Anjos e demônios

OS ANJOS: PARTE DO MUNDO CRIADO EM CRISTO JESUS

A angelologia[1] é, atualmente, um tema de difícil apresentação na teologia e isto por três motivos básicos: primeiramente porque o homem de hoje recusa, com seu empirismo utilitarista, admitir tudo quanto ultrapasse sua experiência do mundo sensível; em segundo lugar, mesmo entre os que crêem, não parece claro como relacionar de modo adequado os anjos e seu ministério com a história da salvação: nossa piedade um tanto racionalista enfrenta dificuldades em enquadrar os anjos numa perspectiva histórico-salvífica: qual seria aí seu lugar e utilidade? Certamente contribuiu para tal situação uma angelologia desarticulada da cristologia e da Trindade. Finalmente, há, do ponto de vista da história das religiões, a alegação que a doutrina sobre os anjos apareceu relativamente tarde como uma importação de crenças de outras religiões, principalmente as cananéias, as mesopotâmicas e persas.

Diante de uma tal situação mental é imprescindível, antes de tratar da angelologia, delinear alguns critérios fundamentais para um reto e aceitável discurso sobre este tema.

i. Deve-se evitar todo antropomorfismo a respeito dos anjos, com base na nossa realidade espácio-temporal. Também é imprescindível na parte positiva da angelologia - vale dizer, na angelologia bíblica - levar em conta os gêneros literários e o rico simbolismo que envolve tantas vezes a figura dos anjos nas Escrituras.

ii. Os anjos devem ser considerados sempre como espíritos criados, finitos, pessoais e autoconscientes, pertencentes a este mundo criado por Deus, dele fazendo e sendo parte.

iii. Os anjos não são autônomos, mas somente podem ser compreendidos biblicamente se referidos a Deus: estão sempre a seu serviço e só aparecem na Escritura em função do plano salvífico de Deus para a humanidade e toda a criação.

iv. Como criaturas, os anjos existem através de Cristo e para Cristo e somente nele encontram o sentido de sua existência e de sua missão. Cristo é Cabeça dos anjos e a graça angélica é gratia Christi. Por extensão, é necessário afirmar que eles são e vivem somente no Espírito do Cristo ressuscitado e somente nele podem encontrar sua plenitude criatural, que consiste na comunhão com Deus e com toda a criação!

v. Assim sendo, o lugar privilegiado para uma reta angelologia é a antropologia, já que por sua essência os anjos pertencem ao cosmo e compartilham com o homem a única história da salvação em Cristo Jesus. A angelologia mostra que o homem se encontra numa comunidade de salvação e de perdição mais ampla que a própria humanidade. Se o homem é o cume do mundo visível, nem por isso pode pretender-se o centro da criação ou seu ponto mais alto[2].

Por tudo quanto foi dito, aqui somente serão tratados os anjos enquanto ligados à história da salvação. Os problemas ontológicos relativos ao mundo angélico somente serão abordados na medida em que o exija o interesse histórico-salvífico. Tenhamos em mente que a Escritura fala dos anjos não para completar nossos conhecimentos sobre a criação, mas unicamente devido à sua relação com o homem enquanto peregrino e interlocutor de Deus no caminho salvífico. Por isso mesmo a angelologia bíblica é muito circunspecta e deve servir de parâmetro para toda angelologia. Efetivamente, uma angelologia desligada da cristologia e da antropologia não é contemplada pela Escritura; tal não seria uma angelologia no sentido bíblico, mas uma demonologia no sentido grego. Com efeito, dáimones para o pensamento helenístico são forças pessoais intermediárias, ativas e determinantes da ordem cósmica. Segundo Platão, seriam providências intermediárias entre deus e os mortais ou, na concepção estóica, potências aglutinadoras da ordem cósmica. A demonologia helenista tratava desses seres sobre-humanos não do ponto de vista funcional da história da salvação (idéia completamente estranha ao pensamento grego!), mas sim do seu significado essencial (natural) no universo, na harmonia cósmica. Para Aristóteles, que influenciou Tomás de Aquino e K. Rahner, se os fenômenos naturais se realizam de modo sempre constante, é necessário dar uma razão a esta constância: um primeiro motor imóvel nas diversas esferas cósmicas deveria ser o princípio inteligente que guiaria as partes dos cosmos para um fim harmônico. Assim, subordinadas ao primeiro Motor imóvel e necessário, puro ato, encontrar-se-iam inteligência separadas que movem as esferas celestes e regem a ordem do cosmo e os destinos das pessoas e nações[3]. Ora, uma tal abordagem é completamente desconhecida das Escrituras Sagradas e de modo nenhum interessante para a fé cristã!

