ardor. Agora dá-lo com sua fragilidade e suas dores. Além do mais, o Papa está perfeitamente lúcido... 

 

O que acontecerá se o papa perder a capacidade de comandar as ações? Quem dirigirá a Igreja? 

 

Se ficasse constatado que o Papa perdera a lucidez, a sanidade mental, o Colégio dos Cardeais, mediante um público e transparente parecer de médicos, poderia declarar a absoluta incapacidade do Papa e eleger um novo Papa. Enquanto um Papa estiver de posse de suas faculdades mentais, ninguém, absolutamente, pode removê-lo do seu ministério. Um Papa só deixa de ser Papa morrendo ou renunciando livremente. 

 

O cardeal D. Paulo Evaristo Arns agiu corretamente ao defender a renúncia do papa? 

 

Não. O Cardeal errou feio! Não compreendo como pôde afirmar coisas tão desastradas. A Igreja não é uma grande empresa, com um diretor-geral, o Papa. A Igreja vive em cada Igreja local (a diocese), governada por um Sucessor dos Apóstolos (o Bispo). A Igreja não pára se o Papa é idoso ou menos capaz fisicamente. Como o Cardeal expressou-se, até parece que a Igreja tem que estar falando ou mudando de opinião ou inventando novidade o tempo todo. Errou feio, o Dom Paulo... 

 

Existe a possibilidade de um “golpe de estado” no Vaticano? Uma corrente da Igreja poderia destituir o papa e nomear um sucessor? 

 

Nenhuma. É necessário compreender que o Papa não é o governante do Vaticano, mas o Bispo de Roma, sucessor do Apóstolo Pedro. Todo católico acredita firmemente nisso – também os cardeais! Se um papa fosse deposto, o sucessor não seria Papa, seria anti-papa. Não gozaria da assistência que o Senhor prometeu a Pedro e a seus sucessores. Os cardeais não são políticos inescrupulosos com sede de poder. São Bispos, homens que crêem e amam o Senhor e sua Igreja. E sabem, eles também, que o inferno existe! Pensar que o Vaticano é um antro de politicagem e jogos escusos é uma coisa totalmente fora da realidade. Só nesses filmes que detratam a Igreja e fazem a delícia dos que não gostam dela... 

 

Com suas viagens, João Paulo II ajudou a globalizar a Igreja católica. Mas, sua visão conservadora, nas questões familiares e sexuais, não constitui um retrocesso? 

 

A missão da Igreja não é dançar conforme a música ou correr atrás dos modismos do mundo, mas ser fiel a Cristo e ao seu Evangelho. João Paulo II não fez mais que reafirmar a fé e a moral católicas. E não poderia fazer diferente. Jesus preveniu que seus discípulos não podem ser do mundo, como Ele também não é do mundo. São Paulo, nos previne: “Não vos conformeis com este mundo!” Uma Igreja que procure ser agradável ao mundo não serve para mais nada, a não ser para ser jogada fora e pisada pelos homens, como o sal insosso! 

 

Baseada em quê a Igreja condena o homossexualismo?  

 

Primeiro, é necessário distinguir homossexualidade e homossexuais. A Igreja, fundada na Escritura, sempre ensinou que o plano de Deus para a sexualidade humana é a complementaridade homem-mulher: “Homem e mulher ele os criou!” A relação homoerótica não é de acordo com o plano de Deus. No entanto, a Igreja também ensina que nenhum de nós é mais aquele ser humano que Deus pensara desde o início: somos todos meio desfigurados pelo pecado do mundo; todos temos tendências que nos desfiguram. Ora, na visão cristã, o homoerotismo é uma deturpação do projeto de Deus para a sexualidade. No entanto, as pessoas homossexuais não têm culpa de terem essa tendência e devem ser tratadas com respeito e caridade. No entanto, jamais a Igreja poderá dizer que a relação homossexual é um ideal ou que tanto faz uma relação homo ou heterossexual. Realmente, a Escritura fecha essa possibilidade! Dizer o contrário seria ser fiel à onda atual, mas infiel ao Cristo e ao seu Evangelho. 

