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Homilia para a Solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Maria

December 7, 2019

 

 

 

Gn 3,9-15.20

Sl 97

Ef 1,3-6.11-12

Lc 1,26-38

 

A Imaculada Conceição da Virgem Maria – é este o mistério que neste dia celebramos. Hoje, a Virgem foi concebida no ventre de Ana, sua mãe.

Mas, que tem isso de mistério? É verdade que toda vida que brota é um mistério; é verdade que todo feto, desde o primeiro momento de sua existência, seja desejado ou indesejado, esperado ou vindo de surpresa, são ou defeituoso, é já uma vida humana e, portanto, um milagre de Deus, um sorriso de Deus, um presente de Deus, imagem de Deus – apesar dos monstros de hoje, dessa humanidade desalmada e sem Deus, desejarem tanto negar a dignidade da vida humana desde o seu primeiro momento...

 

Repitamos a pergunta: Se é assim, se cada concepção neste mundo é um mistério, o que tem de extraordinário a concepção daquela que será a Mãe do Cristo-Deus?

Eis o mistério, eis a novidade, eis o extraordinário: no momento mesmo em que Ana, idosa e estéril, concebeu a Virgem Santa, ela, por ser destinada a ser a Mãe do Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, foi preservada da mancha do pecado original. Em outras palavras: a Virgem Maria, desde o primeiro momento de sua existência no ventre materno, foi preservada daquela marca negativa, daquela solidariedade no mal, daquela situação de fechamento e desarmonia, que mancha e fere a nossa natureza humana. Portanto, a ela, e só a ela, o Senhor pode exclamar, com as palavras do Cântico dos Cânticos: “Como és bela, Minha amada, como és bela! És toda bela, Minha amada, e não tens um só defeito!” (4,1.7).

Que o Senhor Deus exclame assim! Que a Mãe Igreja cante assim! Que a humanidade exulte assim!

 

A Igreja, desde muito cedo, foi compreendendo sempre mais este mistério da Imaculada Concepção de Nossa Senhora: ela, a Virgem, fora preservada do pecado graças aos méritos do Cristo, que com Sua Paixão, Morte e Ressurreição nos libertou do pecado.

Como diz São Paulo aos Romanos: “Todos pecaram e todos estão privados da glória de Deus e são justificados gratuitamente por Sua graça, em virtude da redenção realizada em Cristo Jesus” (3,23s). Com efeito, sem Jesus nosso Senhor, sem a Cruz redentora que Deus já antevira eternamente, a Virgem seria tão pecadora quanto todo o resto da humanidade! Mas, a mesma Cruz de Cristo que nos arrancou da lama do pecado, sequer permitiu que a Mãe do Cordeiro Imaculado pela lama do pecado fosse tocada! Que grande providência de Deus! Que amorosa sabedoria! Nossa Senhora, mais que todos nós, pode e deve cantar as palavras do Profeta: “Com grande alegria rejubilo-me no Senhor, e minha alma exultará no meu Deus, pois me revestiu de justiça e salvação, como a noiva ornada de suas joias!” (Is 61,10). Nossa Senhora, de sorriso escancarado, pode erguer o olhar para o Senhor e exclamar: “Eu Vos exalto, ó Senhor, pois me livrastes, e não deixastes rir de mim meus inimigos!” (Sl 29,2) Em Maria começou a manifestar-se a vitória de Cristo contra o Inimigo da nossa raça humana...