Os anjos na Sagrada Escritura

As Escrituras não afirmam explicitamente a criação dos anjos: estes aparecem simplesmente na história da salvação como criaturas de Deus, de modo particular como seus mensageiros e realizadores de sua vontade, como o próprio termo hebraico mal’ak e o grego aggeloV já o indicam. O termo, portanto, não indica uma natureza, mas uma função antropologicamente condicionada:

são espíritos destinados a servir , enviados em missão para o bem daqueles que devem herdar a salvação (Hb 1,14).

Tal observação é importantíssima porque determina em que perspectiva a angelologia tem lugar numa teologia que queira ser realmente inspirada na Palavra de Deus e não em meras especulações mais ou menos gratuitas. Efetivamente, distintos dos numerosos espíritos acreditados no mundo pagão, os anjos não têm um campo autônomo de ação fora das ordens de Deus. Como todas as criaturas eles foram criados para Cristo, de modo que ele é seu Cabeça e Senhor (cf. Cl 1,16): Cristo está acima de todos os anjos (cf. Hb 1,5).

No Antigo Testamento IHWH é apresentado muitas vezes como um soberano oriental com sua corte. Neste contexto os anjos aparecem como servos (cf. Jó 4,18), santos (cf. Jó 5,1; 15,15; Sl 89,6; Dn 4,10) ou filhos de Deus (cf. Sl 29,1; 89,7). São chamados, segundo a sua missão, mensageiros (cf. Gn 19,1; 28,12; 32,2; Sl 103, 20), por sua figura, homens (cf. Gn 18,2.16; 19,12.16), por sua relação com IHWH, príncipes dos exércitos celestiais (cf. Js 5,14) ou senhores do céu (cf. 1Rs 22,19). Há também referências aos querubins - nome talvez derivado de karibu, divindade ou gênio acádio, metade homem metade animal (cf. Sl 80,2; 99,1; Ez 10,1s; Sl 18,11; Gn 3,24) e aos serafins – cujo nome significa “ardentes” – que cantam a glória de IHWH (cf. Is 6,7). Os querubins e serafins não são anjos no sentido originário da palavra; por isso no início não recebiam o nome de “anjos”. Somente no judaísmo tardio foram incluídos no grupo de seres designados por anjos. Ao lado desses enigmáticos mensageiros, os relatos bíblicos mais antigos falam no “Anjo de IHWH” (cf. Gn 16,7; 22,11; Ex 3,2; Jz 2,1) que não é diverso do próprio IHWH manifestado na terra de modo visível (cf. Gn 16,13; Ex 3,2). O provável é que a figurado “Anjo de IHWH” seja o modo como uma teologia ainda arcaica procurava afirmar a proximidade providente de IHWH e, ao mesmo tempo, salvar sua transcendência divina mesmo quando IHWH se comunica com o homem. À medida, porém, que a revelação progride, o seu papel vai sendo sempre mais atribuído aos anjos, mensageiros ordinários de IHWH.

No período pós-exílico, tanto a literatira bíblica quanto os apócrifos deram aos anjos o título de filhos de Deus (cf. Jó 1,6; 2,1; 38,7; Sb 5,5). Nos escritos desta época foram incorporados vários elementos das crenças populares. Os anjos são descritos, então, como seres incorpóreos (cf. Tb 12,19; Gn 18,9; Sl 78,25; Sb 16,20), por isso não poderiam ser percebidos pelos sentidos. Além de mensageiros de Deus junto aos homens (cf. 1Cr 21,18; Jó 33,23; Tb 3,17; Dn 14,33) e seu protetores (cf. Dn 3,49; 6,23), acreditava-se que os anjos falassem a Deus em favor dos homens (cf. Jó 33,23s; Tb 12,15).