 

Ao pregar que o sexo é só para procriação, a Igreja não se distancia da realidade, já que a sociedade hoje vê a relação sexual até como diversão? 

 

A Igreja não prega isso! O ato sexual é, primeiramente, uma celebração do amor entre um homem e uma mulher que se amam e se deram na construção de uma vida, “na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, amando-se e respeitando-se todos os dias” dessa vida comum... A procriação é somente a segunda finalidade do ato sexual, mas não é essencial. Um casal que já não possa ter filhos, pode e deve continuar tendo uma vida sexual ativa, e uma vida prazerosa, onde o amor é vivido como mistério de carinho, intimidade e sedução. Ao contrário do que muitos pensam, a Igreja não tem horror à sexualidade! Quem duvidar, compre um manual de moral católica e leia! O que a Igreja não pode é concordar com a banalização da sexualidade instaurada no mundo de hoje. Aliás, ninguém sério e que tenha um pouco de profundidade existencial pode concordar com isso que está aí... 

 

Faz sentido, a essa altura, desestimular o uso da camisinha, expondo os jovens ao contágio da aids e outras DSTs?  

 

A pergunta é simplista demais; é falaciosa. Primeiro: o que a Igreja recrimina é um programa de educação sexual que se fundamenta simplesmente no “use camisinha”. Isso não é sério! No fundo, a mensagem termina sendo: “Chegou o Carnaval, chegou o Natal, chegou o São João, faça sexo! Tudo é permitido, desde que você use camisinha!” É o programa de banalização sexual do governo. Ora, isso não é admissível! É preciso falar de sexo e dizer a essa juventude que sexo tem a ver com amor, com responsabilidade, com doação, com valores, com um projeto de vida! Nesse contexto é admissível falar de preservativo, pois nem todos são cristãos e nem todos são castos. Em segundo lugar: para um cristão, o ideal continua sendo a castidade, isto é, a vida sexual somente no casamento. O sexo fora do casamento foi, é e continuará sendo pecado – esse é o ensinamento do Evangelho e nem a Igreja nem ninguém pode mudar isso! Um discípulo de Cristo que lhe queira ser fiel deve evitar relações fora do matrimônio, com ou sem camisinha. Fora do casamento, usar camisinha ou não, não faz diferença nenhuma do ponto de vista da fé: é pecado do mesmo jeito. E aí, é melhor usar o famoso preservativo. Fora do casamento, ter relação com camisinha é pecado; ter sem camisinha é pecado e burrice... 

 

A crise sacerdotal não poderia ser superada ou atenuada com o fim do celibato? 

 

Primeiro, graças a Deus, o Brasil nunca teve tantos seminaristas como agora. Só no ano passado tivemos sete ordenações diaconais de uma só vez. Isso só ocorreu aqui em Maceió em 1941. Temos poucos padres porque no Brasil sempre foi assim. Agora é que estamos melhorando. Em segundo lugar, no Oriente, onde os padres católicos podem casar-se, há também crise de vocações. A questão não é de facilidades, mas fidelidade e amor a Jesus, que nos tornam capaz de dar a vida a ele e por ele! 

 

Por que a Igreja defende tanto o celibato, se a Bíblia não contém nenhuma objeção ao casamento de padres?

 

Realmente, o celibato é apenas um conselho. No entanto, desde o princípio, a Igreja viu nele um valor, um sinal de que não temos aqui na terra morada permanente e também um sinal de entrega indivisa e total a Cristo e à sua missão. É bom recordar que o Cristo foi celibatário, São Paulo também o foi e o recomenda. Já no Novo Testamento, os ministros ordenados podiam casar-se, mas, ficando viúvos, não poderiam se casar uma segunda vez: deviam ser esposos de uma só mulher. No entanto, a Igreja no Ocidente pode, um dia, mudar a obrigatoriedade do celibato. Como já disse, no Oriente, ele só é obrigatório para os Bispos... 

