A Igreja católica e as igrejas ortodoxas

Alguns internautas pediram-me um comentário sobre a Declaração de Ravena (2007), na qual nossos irmãos ortodoxos reconhecem que o Papa, como Bispo de Roma é o Prótos, o Primus, isto é o Primeiro dentre os Patriarcas da Igreja.

Assim como os vários Bispos reúnem-se em torno de um Arcebispo Metropolitano e os diversos Arcebispos reúnem-se em torno de um Patricarca, do mesmo modo, os vários Patriarcas têm seu ponto de comunhão no Bispo de Roma. Esta seria, mais ou menos, a configuração da Igreja no Primeiro Milênio do cristianismo, antes da separação entre Oriente e Ocidente...

Ora, tal declaração do encontro de Ravena certamente é importante enquanto significa um degelo entre católicos e ortodoxos e também enquanto marca um ponto sem volta: os Patriarcas orientais voltam a reconhecer explicitamente que o Bispo de Roma é o primus inter pares (o primeiro entre os iguais).

Contudo, é de notar o seguinte:

1. Este reconhecimento sempre existiu na Igreja, mesmo entre os ortodoxos. Ainda nos piores momentos das relações Oriente-Ocidente, nunca os Bispos ortodoxos negaram que a Primeira Sede era aquela de Roma (ou da Antiga Roma, como eles gostam de dizer, para distinguir da Nova Roma, que seria Constantinopla). A novidade dessa Declaração de Ravena não está no conteúdo, mas na solenidade da declaração conjunta e unânime.

2. O problema, no entanto, persiste: Para os ortodoxos, o papel do Papa é somente o de uma coordenação de honra. Eles não aceitam que o Sucessor de Pedro tenha um poder de jurisdição sobre toda a Igreja nem que seja infalível no seu magistério ex cathedra.

3. Mais grave ainda é a questão da fundamentação do primado do Papa. Para os ortodoxos, a posição primacial do Bispo de Roma não deriva do fato teológico de ele ser o Sucessor de Pedro (coisa que eles reconhecem tranqüilamente), mas do fato apenas histórico de Roma ter sido a capital do Império. É triste isto, porque reduz-se o fundamento da autoridade papal a uma eventualidade histórica, retirando-lhe o significado teológico. Além do mais, mostra o quanto o Oriente não conseguiu desvencilhar-se da idéia de uma Igreja do Império (romano)...

Como se vê, o caminho a ser caminhado é longo... muito longo... O que se poderia, concretamente propor para uma comunhão plena entre a Igreja católica e as igrejas ortodoxas? Aquilo que o teólogo Joseph Ratzinger sempre propôs, e que é factível:

1. Nós, católicos, não exigiríamos dos ortodoxos mais do que eles aceitavam sobre o Papa antes da separação, em 1054. Eles aceitariam o primado do Bispo de Roma e um certo exercício efetivo da autoridade papal. Por exemplo: confirmar as eleições dos Bispos orientais e convocar e aprovar concílios ecumênicos, dirimir questões graves que toquem à fé e à unidade da Igreja.

2. Os ortodoxos, por sua vez, reconheceriam que a evolução da doutrina sobre o papado acontecida no Ocidente depois da separação é legítima e não é contra a Tradição apostólica, mas um seu natural desenvolvimento.

O ponto de equilíbrio seria encontrado posteriormente, na fraterna convivência e na plena comunhão de fé, sacramentos e disciplina. Como se pode ver, não seria de todo impossível o caminho da comunhão plena entre a Igreja e os ortodoxos...

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