Em resumo, o Antigo Testamento afirma claramente a existência dos anjos, mas não apresenta nenhuma reflexão especulativa sobre eles. Seu número é muito grande e eles constituem uma espécie de séquito de IHWH, sujeitos ao seu domínio universal. Executam os serviços que Deus lhes confia tanto em cada homem quanto na totalidade do povo (cf. 1Cr 21,18; Tb 3,17; Dn 14,22). Mencionam-se somente os nomes de Miguel, Gabriel e Rafael.

No Novo Testamento há uma desmitologização dos textos do Antigo Testamento sobre os anjos. Seus testemunhos são mais discretos e menos abundantes. Contudo, também o aí se fala dos anjos como mensageiros celestes, cristologicamente condicionados: toda a obra dos anjos aparece, então relacionada a Cristo e a realização da salvação por ele trazida. Eles transmitem aos homens as incumbências divinas; quando aparecem, apresentam-se normalmente como jovens com brilhantes vestes brancas (cf. Mc 16,5; Mt 28,3; Lc 24,4; Jo 20,12; At 1,10). Grande é seu número (cf. Mt 28,53; Hb 12,22; At 5,11; Mt 22,30; 26,53; Lc 12,8s; 1Tm 5,21; Hb 12,22; 1Pd 3,22; Hb 12,22ss). Acompanham especialmente os acontecimentos da vida de Cristo desde o seu início até sua consumação: o anjo do Senhor, que em Lucas se chama Gabriel, predisse o nascimento e a missão de João Batista (cf. Lc 1,11-12); o mesmo anjo transmite a Maria a mensagem de que há de ser Mãe de Deus (cf. Lc 1,26ss); o Anjo do Senhor tranqüiliza José a respeito do que o Espírito Santo produziu em Maria (cf. Mt 1,20-25); também foi um anjo que anunciou aos pastores o nascimento de Jesus e uma multidão de anjos louva a Deus por sua benevolência, às portas de Belém (cf. Lc 2,9-15). É ainda o Anjo do Senhor quem aconselha a José a fuga para o Egito com Maria e o menino e, passado o perigo, transmite-lhe a nova ordem de voltar (cf. Mt 2,13.19s). Anjos servem a Jesus quando este, levado pelo Espírito ao deserto, permanece ali quarenta dias em jejum (cf. Mc 1,13; Mt 4,11). O Pai podia enviar a Cristo mais de doze legiões de anjos, se o Filho lhe pedisse, para livrá-lo do sofrimento que sobre ele caiu no Jardim das Oliveiras. Mas como se cumpriria então a Escritura? (cf. Mt 26,53). Um anjo aparece a Cristo em sua angústia mortal e o conforta (cf. Lc 22,43). Quando as mulheres, na manhã da Páscoa, encontram o sepulcro vazio e ficam confusas, homens com vestes brilhantes aparecem diante delas e lhes anunciam a ressurreição do Senhor (cf. Mc 14,5s; Lc 24,1-7). A estes Mateus e João dão o nome de anjos (cf. Mt 28,2; Jo 20,12). Todos os anjos acompanharão o Senhor quando vier para o julgamento do mundo (cf. Mc 8,38; Mt 25,31; 26,27). O Filho do Homem enviará seus anjos com estrépito de trombetas, e eles ajuntarão os eleitos dos quatro ventos, de extremo a extremo do céu (cf. Mt 13,31.39ss.49; 24,31; Mc 13,27).

