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Homilia para o XXI Domingo Comum - ano B

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Js 24,1-2a.15-17.18b
Sl 33
Ef 5,21-32
Jo 6,60-69

Nenhum cristão jamais poderá dizer que foi enganado pelo Senhor! Deus nunca Se mascarou para nós, nunca nos falou palavras agradáveis para nos seduzir, nunca agiu como os nossos políticos; Deus não usa maquiagem! Ele é um Deus verdadeiro, leal, honesto! Não esconde Suas exigências, não omite Suas condições para quem deseja segui-Lo e servi-Lo...

Escutamos na primeira leitura de hoje Josué mandando o povo escolher: seguir os ídolos, que são de fácil manejo, que não exigem nada ou, ao invés, seguir o Senhor, que é exigente, que é Santo e corrige os que Nele esperam? O próprio Josué dirá: “Não podeis servir ao Senhor, pois ele é um Deus santo, um Deus ciumento, que não tolerará as vossas transgressões, nem os vossos pecados!” (Js 24,19)
Vede, meus caros, que o nosso Deus não Se preocupa com popularidade, não faz conta do número de fieis, não abranda Suas exigências para ser aceito, mas sim, faz conta da fidelidade ao Seu amor e ao Seu chamado!

O que aparece na primeira leitura torna-se ainda mais claro e dramático no Evangelho. Após dizer claramente que Sua Carne é verdadeira comida e Seu Sangue é verdadeira bebida, muitos discípulos se escandalizaram com Jesus (há cristãos que ainda hoje se escandalizam e não creem nesta Palavra do Salvador...).
E Jesus, o que faz? Muda Sua Palavra? Volta atrás no ensinamento para ser popular, para ser compreendido e aceito, para encher as igrejas? Não! Popularidade, aceitação, bom-mocismo nunca foram Seus critérios! Ainda que Sua palavra escandalize, Ele nunca volta atrás. O Senhor nunca Se converte a nós; nós é que devemos nos converter a Ele! Pode-se manipular os ídolos; nunca o Deus verdadeiro!

É importante prestar atenção! Diante dos discípulos escandalizados e murmuradores, que faz Jesus? Apresenta o critério decisivo: a Cruz!
Escutai, irmãos, o que diz o Senhor: “Isto vos escandaliza? E quando virdes o Filho do Homem subindo para onde estava antes?” Lembremo-nos que, para o Evangelho de São João, a subida de Jesus para o Pai começa na Cruz: ali Ele será levantado!
Vede bem, meus irmãos, que não poderá seguir o Senhor, não poderá suportar as palavras do Senhor, aquele que não estiver disposta a contemplá-Lo na Cruz! E Jesus previne: “O Espírito é que dá Vida; a carne não adianta nada! As palavras que vos falei são Espírito e Vida!” Compreendei, caríssimos meus: somente se nos deixarmos educar pelo Santo Espírito, somente se deixarmos os pensamentos e a lógica à medida da carne, isto é, à medida da mera razão humana, é que poderemos compreender as coisas de Deus, coisas que passam pela Cruz de Cristo! Quando se trata do escândalo do Evangelho, “a carne não adianta nada”, a lógica humana não conta!
Não nos iludamos: entregues à nossa própria razão, pensaremos como o mundo e jamais acolheremos Jesus e Suas exigências! Como compreender um Amor – aquele do Verbo feito carne – que Se entrega eucaristicamente, que Se dá todo, que Se esconde em aparências tão triviais, tão humildes como o pão e o vinho porque Se escondeu na nossa pobre carne humana, nos insossos dias de uma vida como a nossa ao Se fazer homem?
E, no entanto, o Senhor continua: “É por isso que vos disse: ninguém pode vir a Mim, na existência e no Altar, a não ser que lhe seja concedido por Meu Pai!” Vede bem, meus caros: acolher Jesus, compreender Suas palavras e acolhê-las, por quanto sejam difíceis e duras, é graça de Deus e somente abertos para a graça poderemos realizá-lo!
Como acolher a linguagem da Cruz, sem mudar de vida? Como acolher as exigências do Senhor, sem a conversão do coração, sem nos deixarmos guiar pela imprevisível liberdade do Santo Espírito? Quando isso acontece, experimentamos como o Senhor é bom, o quanto é suave, o quando é doce segui-Lo! Assim, o mesmo Espírito de Cristo que transfigura o pão e o vinho na Carne e no Sangue do Senhor imolado e ressuscitado, nos transfigura, em cada comunhão, dando-nos os sentimentos de Cristo, as atitudes de Cristo, a vida de Cristo!

