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Homilia para a Solenidade da Ascensão do Senhor - Ano C

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At 1,1-11

Sl 46

Ef 1,17-23

Lc 24,46-53

 

Celebramos hoje a Ascensão do Senhor: Cristo não somente foi ressuscitado pelo Pai, que derramou sobre Ele o Espírito Santo, Senhor que dá a Vida, mas também, neste mesmo Espírito, recebeu do Pai, como verdadeiro homem, todo o poder no Céu e na terra. É este o sentido da festa de hoje. Mas, vejamo-lo por partes, Irmãos, para, na medida de nossas pobres forças, contemplar este Mistério da nossa salvação!

 

Cristo Jesus, ao ressuscitar, saiu da morte e entrou na Glória do Pai.

A Ressurreição e a Ascensão são dois momentos, dois aspectos de um único acontecimento, de um admirável e estupendo Mistério: a glorificação do Cristo feito homem e entregue à morte para a nossa salvação.

Não pensemos que Jesus nosso Senhor ressuscita, passa quarenta dias aqui na terra e, somente depois, vai para o Pai. Não! Ele já ressuscita no Pai; Sua Páscoa é, precisamente, passar deste mundo, atravessando o vale da morte, para entrar no Pai, saindo da morte, deixando-a para trás definitivamente.

O que os Atos dos Apóstolos narram na primeira leitura de hoje, não é a ida do Senhor Jesus ao Pai – esta á ocorrera com a Ressurreição, pois que Ele ressuscitara no Pai, na Glória do Pai... Agora, trata-se da despedida solene do Cristo Jesus, ao fim daquele período de encontros do Ressuscitado com os Seus logo após a Ressurreição.

 

Então, qual a diferença entre a Ressurreição e a Ascensão?

Na Ressurreição, contemplamos o Cristo totalmente glorificado pelo Pai na força do Espírito. Toda a Sua natureza humana, corpo e alma, foi divinizada, impregnada pela Vida divina, que é o Espírito Santo. O Senhor Jesus, agora, é um homem totalmente novo, totalmente “espirituado”, totalmente glorificado, divinizado na Sua humanidade. É este o mistério da Ressurreição.

Mas, há mais: ao ser glorificado, Ele, que é uma Pessoa divina, foi entronizado com todo o poder no Céu e na terra: Ele, ressuscitado, foi constituído Senhor do universo, Senhor da história, Senhor da nossa vida. É isto que a Escritura e a Tradição querem dizer ao afirmar que Ele está “sentado à direita de Deus Pai”: Ele, feito homem, tem o mesmo poder do Pai, Ele recebeu o senhorio sobre tudo.

Mas, não já o tinha antes? Não! Tinha como Verbo eterno e divino; mas, agora, é o Verbo como Filho feito homem que recebe tal poder! É este o significado da Ascensão. Um de nossa raça está dentro da Trindade, um de nossa raça é Senhor do Céu e da terra, um de nossa raça é Senhor dos anjos, um de nossa raça está no topo de todas as coisas. É o que afirma a oração após a comunhão da Missa de hoje: “Deus eterno e todo-poderoso... fazei que nossos corações se voltem para o alto, onde está junto de Vós a nossa humanidade”.

 

São Lucas exprime esta realidade, nos Atos dos Apóstolos, afirmando que Jesus “foi elevado ao Céu”e “uma Nuvem o encobriu, de forma que seus olhos não podiam mais vê-Lo”. Não pensemos aqui numa subida espacial, como se o Senhor Jesus fosse fazer uma viagem pelo espaço sideral, de um lugar para o outro. O “subir”, aqui, tem um sentido qualitativo: subiu para uma vida superior, para uma plenitude que não é deste mundo, subiu para a Vida divina, para o seio mesmo da Trindade Santa, para os Céus. Ele, agora, na Sua humanidade, está totalmente imerso no mundo de Deus. É este o significado da Nuvem que o encobre. Ela é símbolo do Espírito que, divinizando-O completamente, coloca-O diretamente no âmbito de Deus Pai. Por isso já não podemos mais vê-Lo com os olhos da carne.

 

Mas, a partida de Jesus não é um afastamento de nós. Ele estará, para sempre, interior e realmente, presente no coração da Igreja e de cada fiel através da potência do Seu Espírito Santo, Aquele mesmo no qual Ele fora glorificado. É o mistério que celebraremos no Domingo próximo. Na Glória, sentado à direita do Pai, Ele agirá sempre como “Cabeça da Igreja, que é Seu corpo”, vivificando-a, sustentando-a, e conduzindo-a sempre mais a Ele, até que venha “do mesmo modo como o vistes partir”.

 

Para nós, a solenidade hodierna tem dois aspectos muito importantes.

O primeiro, a certeza de que, por mais incerta e sem sentido que muitas vezes a realidade e a nossa vida apareçam, há um Senhor nos Céus, há o Cristo, que tudo tem, amorosa e poderosamente, em Suas mãos. Recordemos o que diz a segunda leitura: o Pai “manifestou Sua força em Cristo, quando O ressuscitou dos mortos e O fez sentar-Se à Sua direita nos Céus, bem acima de toda a autoridade, poder, potência, soberania ou qualquer título que se possa mencionar não somente neste mundo, mas ainda no mundo futuro”. Não há o que temer, cristão: teu Senhor é Aquele que tudo dirige, tudo conduz e tudo plenifica. Tu e o mundo em que vives, tu e a história em que caminhas, estão nas mãos Daquele que Se senta no trono, à direita do Pai.

Finalmente, ao olhar para o Céu, contemplamos, glorioso, Aquele que é nossa Cabeça, Aquele de cujo Corpo somos membros. Pois bem, a Sua Glória é antecipação e garantia da nossa, como diz a oração inicial da Missa: “membros do Seu Corpo, somos chamados a participar da Sua Glória”.

 

Caríssimos, não tenhamos medo! Ainda que com os olhos da carne não possamos contemplar Aquele que é o nosso Senhor e reina sobre tudo, sustentados pelo Espírito Santo e com os olhos da fé, temos a certeza que este mundo, a própria Igreja e a nossa vida têm um sentido e são conduzidos pelo Crucificado que foi glorificado à direita do Pai.

Renovemos o nosso ânimo e recordemos que o Senhor nos convida a voltar cheios de alegria, como os Apóstolos, e sermos testemunhas Suas em toda a terra. Sejamos fiéis ao mandato do Senhor, fortalecidos pela esperança que a Festa de hoje suscita em nós. É assim que glorificaremos o Cristo, bendito para sempre. Amém.

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