Carta aos sacerdotes

Amados Irmãos sacerdotes de Cristo,

Estamos no Ano Sacerdotal, querido pelo Santo Padre Bento XVI, porque com seu coração de sábio e prudente Pastor da Igreja de Cristo, vê claramente as tremendas dificuldades e desafios de ser padre na época presente.

Desafios? Sim! Além dos de sempre, da luta interior contra nossas tendências desencontradas - herança de filhos de Adão -, aqueles outros, decorrentes de um mundo secularizado, cada vez mais descristianizado e que tudo relativiza: Deus, o seu Cristo, a sua Igreja, a doutrina e a moral católicas... Parece que tudo pode ser barganhado e tratado na brincadeira!

E os sacerdotes não são caídos do céu: são filhos deste tempo, com as tentações deste tempo, as fraquezas deste tempo e, no entanto, agora, neste tempo, devem ser homens do céu, testemunhas da eternidade!

Por isso o Ano Sacerdotal: para fomentar e aprofundar nos sacerdotes a consciência da dignidade, da responsabilidade de sua vocação e de seu ministério; para fomentar no Povo de Deus uma consciência mais profunda de quão divino e quão humano deva ser o sacerdote...

E, precisamente, no Ano Sacerdotal, a imprensa divulga velhos e já conhecidos escândalos perpetrados por alguns membros do clero, com o único fito de desacreditar o Santo Padre e a Igreja de modo geral. Além do mais, alguns fatos recentes, bem concretos e dolorosamente verídicos, dentre os quais o escândalo lastimável, inominável na Igreja diocesana de Penedo (minha Igreja Mãe, na qual fui batizado, crismado e na qual recebi pela primeira vez o sagrado Corpo do Senhor; Igreja de tantos sacerdotes exemplares e de tão piedoso Povo de Deus!).

Quantos bons sacerdotes tenho ouvido nestes dias, entristecidos e envergonhados. Quantos desanimados!

A vós, queridos sacerdotes, queria dizer uma palavra como Bispo da Igreja de Cristo. Nunca vos envergonheis do santo ministério ao qual o Senhor vos chamou! Nunca deixeis que a má conduta vergonhosa e reprovável de uns poucos, tão gozosamente divulgada por um mundo sedento de escândalos, vos faça esquecer a multidão de tantos sacerdotes santos, que com amor, com dedicação admirável, entregam toda a vida, de corpo e alma, ao serviço de Cristo e dos irmãos! Que a infidelidade ao celibato e a vulgaridade grosseira de alguns, tão abertamente reveladas nestes dias, não vos façam esquecer a beleza e o profundo sentido do estilo de vida ao qual o Senhor nos chamou: solteiros pelo amor de Jesus, solteiros pelo Reino dos Céus, solteiros porque imagem do Esposo da Igreja, solteiros para a todos chamar de filhos em Cristo verdadeiramente e sem limites!

Queridos sacerdotes, o Senhor vos chamou, o Senhor vos ungiu, o Senhor vos consagrou! Não vos esqueçais nunca que do vosso – do nosso – sacerdócio faz parte a participação na cruz de Cristo! Neste momento de prova e de dor para tantos de vós que, inocentemente, talvez sintais a desconfiança imotivada e preconceituosa de alguns, fixai o vosso olhar nAquele que por nós sofreu tão grande contradição: Jesus, o autor e consumador da nossa fé. Ele é tão belo! Quando nos fixamos nele, o mais amargo se torna doce e toda a treva se dissipa...

Pensando em vós, amados em Cristo, vêm-me frequentemente à mente duas palavras da Escritura Sagrada: uma do Apóstolo:

(1) “Julgo que Deus nos expôs em último lugar como condenados à morte: fomos dados em espetáculo ao mundo, aos anjos e aos homens. Somos loucos por causa de Cristo, vós, porém, sois prudentes em Cristo; somos fracos, vós, porém, sois fortes; vós sois bem considerados, nós, porém, somos desprezados. Somos amaldiçoados, e bendizemos; somos perseguidos, e suportamos; somos caluniados, e consolamos. Até o presente somos considerados como o lixo do mundo, a escória do universo” (1Cor 4,9-13). Não quero ser ou parecer dramático com estas palavras nem desejo que assumamos uma atitude vitimística! Mas, desejo que compreendais que esta situação na qual tantos e tantos de vós, zelosos e fieis sacerdotes, vos encontrais cheios de embaraço e talvez de desânimo, faz parte do nosso ministério. Não é à toa que nos propomos seguir o Cristo! A escolha dele e a resposta nossa têm conseqüências muito concretas e, por vezes, dolorosas em nossa vida! Como o santo Apóstolo, nas palavras acima, não vos canseis de abençoar, de suportar, de consolar! Não vos canseis de ser sinal da presença santa e santificadora de nosso Salvador nesta terra de exílio, sem buscardes outra recompensa que não o próprio Senhor, nosso Amigo, que nos chamou!

(2) A outra palavra que me tem vindo à mente e ao coração é do nosso Jesus: “Vós sois os que permanecestes constantemente comigo em minhas tentações; também eu disponho para vós o Reino, como o meu Pai o dispôs para mim a fim de que comais e bebais à minha mesa em meu Reino,” (Lc 22,28-30). Permanecer com Jesus – eis a nossa sina, a nossa herança, a nossa cruz e a nossa maior honra; eis a nossa alegria! Convido-vos, queridos padres, a que mantenhais os olhos fixos no Senhor e aproveiteis este momento de prova e de purificação, como um chamado do Senhor a uma maior conversão a ele! Convido-vos, como vosso irmão e Bispo da Igreja, a que vos mantenhais profundamente unidos a Jesus e a nele encontrar a motivação, o entusiasmo e a alegria da vossa vocação!

São Paulo nos diz que “Deus coopera em tudo para o bem daqueles que o amam” (Rm 8,27). Nesta situação, que nos deixa perplexos e entristecidos ao constatar a triste e grosseira infidelidade de alguns que deveriam ser sinais da santidade e da benignidade do Senhor Jesus, não vos deixeis abater, mas senti-vos ainda mais interpelados e impelidos a uma vida de santidade e coerência, como dispensadores dos mistérios de Deus (cf. 1Cor 4,1).

Certamente, que sentis também o belíssimo testemunho de fé e de carinho de tantos membros do Povo de Deus, que sabem poder contar com seus pastores e neles confiar! Aliás, os católicos praticantes, aqueles que estão diuturnamente nas nossas comunidades, sabem apreciar a beleza do sacerdócio e a grandeza dos sacerdotes, apesar de trazermos este tesouro em vasos de argila (cf. 2Cor 4,7). Desses leigos tão generosos e fieis, quanto tendes recebido de apoio e incentivo! Sejam eles uma palavra e um carinho de Cristo para todos vós!

Queridos irmãos sacerdotes, acolhei esta minha palavra de confiança em vós, de apoio, de conforto, de solidariedade! Sei do vosso valor e da vossa grandeza, da vossa generosidade e das vossas tribulações. Por isso senti-me impelido a escrever-vos de modo público para vos testemunhar todo o meu afeto no Senhor! Sei que este é o sentimento de todos os meus irmãos no Episcopado! Penso, portanto, também fazer-me intérprete do sentimento que todos eles nutrem por vós, nossos diletos cooperadores.

Que Cristo Jesus vos abençoe, vos conceda a graça da fecundidade espiritual e vos faça cada vez mais santos e dedicados pastores do rebanho do Senhor!

Com todo o meu afeto paterno

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