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A Eucaristia como fonte de missão

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Um dos nomes dados à Celebração eucarística é o de “Missa”, “porque a liturgia na qual se realizou o mistério da salvação termina com o envio (= missio) dos fiéis para que cumpram a vontade de Deus na sua vida cotidiana” (Catecismo, 1332). “Ide!” – é a última palavra de Missa. Ide para testemunhades o que vivestes, o que celebrastes! Acabastes de escutar o Senhor que vos falou nas Escrituras; acabastes de comer e beber com ele e o reconhecestes ao partir o pão (cf. Lc 24,35). Agora, deveis levantar-vos e ir adiante, testemunhando que o Senhor está vivo, que ele caminha conosco! Eis o sentido do termo “missa”. A missa termina com o envio à missão de testemunhar o Cristo com nossa palavra e com nossa vida. 

            Na sua Encíclica Ecclesia de Eucharistia, o Papa João Paulo II afirmava: “Conseqüência significativa da tensão escatológica presente na Eucaristia é o estímulo que dá à nossa caminhada na história, lançando uma semente de ativa esperança na dedicação diária de cada um aos seus próprios deveres. De fato se a visão cristã leva a olhar para o ‘novo céu’ e a ‘nova terra (Ap 21,1), isso não enfraquece, antes estimula o nosso sentido de responsabilidade pela terra presente. Desejo reafirmá-lo com vigor ao início do novo milênio, para que os cristãos se sintam ainda mais decididos a não descurar os seus deveres de cidadãos terrenos. Têm o dever de contribuir com a luz do Evangelho para a edificação de um mundo à medida do homem e plenamente conforme ao desígnio de Deus” (n. 20). Ao participar do Banquete eucarístico, no qual Cristo entrega-se pelo mundo inteiro, no qual as realidades deste mundo, pão e vinho, são transfiguradas no Corpo e no Sangue do Senhor, o cristão tem o dever sagrado de consagrar o mundo para o Senhor. Isto se realiza assumindo com amor e responsabilidade as tarefas e desafios de cada dia, procurando, nas realidades temporais, testemunhar e edificar o Reino de Deus que Cristo pregou e inaugurou pela sua existência humana, até a morte e ressurreição. 

            O anúncio missionário de Jesus não se faz somente com a palavra e a pregação, mas também com o engajamento do testemunho concreto dos cristãos nos grandes desafios e problemas do mundo atual: “Muitos são os problemas que obscurecem o horizonte do nosso tempo. Basta pensar quanto seja urgente trabalhar pela paz, colocar sólidas premissas de justiça e solidariedade nas relações entre os povos, defender a vida humana desde a concepção até ao seu termo natural. E também que dizer das mil contradições dum mundo ‘globalizado’, onde parece que os mais débeis, os menores e os mais pobres pouco podem esperar? É neste mundo que tem de brilhar a esperança cristã! Foi também para isto que o Senhor quis ficar conosco na Eucaristia, inserindo nesta sua presença sacrificial e comensal a promessa duma humanidade renovada pelo seu amor. É significativo que, no lugar onde os Sinóticos narram a instituição da Eucaristia, o evangelho de João proponha, ilustrando assim o seu profundo significado, a narração do lava-pés, gesto este que faz de Jesus mestre de comunhão e de serviço (cf. Jo 13,1-20). O apóstolo Paulo, por sua vez, qualifica como ‘indigna’ duma comunidade cristã a participação na Ceia do Senhor que se verifique num contexto de discórdia e de indiferença pelos pobres (cf. 1Cor 11,17-22.27-34). Anunciar a morte do Senhor ‘até que Ele venha’ (1Cor 11,26) inclui, para os que participam na Eucaristia, o compromisso de transformarem a vida, de tal forma que esta se torne, de certo modo, toda eucarística. São precisamente este fruto de transfiguração da existência e o empenho de transformar o mundo segundo o Evangelho que fazem brilhar a tensão escatológica da celebração eucarística e de toda a vida cristã: ‘Vinde, Senhor Jesus!’ (cf. Ap 22,20)” (Ecclesia de Eucharistia, 20). 

            Uma comunidade que celebrasse a Eucaristia fechada em si mesma, sem se preocupar com o anúncio e testemunho de Jesus ao mundo, sobretudo no serviço aos mais pobres, na defesa da justiça e da paz, na proclamação do Evangelho da vida e na denúncia de tudo quanto fira e contrarie o plano de Deus para a humanidade, seria uma comunidade infiel à Eucaristia e indigna de participar dela. O Sacramento eucarístico, portanto, compromete profundamente com a missão, abrindo a comunidade para o mundo, que espera o nosso testemunho e ao qual nós somos enviados (missi, em latim)

            Alimentando-se da Eucaristia, os cristãos nutrem a sua vida e tornam-se vida que sustenta o mundo, dando assim sentido cristão à vida, que é sentido sacramental. Estas missão e responsabilidade são tanto mais urgentes no mundo atual, sufocado pela perda do sentido de Deus e do sagrado; mundo atolado no seu próprio fechamento, que já não consegue perceber a existência à luz do desígnio de Deus. Pois bem, é deste sacramento que provém, para o cristão a experiência mais forte de um sentido da vida como dom de Deus e parceria com o Senhor. Também da Eucaristia brota o dom da caridade e da solidariedade em relação ao mundo, pois o Sacramento do altar não pode separar-se do mandamento novo do amor recíproco. 