Segundo o testemunho de Cristo, as crianças têm os seus anjos no céu (cf. Mt 18,10). O próprio Cristo, como Filho de Deus, está acima de todos os seres angélicos, tanto antes da encarnação como depois de sua exaltação à direita de Deus (cf. Mc 13,27; Ef 1,20s; CI 1,16; 12.10; Hb 1,5-14; 2,1-9; 1Pd 3,22). Segundo o desígnio divino, a Igreja criada por Cristo notificará aos anjos a salvação dos homens (cf. Ef 3,10; 1Tm 3,16). Os anjos alegram-se de que os homens se convertam a Deus (cf. 1Pd 1,12). O Apocalipse de João expõe o grande papel que os anjos desempenham na história da salvação.

Apesar de todos estes testemunhos é necessário cautela, pois, procedendo a uma análise exegética mais cuidadosa ver-se-á que alguns dos textos citados não falam com segurança de anjos e outros utilizam simplesmente um gênero literário; é o caso, por exemplo, do Anjo de IHWH em Mateus e dos anjos do Apocalipse – tão comuns neste gênero literário. Quanto à ação de Gabriel na anunciação, é de se perguntar se Lucas não enquadra toda a narrativa no gênero de anunciação, que comporta sempre a aparição de um anjo e se não escolheu Gabriel exatamente por ser ligado ao tempo do fim e à vinda do Filho Homem na profecia de Daniel (cf. Dn 8,16; 9,21-27;) e por significar o poder fecundo de Deus – Gabriel era considerado no judaísmo tardio como o responsável pela fecundidade do solo, dos animais e dos homens. Uma coisa, no entanto, é certa: tais textos deixam claro que o Novo Testamento recebeu do Antigo a convicção da existência dos anjos e, ao que parece, o próprio Jesus compartilhou de tal convicção, que aliás, não era unânime na sua época (cf. At 23,8).

Aparecem também outros grupos de seres celestes: virtudes (cf. Rm 8,38; 1Cor 15,24; Ef 1,21), potestades (cf. 1Cor 15,24; Ef 1,21, Cl 1,16), principados (cf. Rm 8,38; 1Cor 15,24; Ef 1,21; Cl 1,16), dominações (cf. Ef 1,21; Cl 1,16) e tronos (cf. Cl 1,16). Não se estabelece a diferença entre eles; parece que Paulo simplesmente aceita a crença corrente no mundo helênico e julga tais seres a partir de Cristo: se existem, foram criados através de Cristo e para Cristo; se são adorados e cultuados, Paulo os trata como demônios e os reduz a nada (cf. 1Cor 15,24; Ef 6,12; Cl 2,15). O importante é a primazia absoluta de Cristo. Por isso mesmo, neste contexto, o culto dos anjos é reprovado (cf. Cl 2,18).

Concluindo o que diz respeito aos dados bíblicos, poderíamos afirmar o seguinte:

· O discurso bíblico sobre os anjos tem sempre uma perspectiva antropológica: a Escritura fala de Deus não primeiramente para revelar quem ele é, mas o que faz em nosso favor: o quanto ele é para nós. Ora, o envio dos anjos é apenas um momento deste voltar-se de Deus para o homem e o nosso mundo: eles estão a serviço da salvação (cf. Hb 1,14).

· Servindo ao plano de Deus, a Escritura mostra-nos sempre os anjos em relação à glória da Deus: o Anjo de IHWH evoca a presença amável do Deus de Israel na história, despertando adoração, louvor, ação de graças. Os querubins exprimem a grandeza e onipresença de IHWH; os anjos na liturgia celeste são constante convite ao louvor e à adoração. Assim a angelologia está em função da teologia: só a Deus o louvor e a glória!

· Os nomes dos anjos, mais que exprimirem uma individualidade comunicam uma qualidade de Deus: sua força (Gabriel), sua unicidade (Miguel) e seu cuidado compassivo (Rafael). O vulto dos anjos é análogo ao vulto dos mártires da Igreja: resplandecem da glória que contemplam... que não é outra que a glória de Cristo!

· Todo discurso neotestamentário sobre os anjos deve ser visto num estreito vínculo com o evento Cristo, em relação à sua encarnação, sua presença operante na Igreja e sua vinda na glória.