 

A clonagem viola as leis da natureza, mesmo se o emprego da técnica ficar restrito a animais? 

 

De modo algum. A clonagem de animais ou plantas, com fins científicos justificáveis, é perfeitamente aceitável. O que é imoral é a clonagem humana. 

 

Em casos extremos, como os de crianças nascidas sem cérebro, deve-se recorrer à eutanásia? 

 

Não. Não compete a nós decidir quem deve viver e morrer. Não somos Deus! Uma coisa é a morte como decorrência natural de uma condição deficiente de saúde e outra, bem diferente, é a morte provocada por antecipação em decorrência de convicções ideológicas. Para Hitler, os judeus deveriam morrer porque eram uma raça maligna, os deficientes mentais também. Agora, na Holanda, já se começa a assassinar recém-nascidos com doenças graves. É uma barbárie assassina! Ou a vida humana é sempre humana e deve ser preservada ou estamos abrindo as portas do inferno! Imaginem quando se decidir matar crianças pobres porque não darão lucro ao sistema ou matar velhinhos porque dão prejuízo à previdência! É este o pecado original do homem: querer ser o seu Deus, querer decidir de modo contrário a Deus o que é bem e o que é mal... Sempre terminamos quebrando a cara! 

 

Para a Igreja, quando começa a vida?

  

No momento da concepção. 

 

A Igreja teria como definir a vida, do ponto de vista material? 

 

Essa é uma discussão que envolve também cientistas e filósofos. Um erro grave da sociedade atual é achar que a ciência sabe tudo e pode tudo. Definir o que é a vida nunca será tarefa somente da ciência enquanto técnica, mas também da religião e da filosofia. No caso da vida humana, ela é aquela situação que nos constitui como um ser que possui um dinamismo vital autônomo e um patrimônio genético próprio. É uma definição bem precária, essa que estou dando, mas que serve bem para ilustrar por que não se pode brincar com a vida humana, mesmo no ventre materno: o embrião é já uma vida autônoma, não é um órgão da mãe; e já tem suas características genéticas próprias. 

 

O uso de células-tronco pode salvar vidas, curar enfermos. Por que a Igreja é contra? 

 

A pergunta não reflete a realidade. A Igreja é a favor da pesquisa com células-tronco e aplaude tais pesquisas. Ela é contra a pesquisa com células-tronco de embriões humanos, porque os mata. Os embriões já são seres humanos! Assassinar seres humanos é imoral, é crime sempre e em qualquer fase da existência. Salvar vidas de uns matando outros é imoral! Eu posso dar minha vida por outra pessoa, mas ninguém pode me matar, tirar minha vida contra minha vontade, para salvar outro alguém! A experiência com células-tronco embrionárias é a vitória da razão assassina, da razão atéia, da razão imoral! 

 

Como reagiria a comunidade católica se o papa fosse curado com o uso de células-tronco? 

 

Com o uso de células-tronco adultas, ficaríamos muito contentes e agradecidos a Deus pelo bom uso que o homem faz de sua inteligência. Com o uso de células-tronco embrionárias, seria inaceitável. Não se pode querer ser feliz a qualquer preço! O fim não justifica os meios! O Papa é um homem de princípios, uma verdadeira testemunha do Evangelho da vida! 

 

A Igreja mantém sua posição contrária ao aborto, mesmo em casos de estupro? 

 

Sim. É muito fácil resolver o problema matando o mais fraco. Sabemos que a experiência de estupro é traumática. Mas, isso não justifica moralmente matar a criança. A atitude correta seria ajudar a mãe a ter seu filhinho e, se ela não quer criá-lo, providenciar imediatamente uma adoção. Mas, agora, o Governo Lula, continua com seu programa de aprovar o aborto: além do projeto de matar embriões em nome da ciência, o Ministério da Saúde autorizou o aborto por estupro sem ser mais preciso apresentar o boletim de ocorrência policial. Qualquer mulher agora pode abortar; é só inventar que foi estuprada! Viva o Governo Lula! Nunca votarei nele para nada! 

