O Espírito, mestre da vida com Deus

I - A Pessoa do Espírito Santo

Conhecemos o Espírito Santo a partir da ressurreição do Senhor. Somente então descobrimos que ele não é simples força de Deus, mas uma Pessoa divina. Ele é Aquele no qual o Pai ressuscitou o Filho Jesus.

Antigo Testamento:

Aí, o Espírito aparece como a força, a energia, a vida e vitalidade do próprio Deus. Nele Deus criou tudo e tudo sustenta; nele os enviados de Deus podem agir segundo o desígnio do Senhor; nele, o ser humano encontra vida, força e sustento. O Messias (= ungido) será cheio do Espírito, será ungido por ele e irá derramá-lo sobre todo o povo de Israel e sobre toda a criação.

No princípio Deus criou o céu e a terra. A terra estava deserta e vazia, as trevas cobriam o abismo e o espírito do Senhor pairava sobre as águas (Gn 1,1-2.)

Descerei ali para falar contigo. Retirarei um pouco do espírito que há em ti e incutirei neles, para que te ajudem a carregar o fardo do povo e já não o suportes sozinho (Nm 11,17).

Então o espírito do Senhor apoderou-se de Gedeão e ele tocou a trombeta e convocou Abiezer a segui-lo (Jz 6,34).

Samuel tomou o chifre com o óleo e lhe deu a unção no meio dos irmãos. Em conseqüência o espírito do Senhor tomou conta de Davi desde este dia e também em seguida. A seguir Samuel se pôs a caminho e voltou para Ramá (1Sm 16,13).

Escondes a face, e estremecem;se retiras o seu alento, morrem e voltam ao pó.

Envias o teu espírito, e são recriados, e renovas a face da terra (Sl 104).

Aonde irei para estar longe de teu espírito?

Aonde fugirei para estar longe de tua face?

Se eu escalar os céus, aí estás; se me deitar no abismo, também aí estás.

Se me apossar das asas da aurorae for morar nos confins do mar, também aí tua mão me conduz,

tua destra me segura (Sl 139).

Acontecerá que os que restarem em Sião e os que forem deixados em Jerusalém serão chamados santos; todos os que estão inscritos para a vida em Jerusalém. Quando o Senhor tiver lavado a imundície das filhas de Sião e limpado o sangue do meio de Jerusalém pelo espírito de julgamento e pelo espírito de purificação, criará em todos os pontos do monte Sião e em toda sua assembléia uma nuvem, de dia, e um fumo e resplendor de fogo chamejante, de noite. Sim, sobre todas as coisas a glória do Senhor será um abrigo (Is 4,3ss).

Sairá um rebento do tronco de Jessé, e de suas raízes brotará um renovo.

Repousará sobre ele o espírito do Senhor, espírito de sabedoria e discernimento,

espírito de conselho e fortaleza,espírito de conhecimento e temor do Senhor .

Ele se inspirará no temor do Senhor (Is 11,1ss).

Eis meu servo a quem apóio, meu eleito, ao qual quero bem!

Pus nele meu espírito;

ele levará o direito aos povos (Is 42,1).

O espírito do Senhor Deus repousa sobre mim, porque ele me ungiu.

Enviou-me para levar uma boa-nova aos pobres, medicar os homens descoroçoados,

proclamar aos cativos a libertação e aos prisioneiros a abertura do cárcere,

para proclamar o ano da mercê do Senhor e o dia da vingança para nosso Deus;

para dar conforto a todos os que estão de luto, para entregar aos enlutados de Sião

um turbante festivo em lugar do pó, óleo de alegria em lugar de luto,

vestido de festa em lugar de espírito deprimido, de modo que sejam chamados “carvalhos da justiça,

plantados para a glória do Senhor” (Is 61,1-3).

Incutirei o meu espírito dentro de vós e farei com que andeis segundo minhas leis e cuideis de observar os meus preceitos. Habitareis no país que dei a vossos pais. Sereis o meu povo e eu serei o vosso Deus.

Eu vos libertarei de todas as vossas imundícies. Mandarei que o trigo seja abundante e já não vos imporei fome. Multiplicarei os frutos das árvores e os produtos do campo, para que não mais suporteis a ignomínia da fome entre as nações. Então vos lembrareis de vossa má conduta e de vossas práticas funestas, e sentireis repugnância de vós mesmos por causa de vossas culpas e abominações (Ez 36,27-31).

Depois derramarei o meu espírito sobre toda carne.

Vossos filhos e filhas profetizarão, vossos anciãos terão sonhos, vossos jovens terão visões.

Mesmo sobre os escravos e sobre as escravas derramarei o meu espírito naqueles dias.

Colocarei sinais no céu e na terra, sangue, fogo e colunas de fumaça!”

O sol se transformará em trevas, a lua em sangue, antes que chegue o dia do Senhor,

grande e terrível!

Então, todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo (Jl 21-5).

Novo Testamento

Foi o Espírito quem ressuscitou Jesus dentre os mortos:

Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado a ser apóstolo, escolhido para o Evangelho de Deus, que pelos profetas havia prometido nas Santas Escrituras, acerca de seu Filho, nascido da descendência de Davi segundo a carne, constituído Filho de Deus, poderoso segundo o Espírito de santidade a partir da ressurreição dos mortos, Jesus Cristo Nosso Senhor (Rm 1,1-4).