Um belíssimo exemplo disso, a Palavra de Deus nos dá hoje recordando a vida da família cristã. São Paulo pensa o lar cristão como uma pequena comunidade de discípulos de Cristo, plasmada no Espírito de Cristo, plasmada eucaristicamente, uma pequena Igreja e dá conselhos estupendos! O sentimento que deve nortear o comportamento familiar é o amor. Que amor? O das músicas e das novelas? Não! Aquele amor manifestado na Cruz, aquele entre Cristo e a Igreja! Que beleza, que desafio, que sonho: marido e mulher se amando como Cristo e a Igreja se amam, marido e mulher sendo felizes na felicidade um do outro: “Sede solícitos uns para com os outros!” Marido e mulher que se tornam uma só carne no amor, como Cristo e a Igreja em cada Eucaristia, quando o Esposo Cristo dá Sua Carne à Esposa Igreja, e os dois se tornam uma só carne!

Para o cristianismo, meus caros, a família cristã não é primeiramente uma instituição humana, mas uma instituição divina, um sacramento da Igreja. Mais ainda: a família é a primeira Igreja, a primeira comunidade de irmãos em Cristo. Ali, é Jesus Quem deve reinar, ali é o santo e doce temor de Deus quem deve regular a convivência. Que desgraça hoje em dia a paganização, a secularização, a banalização da família cristã!
Atentos, cristãos: a família é santa, a família é sagrada, a família não pode ser profanada pelo desamor, pela indiferença, pela imoralidade, pela violência, pelo consumismo, pela opressão, pela divisão, pela vulgarização! Que beleza, meus caros, um homem e uma mulher unidos no amor com a bênção do Senhor gerando filhos, gerando amor feito carne, feito gente, para o mundo, para a Igreja, para a vida! Este é o sonho do Senhor para a família! Este e só este! Aos olhos de Deus, não há outra forma legítima e aceitável de união familiar! Um homem, uma mulher; um esposo, uma esposa e os filhos, e outros ainda, que a Providência de Deus e o amor que acolhe for agregando a essa comunidade doméstica – eis o sonho, eis a bênção, eis a felicidade quando se vive isso de acordo com o amor de Deus em Cristo! Que bênção a convivência familiar! Que doçura poder partilhar as alegrias e tristezas, as lutas e dificuldades num lar cristão, onde juntos se reza, juntos partilham, juntos vencem-se as dificuldades! São Paulo, encantado com essa realidade, exclama: “É grande este mistério!” Que mistério? O mistério do amor entre marido e mulher, da sua união que gera vida, que é doçura e complementaridade. E o Apóstolo continua: “E eu o interpreto em relação a Cristo e à Igreja!” Atenção! São Paulo está dizendo que a comunhão familiar é imagem da comunhão entre Cristo e a Igreja!

É fácil, caríssimos, viver a família assim? Não! Como não é fácil levar a sério a Palavra do Senhor! E Jesus, mais uma vez, nos pergunta: “Isto vos escandaliza?” Escandaliza-vos o matrimônio ser indissolúvel? Escandaliza-vos a fidelidade conjugal? Assusta-vos o dever de gerar filhos com generosidade e educá-los com amor e firmeza? “Quereis também ir embora?”

Caríssimos, que nossa resposta seja a de Pedro, dada em nome dos Doze e de todos os discípulos: “A quem iremos, Senhor? Caminhar contigo não é fácil; acolher Tuas exigências nos custa; compreender Teus motivos às vezes é-nos pesado; comungar, na Tua Eucaristia, Contigo imolado, dado, e, assim, dar, entregarmos nós mesmos a própria vida... Mas, a quem iremos? Só Tu tens palavras de Vida eterna. Nós cremos firmemente e reconhecemos que Tu és o Santo de Deus!”. Que as palavras de Pedro sejam as nossas e, como Josué, possamos dizer: “Eu e minha família serviremos o Senhor!” Amém. 

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