 

A Igreja parece se opor aos avanços da ciência. Deus impôs limites ao homem? Isso está escrito em algum trecho da Bíblia? 

 

De modo algum a Igreja se opõe à ciência. Esta é uma percepção totalmente equivocada! O que a Igreja defende é que a pesquisa científica seja regida por critérios éticos. Aliás, vários cientistas atuais gritam por isso! Sugiro a leitura do site www.nep.org.br: é de cientistas preocupados com a ética na pesquisa científica. Nem tudo que é tecnicamente possível é moralmente aceitável. Seria aceitável eticamente a bomba atômica? É aceitável escolher uma criança programando até os mínimos detalhes de seus caracteres físicos? É eticamente aceitável uma bomba que mate, mas não destrua nada de material? Quem impõe limites à tecnologia? Com quais critérios? A ciência e a tecnologia são neutras ou, ao invés, servem também a interesses econômicos e ideológicos? São questões seríssimas! A Escritura toda – não é só um trecho não! – insiste que o homem deve ser feliz, deve usar sua inteligência, mas sem cair na ilusão de ser senhor do bem e do mal, de ser Deus! O homem deve usar plenamente sua razão, mas uma razão que seja aberta ao Mistério de Deus 

 

João Paulo II reconheceu que a Igreja errou ao perseguir cientistas como Galileu Galilei. Ao se contrapor à evolução científica atual, no futuro a Igreja não poderá ter que pedir perdão de novo? 

 

A Igreja não se contrapõe à evolução científica; vê-la como algo essencialmente positivo. Ela simplesmente grita por critérios éticos para a ciência. É o que chamamos de filosofia das ciências ou epistemologia. A ONU, recentemente, fez a mesma coisa quando limitou a possibilidade de clonagem humana. Isso não é ser contra a ciência. A Igreja também não pretende impor a visão cristã de ciência; deseja somente uma discussão séria, que dê origem a uma ética civil sobre esses temas. No caso de Galileu a Igreja errou porque quis negar o resultado de uma pesquisa científica. Desde então, não fez mais isso. Repito: a questão agora não é técnico-científica; é moral! É uma falácia monumental misturar as duas coisas. É como perguntar qual é a cor de uma janela e alguém responder que a janela é grande! 

 

Por que o comando da Igreja católica se mantém indiferente ao avanço das seitas evangélicas? 

 

A Igreja não se mantém indiferente não. Apenas não ficamos paranóicos com isso. O problema é complexo. Estamos atravessando uma fase de transição cultural fortíssima: nada mais é certo, nada mais é duradouro, joga-se fora com a maior facilidade os valores dos antepassados, não se está preocupado com a verdade, mas em como conseguir se dar bem e se sentir bem imediatamente. É nesse contexto que se explica o crescimento das várias denominações vindas do protestantismo. É interessante observar que os católicos realmente praticantes não deixam a sua fé. O problema é que o Brasil tem católicos “de nome” demais e católicos verdadeiros de menos... Isso também se deve a erros no processo de evangelização. Nunca foi uma boa coisa batizar massivamente, sem uma preparação acurada. Particularmente, eu prefiro poucos que se digam católicos, mas que o sejam de fato. Aí sim, seremos sal e luz, como Cristo espera de nós, membros da sua Igreja! 

 

A família tradicional está se decompondo? Há como salvá-la? 

