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Ex 32,7-11.13-14

Sl 50

1Tm 1,12-17

Lc 15,1-32

 

Na Solenidade do santo Natal, na segunda leitura da Missa da Aurora, a Igreja, olhando o Presépio, faz-nos escutar as palavras de São Paulo a Tito: “Manifestou-se a bondade de Deus nosso Salvador, e o Seu amor pelos homens. Ele salvou-nos, não por causa dos atos de justiça que tivéssemos praticado, mas por Sua misericórdia...” (Tt 3,4s). O Menino que veio viver entre nós, Jesus, nosso Senhor, é a bondade de Deus, é a Sua salvação misericordiosa...

Estas palavras são maravilhosamente ilustradas pela liturgia deste Domingo. Hoje, o Cristo nos é apresentado como a própria bondade, a própria ternura misericordiosa do Pai dos Céus, do nosso Deus.

Aquilo que já fora prefigurado por Moisés, intercedendo pelo povo pecador, na primeira leitura; aquilo que, na segunda leitura, São Paulo pregou e experimentou na própria vida: “Cristo veio ao mundo para salvar os pecadores. E eu sou o primeiro deles!” – tudo isso nós tocamos nas três parábolas da misericórdia do capítulo XV do Evangelho de São Lucas.

 

Sigamos a narrativa. Por que Jesus contou essas parábolas? Porque “os publicanos e pecadores aproximavam-se Delepara O escutar. Os fariseus, porém, e os escribas criticavam Jesus: ‘Este homem acolhe os pecadores e faz refeição com eles’.”

Aqui está: Jesus nosso Senhor era um fio de esperança para aqueles considerados perdidos, metidos no pecado, sem jeito nem solução... Os publicanos, as prostitutas, os ignorantes, os pequenos e desprezados, gente sem preparo e sem cultura teológica estavam aproximando-se de Jesus para escutá-Lo; viam Nele a ternura e a misericórdia de Deus. Os escribas e fariseus – homens praticantes e doutores da Lei – criticavam Jesus por isso. Ele Se misturava com os impuros, Ele acolhia a gentalha e os pecadores. Pois bem, foi para esses doutores que Jesus contou as parábolas, para mostrar-lhes que o Coração do Pai é ternura, é amor, é vida, é amplo como uma casa grande... Ora, o agir do Senhor nosso nada mais era que um reflexo, um sacramento do amor do próprio Deus de Israel, a Quem Jesus chamava de Pai: “Quem Me vê, vê o Pai; Eu estou no Pai e o Pai está em Mim! O Pai, que permanece em Mim, realiza Suas obras. Crede-Me: Eu estou no Pai e o Pai está em Mim!” (Jo 14,9.10b-11)

 

O Pai Se alegra, porque Jesus, o Bom Pastor, era capaz de deixar noventa e nove ovelhas para ir atrás daquela que se perdera totalmente, até encontrá-la!

O convite que Jesus estava fazendo aos escribas e fariseus era claro: “Alegrai-vos Comigo! Encontrei a Minha ovelha que estava perdida!”Alegrai-vos, porque o Coração do Pai está feliz: Ele não quer a morte do pecador, mas que se converta e tenha a Vida!

Do mesmo modo, na parábola da dracma perdida: Deus é como aquela mulher que acende a lâmpada e varre cuidadosamente a casa até encontrar sua moedinha. E não descansa até encontrá-la! Quando a encontra, como Deus, quando encontra o pecador, ela exclama: “Alegrai-vos comigo! Encontrei a moeda que havia perdido!”

O Deus que Jesus nos revela, o Deus a quem Ele chamava de Pai é assim: bom, compassivo, misericordioso, preocupado conosco e com cada um de nós, persistente, teimoso, perseverante no Seu amor por nós! Ele somente é glorificado quando estamos de pé, quando estamos bem, quando somos felizes. Mas, não há felicidade verdadeira para nós, a não ser juntinho Dele, que é o Pai de Jesus e nosso Pai. É isso que Jesus inculca com a terceira parábola, a mais bela de todas: o Pai e os dois filhos.

