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A Igreja particular à luz da Teologia

May 11, 2009

I. O mistério da Igreja 

            A Igreja nasce do Alto: é o povo de Deus reunido pelo Espírito Santo no único Corpo de Cristo. Não somente nasce do Alto, da Trindade, mas deve articular-se trinitariamente! 

Mas, onde se manifesta tal mistério, onde a Igreja se realiza plenamente neste mundo? 

            A resposta é: a principal manifestação da Igreja está na plena e ativa participação do povo de Deus na mesma eucaristia. Já São Tomás ensinava que a res, o efeito final da eucaristia é a comunhão eclesial! Aí o Espírito nos congrega no único corpo de Cristo e, por ele, temos acesso ao Pai! 

            Na celebração eucarística a Igreja torna-se sempre mais: communio Sancti (comunhão no Santo Espírito), communio sanctorum sacramentorum (comunhão nas coisas santas) e communio sanctorum fidelium (comunhão dos santos). Pela Palavra e o Sacramento, conjugados na Ceia do Senhor, a Igreja aparece em toda a sua realidade. Assim, a eucaristia faz a Igreja e a Igreja, por mandato do Senhor, faz a eucaristia até que ele volte! 

            Celebrando a eucaristia a Igreja torna-se cada vez mais corpo do Senhor, inseparável do Cristo: “Porque o Cristo total é cabeça e corpo: a cabeça é o próprio Salvador nosso; o corpo é a Igreja”; “O Cristo total é cabeça e corpo: a cabeça é o Filho unigênito de Deus e o seu corpo é a Igreja: esposo e esposa, dois em uma só carne!” – esta carne é a eucaristia! 

            Ora, é aí, na eucaristia, precisamente, que a Igreja aparece: comungando no corpo do Senhor os cristãos formam um só corpo, não por simples comparação, mas de um modo real e misterioso (= místico). Por isso mesmo o ícone da Igreja é a sinaxe eucarística! 

II. A eucaristia e a Igreja local 

            É com referência às assembléias eucarísticas que o Novo Testamento fala em “igrejas”: povo reunido pelo Pai através do Filho no Espírito para escutar a Palavra e dizer “Amém”, tornando-se povo da aliança no corpo de Cristo. Assim, em cada celebração a Igreja torna-se visível como povo convocado, santa convocação,ekklesia. Há, então, uma única Igreja de Cristo que se manifesta local e concretamente em comunidades particulares reunidas para a eucaristia! A esta comunhão dos fiéis na Palavra e no Corpo de Cristo, dá-se o nome de Igreja local. 

            Esta “localização” da Igreja é própria e essencial para o cristianismo: é aí que a graça do Pai, pelo Filho no único Espírito atinge concretamente o espaço humano (territorial, cultural, existencial). A Igreja local é a resposta concreta a um Evangelho escutado na própria situação cultural, de modo que a vida divina toca cada momento e cada mínimo da experiência humana! Aí, então, a máxima localidade torna-se expressão da máxima universalidade da Igreja, na sua vocação à visibilidade histórica, da sua encarnação cultural e existencial! No entanto, é necessário ressaltar que se a Igreja é local, vive num local, não é, no entanto, determinada pelo local, mas pelo Cristo, no qual ela está radicada, localizada (= em Cristo). 

III. A Igreja particular 

            Uma questão terminológica: melhor “local” (referência à localização espácio-temporal e cultural da comunidade cristã) que “particular” (dá a idéia de parte, pedaço... região administrativa). 

            Segundo a LG 23 e 27, a Igreja particular é uma comunidade episcopal, isto é, guiada pelo bispo e seu presbitério. O Código, recebendo o Concílio, (cân. 369) afirma: “A diocese é uma porção do povo de Deus confiada ao pastoreio do bispo com a cooperação do presbitério, de modo tal que, unindo-se ela a seu pastor e, pelo Evangelho e pela eucaristia, reunida por ele no Espírito Santo, constitua uma Igreja particular, na qual está verdadeiramente presente e operante a Igreja de Cristo, una, santa, católica e apostólica”. 

            Dois elementos são salientados: a porção do povo de Deus e o bispo com seu presbitério. “Porção” aqui não tem uma conotação territorial: a diocese não é um distrito administrativo, mas sim uma comunhão de relações interpessoais numa comunidade de batizados que professam a mesma fé católica. Esta relação é dos membros da comunidade entre si e da comunidade com seu pastor, que como princípio e fundamento visível da comunhão desta porção do povo de Deus, torna-a sujeito eclesial. No entanto, a territorialidade tem sua importância, pois é o único critério que garante a catolicidade da comunidade eclesial. “Porção” quer significar que a Igreja particular é a presença e a manifestação integral do mistério da Igreja; ela é realmente Igreja toda, sem por isso perder a distinção em relação ao todo presente nela. 

            Eis seus elementos constitutivos:

            Igreja congregada no Santo Espírito: ela é mistério da autocomunicação do Pai pelo Filho no Espírito, é comunhão gerada pelo Espírito para nos fazer filhos no filho. Comunhão gerada pela Palavra e o Sacramento.

            Igreja congregada pelo Evangelho: é comunidade reunida em torno do anúncio do Evangelho, que a faz crescer. Este Evangelho, mais que uma mensagem é uma presença: presente na Palavra e celebrado no Sacramento.

            Igreja congregada pela eucaristia: é ela que constitui a Igreja num determinado lugar. Na carne e no sangue do Senhor renova-se a inteira fraternidade do corpo: “Em toda a comunidade de altar unida para o sacrifício, sob o ministério sagrado do bispo, manifesta-se o símbolo daquela caridade e unidade do corpo místico, sem a qual não pode haver salvação. Nestas comunidades, embora muitas vezes pequenas e pobres ou vivendo na dispersão, está presente Cristo, por cuja virtude se consocia a Igreja una, santa, católica e apostólica”(LG 26). A eucaristia, no entanto, não é uma realidade autônoma: ela é fonte e ápice da evangelização: somos batizados para formar um só corpo.