 

Sim, está. A família hoje é um pequeno núcleo de um homem, uma mulher e duas ou três crianças, meio perdidos num mundo que o pressiona por todos os lados. É triste, porque não há esperança para a família – nem para nenhuma sociedade sadia – sem espírito de renúncia, sem ideais, sem a capacidade de ser feliz na felicidade dos outros. Os valores da sociedade moderna - que absolutiza o sucesso o bem-estar e o lucro -, privam os filhos da presença dos pais, sobretudo da mãe e deixam a educação por conta dos meios de comunicação e da escola, que já não educa, mas simplesmente transmite conhecimentos. Ou se muda o paradigma de sociedade e de valores, ou as conseqüências serão muito ruins. Quem achar que estou sendo negativo, olhe um pouquinho em volta e veja o que está acontecendo com nossos jovens e crianças, que educação estão tendo, que valores estão assimilando... É assustador... A salvação da família está na redescoberta de alguns valores fundamentais, como a convivência, o diálogo, a sobriedade de vida, a solidariedade e, não por último, a prática religiosa, o lugar de Deus na nossa vida... 

 

E o casamento? É instituição ultrapassada? 

 

Para o mundo atual, sim. Para os cristãos, jamais! O problema é que a liberdade descompromissada e o “faça-você-mesmo” que tem substituído os valores cristãos, não realizam as pessoas. É uma falsa liberdade, porque motivada por um egocentrismo de dar pena. Não se encontrará a realização, a plena humanização por um caminho como esse... Os cristãos são convidados a testemunhar os valores do Evangelho também na vida familiar, matrimonial e sexual. Mas, isso só é possível quando a gente descobre o Cristo de verdade. Caso contrário, as exigências do Evangelho não passarão de moralismo castrador. 

 

Com que olhos a Igreja vê figuras como o jogador Ronaldo, o Fenômeno, que todo ano se junta a uma nova mulher? 

 

São figuras descartáveis, fabricadas pela mídia. Aparecem e, logo depois, somem. Triste de um povo que tem como maiores heróis jogadores, cantores pop e atores de televisão. Os verdadeiros heróis são aqueles que constroem a alma de uma sociedade seja pelo pensamento, seja pelo testemunho de valores, pela produção cultural, seja pela santidade de vida. Pena que os heróis da garotada e dos jovens já não sejam um Francisco de Assis, um Vicente de Paulo, um Luís Gonzaga, um Tiradentes, um Zumbi... A futilidade é a marca registrada da nossa cultura globalizada. 

 

A liberação da mulher é um avanço ou um retrocesso social? 

 

Um avanço. No entanto, se sob o manto dessa liberdade coloca-se a libertinagem sexual, o falta de tempo para estar com os filhos e a masculinização das mulheres, aí não há avanço, mas distorção. A Igreja defende que a mulher possa ganhar o mesmo que os homens tendo, no entanto, o direito de ter mais tempo com seus filhos. Sua presença junto a eles é indispensável. Muitas feministas dirão que isso é ideologia machista. Não é verdade! É apenas respeito pelas diferenças. A igual dignidade do homem e da mulher exige tratamento diferenciado, exatamente porque os dois são diferentes – e tal diferença não é só produto cultural, mas é também biológica e psicológica, inclusive na educação dos filhos. O resto é pura ideologia, essa coisa insossa, chata e hipócrita chamada “politicamente correto”. 

 

Como explicar que, em um País como o Brasil, de tradição católica, as pessoas troquem um homem da estatura moral de João Paulo II por um Edir Macedo? 

 

Primeiro pelo nível de alienação e ignorância do nosso povo. Mas, também pela crise de valores na qual essa civilização do consumo nos jogou. Repito: estamos numa profunda crise cultural. A sociedade ocidental está numa encruzilhada e não se sabe bem aonde isso vai levar... O importante hoje é quem grita mais, quem vende melhor seu produto, quem promete satisfação imediata. Também Deus e a religião viraram produtos de supermercado. Mas isso não é religião; é uma triste caricatura. Nem é fé; é somente crendice e superstição alienante. 

 

O catolicismo precisa mudar, se abrir, para acompanhar as transformações que marcam os tempos hodiernos? 