            Seria um grande erro pensar no compromisso eucarístico somente em relação à nossa santificação e à nossa comunhão fraterna no interior da Comunidade que é a Igreja. Esse Sacramento bendito nos impele para o mundo, “para as águas mais profundas”, no testemunho daquele Senhor a quem vimos e ouvimos. Eis por que a Eucaristia é a força que nos transforma, enche de santa certeza e entusiasmo, e fortalece as nossas virtudes; estimula a nossa caminhada na história, lançando uma semente de ativa esperança na dedicação diária de cada um aos seus próprios deveres, na família, no trabalho, no empenho político. Desta nota social da Eucaristia, a missão de cada um na Igreja recebe força e confiança. 

            Já desde o início do segundo século, Santo Inácio de Antioquia definia os cristãos como aqueles que “vivem de acordo com o Domingo”, na fé da ressurreição do Senhor e da sua presença na Celebração eucarística. Viver “de acordo com o Domingo”, dia de Eucaristia, é viver na esperança da presença e da vinda do Senhor, o que faz do cristão um construtor do mundo novo a ser consagrado a Cristo Jesus! São Justino, nesta mesma perspectiva, na conclusão da Eucaristia dominical evidenciava a urgência ética: “Aqueles, portanto, que vivem na abundância e querem dar, dão conforme cada um entende, e o que se recolhe é deposto junto de quem preside; é este mesmo que socorre os órfãos e as viúvas, e quantos são esquecidos por motivo de doença ou por qualquer outro motivo, os encarcerados, os estrangeiros; em poucas palavras, torna-se provedor de quantos passam por necessidade”. Desde a Antigüidade, portanto, é clara a consciência das exigências que a Celebração do Sacrifício eucarístico comporta em termo de compromisso com o mundo. Nada mais estranho ao espírito eucarístico que uma espiritualidade de fuga do mundo e de descompromisso com os problemas da humanidade, sobretudo no âmbito concreta daqueles que vivem conosco e em torno a nós. 

            Outro aspecto importante é que a Eucaristia fundamenta e aperfeiçoa a missão entre aqueles que não crêem em Cristo, seja nos países de missão, seja nas nossas cidades, nas nossa famílias e nos ambientes onde Cristo já não é conhecido, vivido nem amado. O sentido da missão é urgente; o anúncio de Jesus morto e ressuscitado, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, vida e esperança da humanidade, é um imperativo para todo e cada cristão. Se “não podemos calar o que vimos e ouvimos” do Verbo da vida que em cada Eucaristia se manifesta na sua Palavra e no seu Corpo e no seu Sangue, então da Celebração eucarística nasce para todo o cristão o dever de colaborar na dilatação do corpo de Cristo, que é a Igreja. A atividade missionária, de fato, pela palavra da pregação e pela celebração dos sacramentos, cujo centro e ápice é a Sagrada Eucaristia, torna presente a Cristo, autor da salvação no coração do mundo. O mandamento missionário, que levou, não poucas vezes, ao martírio, sofrido até aos nossos dias por pastores e fiéis, precisamente durante a celebração da Eucaristia, tende a levar à multidão dos homens a salvação dada no sacramento do pão e do vinho. Por conseguinte, a Sagrada Comunhão produz todos os seus frutos: aumenta a nossa união com Cristo, separa-nos do pecado, consolida a comunhão eclesial, empenha-nos em favor dos pobres, dá-nos ânimo e vigor missionário, aumenta a graça e dá o penhor da vida eterna. 

            Uma bela e eloqüente ilustração de tudo quanto aqui foi dito é a narrativa do encontro do Senhor Jesus com os discípulos de Emaús. Desanimados e abatidos pela dura realidade da vida, eles se renovam e sentem o coração arder quando o Senhor caminha com eles e, na estrada da vida, explica-lhes nas Escrituras o sentido dos acontecimentos. Ouvindo o Senhor, a dura realidade vai tomando nova feição e novo sentido. Este itinerário se completa quando o Ressuscitado senta-se com eles para a Fração do Pão. Então, seus olhos se abrem e eles reconhecem o Senhor. Detalhe importantíssimo é que os dois discípulos já não conseguem ficar parados e inativos. “Naquela mesma hora, levantaram-se... e narraram os acontecimentos do caminho e como o haviam reconhecido na Fração do Pão” (Lc 24,33.35). Também a Comunidade celebrante não pode ficar parada, inerte, ante tão profunda experiência de escutar o Senhor nas Escrituras e com ele partir o Pão e repartir o Cálice. Deve levantar-se, deve correr ao mundo, deve anunciar o Senhor! 

            Essa sede missionária é uma medida muito importante da fecundidade e da verdade das eucaristias de nossas comunidades. Sem esse compromisso, seremos julgados pelo talento que recebemos e preguiçosamente enterramos...

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