            Igreja confiada ao pastoreio do bispo com a cooperação do presbitério: é a presidência do bispo que confere em plenitude a sucessão apostólica à Igreja local, tornando autêntica a pregação do Evangelho e legítima a eucaristia. O episcopado é elemento constitutivo da Igreja local, não no mesmo nível da Palavra e da eucaristia, mas enquanto está em função delas. Ele, a quem é doado o Spiritus principalis, jamais é visto isoladamente: está sempre rodeado pelos presbíteros, como colaboradores e conselheiros, de modo que seu ministério não é somente pessoal, mas sinodal. O bispo é colocado à frente da Igreja local em virtude de um carisma situado em uma Igreja que o Espírito constrói mediante muitos outros carismas. Se por um lado o bispo preside à Igreja, por outro, desta Igreja, fiel à Tradição, ele recebe a Palavra que proclama e transmite. A ele compete também a presidência da eucaristia na sua Igreja; mas consagrando o corpo e sangue do Senhor, oferecido pela Assembléia, ele não somente celebra pela Igreja e com a Igreja, mas também por meio da Igreja, corpo de Cristo. Há, portanto, uma misteriosa e divina interpenetração, uma compenetração entre o bispo e sua Igreja local. 

            Se o ministério episcopal é o centro visível da unidade eclesial, em uma Igreja originada da comunhão trinitária e nela modelada, todos os fiéis são enriquecidos pela multiforme graça do Espírito em inter-relação e reciprocidade. Não existe nenhum Dom do Espírito que englobe, absorva ou sintetize todos os outros! Ao bispo é confiada a comunidade dos fiéis com suas riquezas espirituais para que vivem e ajam in communione caritatis. Cabe-lhe, portanto, reconhecer a presença dos carismas, ativando a multiplicidade dos ministérios, velando para que tudo coopere concordemente na edificação do corpo eclesial. Assim, o ministério episcopal é ativo na promoção dos ministérios, no discernimento da autenticidade dos carismas, como uma verdadeira episcopé. Ao redor do seu ministério articulam-se as diversas formas de comunhão:

·        Primeiramente a commmunio sacerdotalis do bispo com seu presbitério, fundada no sacramento da ordem. Em comunhão com o bispo e seu presbitério também a Ordem dos diáconos, ministros do Povo de Deus na liturgia, na pregação e na caridade, exercita seu serviço. 

·        É responsabilidade primeiramente do bispo a communio fidelium no interior da Igreja local. Nesta Igreja o modelo da communio aplica-se particularmente à paróquia, como quase última localização da Igreja. Aí se exprime do modo mais imediato e visível a comunhão eclesial, pois que é fundada em uma realidade teológica e numa comunidade eucarística. Certamente, tanto histórica como teologicamente a paróquia é um dado segundo em relação à Igreja local, no entanto, não é de modo nenhum privada de sentido eclesiológico, já que aí está representada de certo modo a Igreja visível estabelecida sobre toda a terra. Aí, como no âmbito das várias associações de fiéis no interior da Igreja local, aplica-se e deve ser vivido o modelo da communio. 

Tal forma de vida eclesial, ícone da Trindade Santa, calcada na comunhão, exige uma forma de expressão na vida concreta da Igreja diocesana, que é denominada pelo conceito teológico de sinodalidade. Tal conceito quer exprimir a participação na vida da Igreja por parte dos fiéis, no modo próprio a cada um, de acordo com os próprios ministérios, ofícios e carismas[1]. Pode-se exprimir esta sinodalidade com as expressões de São Cipriano de Cartago: nihil sine espiscopo por parte dos fiéis e nihil sine consilio vestro (dos presbíteros) et sine consensu plebis por parte do bispo. É neste quadro tão fecundo que se coloca o sínodo diocesano, instituição que tem sua origem no século VI e deve ajudar o bispo em ordem ao bem comum da inteira comunidade eclesial. Nesta mesma linha colocam-se o conselho pastoral diocesano e o conselho presbiteral, bem como outras instâncias previstas pela atual disciplina eclesiástica. 

            Abertura para a Igreja universal: a eucaristia e o episcopado em comunhão com Pedro: “una cum papa nostro” (século III). 

IV. Conclusão 

            A Igreja local é realmente Igreja, pois possui tudo quanto é necessário para tal:

            professa a fé apostólica (referência a Trindade e ao senhorio de Cristo),

            proclama a Palavra de Deus na Escritura, segundo a Tradição apostólica,

            batiza seus membros e celebra os sacramentos, particularmente a eucaristia,

            afirma e responde à presença do Espírito e seus dons, anuncia com impaciência o Reino,

            reconhece o ministério da autoridade no interior da comunidade, bem como aquela do Sucessor de Pedro, enquanto celebra a eucaristia “una cum papa nostro et cum antistite nostro”. 

            "Esta Igreja de Cristo é verdadeiramente presente em todas as legítimas assembléias locais de fiéis, que aderindo a seus pastores, são chamadas Igreja no Novo Testamento" (LG 26).


 

 

[1] “Sinodalidade” é melhor que “corresponsabilidade” (que não deixa transparecer a diversidade das funções) e “participação” (muito empregado nas democracias modernas, podendo levar a equívocos de tipo assembleísticos). Sinodalidade não somente evoca a tradição sinodal da Igreja como também, por não ser utilizado no mundo civil, deixa evidente a peculiaridade das relações eclesiais, que se exprimem não como autocracia ou democracia, mas como communio.

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