· O serviço dos anjos a Cristo continua no serviço à Igreja e na Igreja (cf. At 5,20; 12,11; 8,26-29; 10,3; 1Cor 4,9). A sua colaboração no caminho histórico da humanidade continuará até que venha a Parusia do Senhor.

Desenvolvimento da angelologia cristã na teologia e no magistério

Os Padres, combatendo os gnósticos e suas hierarquias celestes, ressaltaram a criaturalidade dos anjos, sua total dependência em relação a Jesus Cristo e seu serviço à Igreja no contexto da economia salvífica. Importante era a percepção que as atividade dos anjos no Antigo Testamento destinava-se a preparar a vinda de Cristo; no Novo Testamento eles servem ao Reino de Deus e aos eleitos. É verdade também que na angelologia patrística foram introduzidos elementos do imaginário judaico extra-bíblico e, mais tarde, da demonologia helenista, sobretudo de fundo neoplatônico. Não se pode afirmar que tais elementos façam parte da fé comum da Igreja.

A doutrina da Escritura e da Tradição eclesial foi acolhida de modo normativo pelo IV Concílio de Latrão, em 1215. Aí se afirma dogmaticamente a existência dos anjos:

(O Deus uno e trino é) único princípio do universo, criador de todas as coisas visíveis e invisíveis, espirituais e materiais, que com a sua força onipotente desde o princípio do tempo criou do nada uma e outra ordem de criaturas: as espirituais e as materiais, isto é, os anjos e o mundo terrestre, e depois o homem, como participante de um e de outro, composto de alma e corpo[4].

O contexto da afirmação conciliar é de polêmica contra o dualismo cátaro. Deus é a única origem dos anjos: eles são criaturas!O documento conciliar, apesar da opinião contrária de alguns teólogos atuais, transforma a existência dos anjos em conteúdo de fé – esta é a opinião da grande maioria dos teólogos. O concílio Vaticano I reafirmou a doutrina do Lateranense, citando-o textualmente[5]. Outro texto significativo, apesar de não ser normativo dogmaticamente, é o Credo do Povo de Deus, professado pelo Papa Paulo VI em 1972:

Cremos em um só Deus, Pai, Filho e Espírito Santo, Criador das coisas visíveis, como este mundo, onde se desenrola a nossa vida passageira; Criador das coisas invisíveis, como os puros espíritos, que também denominamos Anjos...

O texto cita o Vaticano I que, como já vimos, remete ao Lateranense IV. É interessante a linguagem do documento: “puros espíritos, que também denominamos Anjos”... a marca da teologia escolástica é patente. A Escritura não fala primeiramente em puros espíritos, mas simplesmente em anjos (= mensageiros de Deus)! Seria, então, mais de acordo com a perspectiva da Escritura ter afirmado: “coisas invisíveis como os anjos, que acreditamos serem puros espíritos”. O documento é interessante à nossa análise por ser um pronunciamento atual sobre o tema. Uma coisa é certa: o magistério eclesial confirma e afirma a existência dos anjos.

Quanto à essência angélica, a doutrina mais antiga afirmava uma corporeidade sutil; depois Gregório de Nissa defendeu a não-corporeidade e pura espiritualidade angélica. Na Idade Média havia ainda disputa em torno do tema: Tomás de Aquino defendia a pura espiritualidade, enquanto a escola franciscana inclinava-se por afirmar uma corporeidade sutil. Hoje, a sentença mais comum entre os teólogos é a favor da pura espiritualidade angélica, apesar de haver teólogos como K. RAHNER que sustentam a opinião em favor de uma corporeidade sutil. O magistério eclesial não tem nenhum pronunciamento dogmático sobre este tema particular.