 

O catolicismo não deve se preocupar em “acompanhar as transformações”, mas em ser fiel ao Evangelho. Claro que a Igreja tem sempre o dever de ser atenta ao melhor modo de se comunicar com a humanidade em cada época e cultura. O Concílio Vaticano II, na década de 60, fez isso, preparando a Igreja para o mundo atual. Mas, isso não quer dizer que a Igreja deva ou possa trair a Verdade do Evangelho ou esconder as exigências morais que Cristo coloca para os seus discípulos. Como dizia a Bem-aventurada Teresa de Calcutá, “nós não somos chamados a fazer sucesso, mas a ser fiéis!” A Igreja, como um organismo vivificado pelo Espírito Santo, estará sempre mudando para ser fiel à sua missão. Mas, sua referência não são as modas do momento, mas unicamente o Cristo, e Cristo crucificado e ressuscitado! 

 

Com tudo que a ciência ensina e pratica atualmente, faz sentido ensinar na missa que Deus fez o homem do barro? 

 

Quem pensa que a Igreja ensina que os primeiros onze capítulos do Gênesis são para ser tomados ao pé da letra, está totalmente enganado. A Igreja não ensina isso e nenhum padre diz isso no sermão! Afirmar que Deus criou o homem do barro é dizer que, por nós mesmos, somos pó e ao pó voltaremos – todos nós: o Bush, o Lula, o Bill Gates, o professor universitário que não crê em Deus, o Papa, eu e você... É uma pena que muitos vejam a Igreja como uma coisa totalmente boba, tão distante daquilo que ela realmente é! É interessante: desde os anos cinqüenta, com o Papa Pio XII, que a Igreja insiste que as narrativas do Gênesis não são uma reportagem histórica ou científica, mas uma narrativa simbólica, como as parábolas de Jesus. Já tive oportunidade de fazer palestra sobre isso para o Curso de Letras da UFAL. Foi uma experiência interessante: abordar a questão dos gêneros literários na Escritura... A Igreja tem intelectuais profundos, filósofos muito sérios e teólogos brilhantes. Não somos um exército de tolos... Há muitos cientistas que são cristãos e há muitos padres e religiosos que se dedicam às ciências... Muitas vezes, as pessoas têm uma visão totalmente infantil do que a Igreja crê, ensina, vive e celebra... Aí não é a Igreja, mas uma triste e ridícula caricatura dela! 

 

Será possível que o cristianismo, daqui a alguns milênios, venha a perder sua essência histórica e transformar-se em algo como uma lenda? 

 

Isso aconteceria se, para agradar o mundo, a Igreja entrasse na onda. Mas, não ocorrerá. Cristo prometeu que, na força do seu Espírito Santo, estará sempre com sua Igreja. Ela já enfrentou as perseguições do Império Romano, a tragédia das invasões bárbaras, as lutas contra os tiranos do Sacro Império e dos monarcas absolutos, déspotas esclarecidos ou não. A Igreja já enfrentou o cativeiro dos papas em Avinhão durante quase setenta anos; sobreviveu à terrível experiência da dilaceração com a Reforma protestante, suportou dez péssimos papas consecutivos na época do Renascimento; já enfrentou a crítica do racionalismo, do iluminismo e do humanismo ateu do século XIX; sobreviveu à perseguição terrível dos regimes pagãos do século XX: o fascismo, o marxismo e o nazismo. Agora luta contra novos gigantes: a secularização, o consumismo, o ateísmo prático, a onda anti-cristã dos meios de comunicação de massa... E vencerá, mais uma vez. Ela perderá sempre mais poder político, poder de barganha, prestígio e até número de fiéis. Mas, isso, ela nunca deveria ter tido; a sua força não consiste nisso. Sua glória, sua força, seu arrimo é unicamente Cristo, loucura, escândalo e fraqueza para o mundo, sabedoria e poder de Deus para os que crêem... “As portas do inferno não prevalecerão” – a promessa do Senhor a Pedro continua de pé!

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