 

“Um homem tinha dois filhos”. Este homem é o Pai dos Céus. “O filho mais novo disse ao pai: ‘Dá-me a parte da herança que me cabe’”. Esse moço quer ser feliz, deseja ser livre, autônomo e imagina que somente vai sê-lo longe do olhar do pai. Assim, sem juízo, como que mata o pai, pedindo-lhe logo a herança. “e partiu para um lugar distante”. Quanto mais longe do pai, melhor, mais livre! E aí, dissipa tudo, numa terra pagã, longe do pai, longe de Deus. E termina na miséria, tendo esbanjado a vida, a felicidade, o futuro, o amor e o sexo... Vai pedir trabalho e dão-lhe o mais vergonhoso para um judeu: cuidar de porcos, animais impuros. E ele queria comer a lavagem dos porcos e não lha davam!

Em que deu o sonho de autonomia, de liberdade, de felicidade longe do pai! Tudo não passara de ilusão!

Mas, apesar de louco, o jovem era sincero: caiu em si, reconheceu que pecara. Não colocou a culpa no pai, nos outros, no mundo, no destino. Reconheceu-se culpado e recordou e confiou no amor do pai: “Vou voltar para meu pai e dizer-lhe: Pai, pequei contra o Céu e contra ti!” E volta! O jovem era corajoso, generoso, era sincero!

O que ele não sabia é o pai nunca o esquecera; esperava-o todos os dias, olhando ao longo do caminho. De longe, o avistou e o reconheceu, apesar da miséria e da fome e das roupas maltrapilhas. E, cheio de compaixão – como o Coração do Pai de Jesus – correu ao encontro do filho, cobriu-o de beijos e de vida, e restituiu-lhe a dignidade de filial. E deu uma festa!

O Pai é assim: não quer ninguém fora de Sua casa, de Seu coração, da festa do Seu amor, do banquete de Sua Eucaristia!

 

Mas, havia ainda o filho mais velho. Este, como os escribas e os fariseus, jamais havia desobedecido ao pai; cumprira todos os seus preceitos, os mandamentos da Lei. Por isso, ficou com raiva e não quis entrar na festa do pai: “O pai, saindo, insistia com ele...”

Notai que o mesmo pai que saíra ao encontro do filho mais novo, saiu agora ao encontro do mais velho, que estava perdido no seu egoísmo, na sua raiva, fora da festa e do aconchego do pai!

E o mais velho passou-lhe na cara: “Eu trabalho para ti há tantos anos e tu nunca me deste um cabrito para eu festejar com meus amigos...” O pai respondeu: “Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu...”

É que aquele filho nunca amara o pai de verdade: cumpria tudo, de tudo fazendo conta e, um dia, iria pedir o pagamento, a recompensa por tudo... Por isso nunca se sentira íntimo do pai, por isso não sentira que tudo quanto era do pai era dele também! Atenção, irmãos, que se pode estar junto do pai e nunca o conhecê-lo de verdade! Não era esta a situação daqueles escribas e fariseus?

Interessante que Jesus não diz se o filho entrou na festa do pai e na alegria do irmão ou se, ao contrário, ficou fora, onde somente há choro e ranger de dentes.

 

Pois bem, o Senhor nos convida hoje a acolher no Cristo Jesus a misericórdia incansável de Deus para conosco, um Deus que não sossega até nos encontrar... Mas, nos convida também a ser misericordioso para com os outros.

É triste quando experimentamos que somos pecadores, experimentamos a bondade acolhedora de Deus para com nossos pecados e, depois, somos duros, insensíveis e exigentes em relação aos irmãos.

Que o Senhor nos dê um coração como o Coração de Cristo, imagem fidelíssima, sacramental, do Coração do Pai, capaz de acolher o perdão e a misericórdia de Deus e transbordar esse perdão e essa misericórdia para com os outros. Amém.

 

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