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Meditação XIV - sexta-feira da II semana da Quaresma

March 24, 2019

Reze o Salmo 118/119,105-112

Leia, agora, Gl 3,15-18

 

1. São Paulo continua insistindo sobre seu argumento: a fé, que acolhe a promessa de Deus, é que nos dá a graça da justificação, não as obras de Lei de Moisés. Tome o v. 15: agora, nesta perícope, o Apóstolo usa a ideia do “testamento”. Em grego, diathéke significa ao mesmo tempo aliança e testamento. Partindo deste duplo significado, ele desenvolve o seu raciocínio: Deus fez a Abraão uma promessa, um testamento em forma de aliança. Leia novamente Gn 15,1-18a. Aí aparecem realmente a promessa de Deus de dar a Abraão um descendente, o Isaac-Cristo, aparece a fé de Abraão na promessa divina, fazendo-o justo diante de Deus e, finalmente, a conclusão do encontro entre o Senhor Deus e Abraão com a aliança selada nos animais mortos e no braseiro fumegante. Resumindo: Deus selou uma aliança com Abraão, garantindo a veracidade e validade da promessa que lhe havia feito.

Reflita um momento: o Senhor Deus é bom, o Senhor Deus é generoso, o Senhor Deus é fiel, é veraz: quando promete não engana nunca! Reze o Sl 32/33

 

2. Vamos, agora, ao v. 16. Utilizando um raciocínio bem próprio da exegese antiga, o Apóstolo recorda que Deus fez a promessa “a Abraão e à sua Descendência”. Aqui, ele aproveita o fato de “descendência” está no singular e concentra toda a descendência de Abraão, isto é, todo o Povo de Israel, em Cristo! Esta é uma ideia preciosa, muitas vezes presente nas Escrituras: um que representa e concentra em si os muitos. Por exemplo: Adão, que concentra em si toda a humanidade; Jacó, que concentra em si todo o Israel; o Servo Sofredor, que concentra em si todo o Israel e toda a humanidade pecadora; Cristo, que concentra em Si toda a Igreja.

Ora, Cristo é a razão de ser de Israel, o Povo nascido de Abraão, o Povo prometido ao nosso pai na fé. Esta ideia aparece também no Evangelho de São João: no Antigo Testamento, Israel é a vinha de Deus, é Sua videira (cf. Is 5,7; Sl 79/80), videira provisória, figura da verdadeira e definitiva vinha, que deveria vir. Em Jo 15,1, Jesus nosso Senhor Se revela como a “Videira verdadeira” isto é, definitiva, da qual a primeira videira, Israel, era somente imagem, profecia, figura e preparação! Assim, coincidindo com a visão de São Paulo, o Quarto Evangelho afirma que Jesus é realmente o verdadeiro Israel, a verdadeira videira e, portanto, verdadeira Descendência de Abraão, que traz em Si e plenifica o Israel segundo a carne!

Portanto, as promessas do Senhor Deus a Abraão e à sua descendência concretizam-se em Cristo, “personalidade corporativa” (pessoa única que concentra em si a multidão) de Israel e, principalmente, da Igreja: o Senhor Jesus Cristo não só é ponto de chegada, realização e plenitude do Antigo Israel, como é também princípio, origem e realidade na qual subsiste e encontra o ser e o sentido o Novo Israel, que é a Igreja, Corpo do qual Cristo é Cabeça (cf. Cl 1,18).

 

3. Todo este belo raciocínio de São Paulo e do Quarto Evangelho nos convidam a nunca esquecer que somente em Cristo a Escritura encontra seu sentido último, definitivo, verdadeiro e pleno! Como vimos na meditação passada, até os judeus afirmam isto sobre o Messias: somente ele desvelaria o sentido último da Lei de Moisés! Pois bem, o é nosso Senhor Jesus Cristo! Nele a Escritura e o desígnio do Senhor Deus para a humanidade e a criação inteira encontra seu foco, seu sentido e sua realização!

Medite na profunda afirmação de Hb 1,1-4! Cristo é a Plenitude de tudo porque vem de Deus, sendo Ele mesmo divino, superior a toda criatura!

 

4. Finalmente, os vv. 16s tratam da relação entre a Lei de Moisés e a promessa feita a Abraão: a promessa como dom gratuito acolhido pela fé em Isaac-Cristo e a Lei como cumprimento de preceitos, de obras. Primeiro fora feita a promessa, no tempo dos Patriarcas, quando ainda não existia o Povo de Israel. Somente depois, quando de Abraão veio Isaac, de Isaac veio Jacó, apelidado de Israel e, deste último, os doze filhos que originaram as doze tribos do Povo de Israel, é que a Lei fora dada no Sinai. Baseando-se em Ex 12,40s, Paulo faz um cálculo aproximado de quatrocentos e trinta anos de diferença entre a promessa a Abraão e o dom da Lei no Sinai por meio de Moisés. Ele, então, raciocina: uma Lei vinda quatro séculos depois, não pode invalidar a promessa de Deus! Além do mais, a Lei fora dada a Israel pelo ministério dos anjos (cf. Gl 3,19), enquanto a promessa fora feita pelo próprio Deus (cf. Gl 3,17). Resultado: a graça de Deus, Seu dom prometido a Abraão, é Cristo-Isaac, fruto e cumprimento da promessa e não depende de modo algum das obras de uma Lei dada posteriormente, “porque se a herança vem pela Lei, já não é pela promessa. Ora, é pela promessa que Deus agraciou a Abraão” (v. 18) e, através dele a toda a humanidade na sua Descendência que é Cristo (cf. Gn 12,3)! Portanto, os gálatas não deviam dar ouvidos aos cristãos judaizantes, que, a ferro e fogo, queriam fazer os cristãos gentios cumprirem a Lei de Moisés, pois as promessas da Aliança não dependem do cumprimento das obras da Lei. Estas obras poderiam valer para a Aliança do Sinai, para o Povo de Israel, como preparação para Cristo, cumprimento das promessas e plenitude da Lei, mas não para os cristãos fossem vindos da gentilidade ou do judaísmo! A realidade agora é a fé em Cristo, o verdadeiro Isaac, cumprimento pleno de todas as promessas do Pai!

 

5. Leia e medite o texto de Mt 2,1-12. Veja:

a) os pagãos vêm de longe, como Abraão que partiu de sua terra, do Oriente, procurando o Rei dos Judeus.

b) o Israel segundo a carne, representado por Jerusalém e seus doutores, não crê e não vai à procura do Menino.

c) os Magos seguem a estrela do Menino, iluminados pela fé.

d) Jerusalém não crê e não encontra o Menino; os Magos pagãos creem e O encontram e O adoram.

e) Depois, voltam por outro caminho e não mais entram em Jerusalém, no judaísmo...

 

Agora reze o Sl 116/117, que convida todos os povos a louvar a Deus! Reze também o Sl 97/98.

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