Não pode haver dúvida de que é grande o mistério da piedade:

“Ele foi manifestado na carne, foi justificado no espírito, contemplado pelos anjos, pregado às nações,

acreditado no mundo, exaltado na glória!” (!Tm 3,16)

Tal ressurreição é uma nova criação: “tudo será criado e renovarás a face da terra!” Cheio do Espírito Santo que agora o povoa e transfigura totalmente, Jesus é o homem novo, princípio de uma nova humanidade e de uma nova criação:

Na tarde daquele mesmo dia, o primeiro depois do sábado, estando trancadas as portas do lugar onde estavam os discípulos, por medo dos judeus, Jesus chegou, pôs-se no meio deles e disse: “A paz esteja convosco”. Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos se alegraram ao ver o Senhor. Jesus disse-lhes de novo: “A paz esteja convosco. Como o Pai me enviou, assim também eu vos envio”. Após essas palavras, soprou sobre eles e disse: “Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados serão perdoados. A quem não perdoardes os pecados não serão perdoados” (Jo 20,19ss).

Vi um céu novo e uma terra nova, porque o primeiro céu e a primeira terra haviam desaparecido e o mar já não existia. Vi a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu do lado de Deus, ornada como uma esposa se enfeita para o esposo. Ouvi uma voz forte do trono, que dizia: “Eis a tenda de Deus entre os homens. Ele levantará sua morada entre eles e eles serão seu povo e o próprio Deus-com-eles será o seu Deus. Enxugará as lágrimas de seus olhos e a morte já não existirá nem haverá luto nem pranto nem fadiga, porque tudo isso já passou”.

E aquele que estava sentado no trono, disse: “Eis que eu faço novas todas as coisas” (Ap 21,1-5).

É assim que a Igreja fez a experiência do Espírito. Agora, à luz da ressurreição, a Igreja apostólica compreende como este Espírito já estava presente na vida de Jesus:

a) É na potência do Espírito que o Pai envia o Filho:

O Espírito Santo virá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; por isso o Santo que nascer será chamado Filho de Deus (Lc 1,32).

b) É ainda o Espírito que vai irradiando a alegria messiânica por onde Jesus passa:

Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança lhe estremeceu no ventre e Isabel ficou repleta do Espírito Santo. Com um grande grito, exclamou... (Lc 1,41s).

Zacarias, seu pai, repleto do Espírito Santo, profetizou: ‘Bendito seja o Senhor, Deus de Israel’... (Lc 1,67).

Movido pelo Espírito, ele (Simeão) veio ao Templo... ele o tomou nos braços e bendisse a Deus... (Lc 2,27).

c) No batismo de Jesus, hora da sua vocação messiânica, é o Espírito do Pai quem o unge como messias:

No momento em que Jesus, também batizado, achava-se em oração, o céu se abriu e o Espírito Santo desceu sobre ele em forma corporal, como pomba. E do céu veio uma voz: ‘Tu és o meu Filho; eu hoje te gerei’ (Lc 3,21s).

d) É o Espírito quem o conduz ao deserto para ser tentado:

Jesus, pleno do Espírito Santo, voltou do Jordão; era conduzido pelo Espírito através do deserto...» (Lc 4,1). «E logo o Espírito o impeliu para o deserto...» (Mc 1,12). «Então Jesus foi levado pelo Espírito para o deserto para ser tentado pelo diabo (Mt 4,1).

e) Também na Transfiguração, o Espírito está presente na nuvem que envolve Jesus e os discípulos (cf. Mc 9,1-8; Mt 4,1-11; Lc 4,1-13). Vê-se que tanto nos momentos de sombra quanto nos de luz, é o Espírito quem guia Jesus na sua atitude de total filiação em relação ao Pai. O próprio João Batista já havia atestado isso:

Vi o Espírito descer do céu como uma pomba e permanecer sobre ele. Eu não o conhecia, mas aquele que me enviou para batizar com água, disse-me: ‘Aquele sobre quem vires o Espírito descer do céu e permanecer é que batiza no Espírito Santo. E eu vi e atesto que ele é o Filho de Deus! (Jo 1,32-340).

Um outro texto indica esta mesma idéia:

Naquele momento, ele exultou de alegria sob a ação do Espírito Santo e disse: ‘Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste essas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado. Tudo me foi entregue por meu Pai e ninguém conhece quem é o Filho senão o Pai, e quem é o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar (Lc 10,21-23).

Estes textos fazem perceber o quanto a experiência filial de Jesus, sua relação com o Abbá é, contemporaneamente, pneumática (= no Espírito), pis é o Espírito que une o Filho ao Pai.

f) Também a sua missão messiânica, é por ele compreendida como totalmente vivida no Espírito:

Jesus, pleno do Espírito Santo, voltou do Jordão; era conduzido pelo Espírito através do deserto... (Lc 4,1).

Jesus voltou então para a Galiléia, com a força do Espírito, e sua fama espalhou-se... (Lc 4,14).

O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu... (Lc 4,18).

g) Essa foi também a compreensão da Igreja primitiva:

Sabeis o que aconteceu por toda a Judéia: Jesus de Nazaré, começando pela Galiléia, depois do batismo proclamado por João, como Deus o ungiu com o Espírito Santo e com poder, ele passou fazendo o bem e curando a todos, porque Deus estava com ele (At 10,37s).

h) Sobretudo no mistério pascal essa presença do Espírito faz-se notar mais fortemente:

Cristo,... por um Espírito eterno, se ofereceu a si mesmo a Deus como vítima sem mancha... (Hb 9,14).

i) É no Espírito filial que o Filho se entrega ao Pai. Mais ainda: entrega, confiantemente, o próprio Espírito: E inclinando a cabeça, entregou o Espírito (Jo 19,30).

Jesus deu um grande grito: ‘Pai, em tuas mãos entrego o meu Espírito!’ (Lc 23,46).

j) No Espírito o Filho desce aos infernos, pois Jesus somente desce ao reino dos mortos porque entrega ao Pai o Espírito de vida (cf. 1Pd 3,18s).