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Meditação VI: Demônios a vencer em Cristo -Retiro Quaresmal 2020

March 2, 2020

 
Meditação VI: Demônios a vencer em Cristo

 

Reze o Salmo 119/118,41-48

Como lectio divina, leia Tb 3,7-18.

 

1. Nesta perícope que agora vamos meditar, a cena se passa do outro lado do Império Assírio. Agora, a protagonista é uma jovem infeliz, Sara. Essa moça encontrava-se muito distante de Tobit geograficamente; os dois sequer se conheciam... O que os une é a infelicidade de uma vida em tribulações... Mas, “em todo lugar os olhos do Senhor estão vigiando os maus e os bons (Pr 15,3); o Senhor tem os olhos sobre os justos e os ouvidos atentos ao seu clamor. Eles gritam, o Senhor escuta e os liberta das angústias todas. O Senhor está perto dos corações contritos; Ele salva os espíritos abatidos. Os males do justo são muitos, mas de todos eles o Senhor o liberta” (Sl 33/34,16.18-20). Bendita e consoladora consciência, bendita e consoladora certeza saber que o Senhor tudo vê, tudo penetra, de tudo cuida com a Sua providência. Reze o Sl 138/139.

 

2. A narrativa dá conta de que Sara era atormentada por um demônio, Asmodeu, que lhe matava os maridos. O nome Asmodeu significaria “aquele que faz perecer”. Na tradição judaica, ele é inimigo da união conjugal e, na tradição posterior, seja no judaísmo como no cristianismo, tem a ver com tudo quanto se liga à luxúria, sensualidade, infidelidades conjugais, tudo quanto deturpe o sentido que o Senhor Deus pensou para a sexualidade, para o amor conjugal e familiar, para a geração da vida no seio do casal humano. Com nossa mentalidade contemporânea, cientificista, presa no que tocamos, medimos, vemos e compreendemos com a medida da nossa razão, temos a tentação de imediatamente rir e tomar por folclore ou crendice a existência dos demônios e sua ação no mundo e na vida das pessoas. No entanto, a Palavra de Deus e a constante Tradição da Igreja nos ensinam sobre a realidade e seriedade da existência do Diabo e seus demônios, bem como a sua ação no mundo. Trata-se de mistérios que nos ultrapassam. Com sobriedade e levando a sério a divina revelação, devemos sim afirmar a existência de seres imateriais, criados pelo Senhor Deus, seres livres e capazes de acolher a comunhão com Deus, como os anjos, e capazes de dizer um “não” radical a Deus, pervertendo-se e tornando-se perversores, como o Diabo e seus demônios. É pouca inteligência das coisas de Deus tratar a existências dos demônios como mito! Há, sim, forças malignas no universo, forças que nos ultrapassam.

 

3. Leia Ef 6,10-13. Neste texto, para além da linguagem mítica, utilizada pelo Apóstolo, há a verdade clara, o ensinamento com autoridade divina: a criação é perpassada por uma misteriosa luta com um tremendo “mistério da iniquidade”, que tem como raiz única o “Príncipe deste mundo” (cf. Jo 14,30; 16,11; 2Cor 4,4). Vale a pena ler as seguintes citações, que resumem como o Senhor Jesus lutou contra essas forças tremendas e as venceu: Jo 6,70s; 8,44; 12,31; 13,27; Ap 12,4.17; 13,2; Lc 22,3; 1Cor 2,8. Enquanto perdurar este mundo, até o Dia de Cristo (cf. 1Cor 1,7-9; Fl 1,6.10; 2,16), quando serão julgados e “acorrentados” definitivamente no Abismo da separação de Deus, os demônios gozam de uma liberdade limitada para exercerem suas perversões na terra (cf. Ap 9,5), sobretudo no meio da humanidade. É assim que, de vários modos e em medidas diversas, eles “possuem” as pessoas, as sociedades, as culturas. Essas “possessões”, isto é, essas ações malignas, podem se dar (1) em estado puro, quando os demônios podem dominar o corpo de alguém, mas nunca a alma, (2) em forma de obsessão, isto é, de doenças que, aparentemente são naturais, mas, na realidade, podem ser causadas por ações preternaturais dos demônios, ou ainda como influxos negativos que “infernizam”, “demonizam” a vida e os projetos e ações das pessoas e, finalmente, (3) na tentações, quando os demônios aproveitam-se dos nossos mecanismos psíquicos, das nossas fragilidades e limitações para sugerirem o mal... Trata-se, sem dúvida de realidades muito misteriosas, mas verdadeiramente reais e concretas. O mais importante e definitivo é que Jesus nosso Senhor destruiu completamente o reino de Satanás e seus demônios (cf. Mt 12,28; Lc 10,17ss; 4,6; Cl 2,9-15; 1Jo 3,7s)

 

4. Atenção: a Palavra de Deus não é revelação sobre os demônios e sua ação: de modo algum este é o seu centro de interesse! As Escrituras dão conta da revelação do poderoso amor de Deus que se manifestou, que veio a nós, pessoalmente, em Jesus Cristo, nosso Senhor, dissolvendo o mal e a morte! Nele fomos salvos e libertos de toda ação do Maligno e do poder das trevas do pecado e da morte. Este é o centro das Escrituras, é sua mensagem, é o Evangelho! Mas, como um contraponto, as Escrituras Santas nos previnem que a luta vencida pelo nosso Salvador, deve ser assumida, com Cristo, por Cristo e em Cristo, por cada um de nós! Os demônios agem e agem inclusive sobre as nossas fraquezas, incitando-nos à preguiça espiritual, à descrença, à queda, ao menosprezo das coisas de Deus, à falta de vigilância, à entrega aos nossos instintos, tendências más e vícios... Há um combate a ser travado! Com sabedoria, os antigos monges do deserto chamavam nossos vícios, isto é, nossas más tendências, de demônios e identificavam sete demônios principais no nosso interior: o demônio da soberba, da avareza, da ira, da tristeza, da inveja, da gula, da preguiça e da luxúria... Esses malditos demônios, agindo em nós e nos vencendo, abrem as portas do nosso coração para muitos outros vícios que vão se enraizando em nós e destruindo nosso coração. Tornam-se fortes e nos escravizam! É preciso que venha o mais forte, que é o Cristo, e os acorrente e nos liberte. Leia Lc 11,20-22. Pense um pouco: a partir da lista dos sete principais demônios que podem enraizar-se no nosso coração, quais são os seus principais demônios? Você os tem combatido? Como? No Livro de Tobias e na inteira tradição da Igreja, as principais armas de combate contra os demônios são a oração, o jejum e a esmola, isto é, (1) a abertura para o Senhor com um coração pobre, orante humilde, atento à Sua Palavra, (2) a penitência e disciplina e moderação nos alimentos e demais prazeres e (3) a abertura de coração para os demais, ajudando-os nas suas necessidades materiais e espirituais, com as obras de misericórdia.

 

5. Leia Mt 4,1-11; Lc 21,34-36; 22,31-34; Mc 14,32-42; 1Pd 5,8-11. Agora reze o Sl 91/90.

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