 

Se pensarmos bem, veremos que este mistério deita suas raízes na antiguidade, nos primórdios do sonho de Deus. A primeira leitura, do Livro do Gênesis, nos diz que, quando toda a humanidade foi marcada pelo pecado, pelo “não” a Deus – esse “não” no qual todos nós já nascemos e que tantas e tantas vezes vamos dizendo e aprofundando –, o Senhor prometeu uma inimizade entre Satanás e a Mulher, entre a descendência de Satanás e a da Mulher: “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta te ferirá a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar”. Eis, que mistério tão grande: uma queda, uma miséria, uma misericórdia, uma inimizade, uma promessa! E, desde então, toda a história da humanidade, todo o caminho de Israel, todo o Antigo Testamento, foram um correr para essa promessa, um esperar por esse cumprimento tão santo! Porque, desde o início, Deus tem um plano, e Seu plano é nos enviar o Salvador, de modo que tudo quanto o Pai bendito pensou e sonhou para nós, é pensando em Cristo e em função de Cristo que o fez. Escutemos o Apóstolo: “Em Cristo, Deus nos escolheu antes da fundação do mundo, para que sejamos santos e irrepreensíveis sob o Seu olhar, no amor. Ele nos predestinou para sermos Seus filhos adotivos por intermédio de Jesus Cristo, conforme a decisão de Sua vontade!” Se Deus tudo pensou para nós em Cristo, se em Cristo nos predestinou, a Igreja crê firmemente que, desde o princípio, aquela Mulher anunciada no paraíso, fora predestinada para ser a Mãe do que esmaga a Serpente, fora marcada para ser a inimiga de Satanás, aquela que não tem nenhuma amizade com o pecado, nenhuma convivência com a descendência da Serpente! E tudo isso, por graça de Deus em Cristo!

 

Podemos, então, compreender o modo como Gabriel, no Evangelho, saúda Maria. Como a chama? Não diz o seu nome “Maria”, mas chama-a com um nome novo, aquele que somente Deus, que sonda os corações, poderia conhecer. Escutemos o Anjo, admiremos: “Alegra-te, ó Toda Agraciada! O Senhor é contigo!” Toda Agraciada, isto é, toda invadida, inundada pela graça, pelo favor de Deus! Na Virgem Maria não há lugar algum para a “des-graça” do pecado. Nela, em quem o Santo de Deus, o Cristo, o Santo Messias, deveria habitar, não pode, não pôde, não poderá nunca haver lugar para o pecado! Desde o primeiro momento de sua existência, a Virgem foi escolhida e predestinada para a Mãe do Salvador. Não esqueçamos a palavra da Escritura: “Em Cristo, Ele nos escolheu antes da fundação do mundo, para que sejamos santos e irrepreensíveis sob o Seu olhar, no amor.” É este mistério que celebramos!

 

Se Cristo é o Dia, a Virgem é a Aurora;

se Ele é o Sol, ela é a Estrela d’Alva;

se Ele é o Fruto, ela é a Flor bendita!

Como é bela a Solenidade deste hoje: é aurora do santo Natal! Aquele que ilumina a noite de Belém e do mundo é prenunciado pela luminosidade da Virgem Imaculada!

 

Caríssimos, vivemos num mundo cada vez mais sem graça, um mundo literalmente “des-graçado”, isso, é fechado para a graça. Pois bem: nesta realidade sem graça, celebrar a Imaculada Conceição da Mãe de Deus é proclamar a vitória da graça sobre o pecado, é renovar nossa certeza na força que vem da Cruz e Ressurreição do Senhor, que dissipa as trevas e vence o mal.

 

Ó Maria Santíssima, Virgem imaculada desde a Conceição,

intercede por nós, intercede por toda a Igreja, intercede pela humanidade:

que lutemos contra o pecado, do qual tu foste preservada desde o primeiro momento de tua existência!

Que a força do Cristo Salvador, que não deixou o pecado te atingir, não deixe que o pecado nos vença!

 

Ó Alegria do mundo, Estrela d’Alva,

nenhuma outra como tu nos guia!

És o braço do Deus Forte que nos salva,

Virgem Maria!

 

És um Raio de luz lançado à treva,

para aquecer a terra fria!

Imensa Aurora, a Vida em vós se encerra,

Virgem Maria!

 

Só o trono de Deus é mais sublime,

que o teu trono, à luz do eterno Dia!

Ó Santa Mãe da Paz que nos redime,

Virgem Maria!

 

Ó Maria, concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a vós!

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