Quanto à personalidade, pelo que se pode apreender do dado revelado, os anjos possuem uma subjetividade, autodomínio e auto-transcendência. A tradição eclesial refuta reduzi-los a simples forças ou qualquer coisa do gênero. Como nome de anjos devem ser usados somente os três que ocorrem na Escritura. A consciência eclesial também rejeita o primitivo ensinamento sobre os anjos da natureza, encarregados particularmente pelos fenômenos do mundo natural. Que todo homem tenha um anjo da guarda não é até agora definido, mas esta é opinião comum na consciência eclesial desde os tempos antigos. Supondo uma pura espiritualidade angélica, constituirá sempre um mistério como isto é possível numa criatura, já que empiricamente só nos é acessível o ser vinculado à matéria. Os anjos seriam, por um lado, puros espíritos e, por outros, naturezas limitadas. Talvez uma indicação deste mistério esteja no fato de os anjos pertencerem ao Corpo de Cristo; deste modo sua natureza espiritual está inserida no corpo do Senhor e, por ele e nele, no cosmo, de modo análogo ao ser humano no estado intermédio entre a morte e a Parusia do Senhor. Podemos, neste caso, conjeturar que a finitude angélica expressa-se no fato de eles somente poderem refletir sobre si mesmos e dominar-se a si mesmos mediante o encontro com outras criaturas iguais. Cada anjo, ao comparar-se à pessoa do outro e dirigir-se a ele para depois voltar a si mesmo, realizaria sua própria existência. Esta espiritualidade pura não significaria falta de relação com a matéria: criados através de Cristo e para Cristo, inseridos no corpo de Cristo, eles estão ordenados à história da salvação e plenamente inseridos no plano salvífico de Deus. Assim, os anjos se auto-transcendem não somente em relação aos outros, mas também a Deus e ao mundo a ser salvo – mundo do qual eles próprios fazem parte! No que concerne à questão se os anjos estão agrupados em ordens distintas, não há nenhum pronunciamento normativos da Igreja sobre o tema. Quanto ao conhecimento angélico, sem querer entrar na especulação de escolas, podemos, seguindo a Escritura, afirmar uma força de penetração superior à nossa por parte dos anjos. A Escritura exprime tal convicção ao descrevê-los cobertos de inumeráveis olhos, como que afirmando que toda a sua essência é ver. Entretanto, os anjos são limitados e, como tais, não penetram nem as profundezas de Deus (cf. 1Cor 2,10) nem as profundezas do homem: este tem uma esfera íntima escondida aos próprios anjos. Sendo finitos, podemos conjeturar que os anjos podem crescer na sua ciência em relação à história salvífica. Em consonância com este saber superior está também sua vontade: por ser muito mais penetrante que a nossa e por sua força intelectiva, intuindo a transcendência de cada acontecimento, tomam suas decisões de modo simples e total, de modo que são irrevogáveis nas suas opções. A tradição bíblica e eclesial vê-los também numa intensa união com Deus, chamados que são ao diálogo e à comunhão com o Deus uno e trino: chamados pelo Pai através do Filho na potência do Espírito. É a resposta à autocomunicação de Deus em Cristo que os introduz ou não na plena comunhão com o Deus Trino, aquela comunhão denominada pela teologia clássica como “visão beatífica” (cf. Is 6,2; Dn 7,10; Mt 18,10).

Quanto às aparições angélicas, trata-se de um fenômeno de difícil, senão de impossível explicação. Certamente a teologia não deve se aventurar neste campo, sobretudo atualmente, quando sabemos o quanto o inconsciente humano é rico e complexo e temos consciência mais clara que a ação de Deus não é exterior, mas interior à própria estrutura natural! Poderíamos, como meras hipóteses conjeturar duas explicações: (1) o anjo produziria na psiché humana o conhecimento e o amor de acordo com o plano divino de salvação ou (2) o próprio Deus opera no homem, através dos anjos, determinados movimentos espirituais em conformidade com seu eterno plano salvífico. O homem, assim alcançado pela atividade divina, interpreta tematicamente a operação divina ao sabor de imagens da própria fantasia, certamente condicionada pela cultura e estrutura individual daquele sobre quem se deu a ação. Assim, a aparição do anjo – como qualquer fenômeno de “revelação” – não é puramente objetivo, mas constitui sempre uma objetivação do homem, sendo, portanto, a síntese de um suceder objetivo e de uma ativa experiência subjetiva, de modo que, como as revelações particulares dos místicos, requer sempre uma hermenêutica e uma purificação[6].